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Entrevista da semana - Kotscho: jornais voltam às origens

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 10 min

O jornalista Ricardo Kotscho freqüenta a redação da Capital, há mais de 20 anos, onde se tornou um dos mais respeitados da grande imprensa. Porém, Kotscho não chegou a completar o curso de graduação na área na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). Ele é um dos defensores da prática do jornalismo sem a obrigação do diploma, proposta combatida pelo sindicato da categoria, mas aponta um aspecto muito mais prejudicial à profissão do que o canudo universitário: a arrogância e presunção.

Sem generalizar, Ricardo Kotscho faz uma crítica aos colegas, diz que a imprensa regional é a que mais cresce no País nos últimos anos e compara o jornalismo do novo século com o do tempo em que velocidade na informação era datilografar um texto em uma velha máquina e, literalmente, colar as tiras de notícia em uma página.

O mercado mudou e o jornalista acredita que após a explosão da Internet a tendência da mídia impressa é retomar o aprofundamento da cobertura jornalística. Ele concedeu entrevista em São Paulo, durante encontro dos 15 maiores jornais do Interior do Estado com o candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Ricardo Kotscho deixou, há pouco mais de 30 dias, a Redação da Folha para se dedicar à coordenação de comunicação da campanha do candidato petista. Leia a entrevista na íntegra:

Jornal da Cidade - Qual a visão de jornalismo do Ricardo Kotscho iniciante e na atual fase da imprensa? Ricardo Kotscho - É muito contraditório isso. De um lado mudou tudo. As tecnologias deram muita velocidade e facilidade ao jornalismo atual. A primeira matéria grande que eu mandei para o jornal foi sobre a morte do presidente Castelo Branco, em um acidente aéreo no Ceará. Eu enviei a matéria com muita dificuldade na época, por telégrafo. Hoje seria moleza enviar essa matéria. Veio o telex, fax, lep top, Internet. Agora a natureza do jornalismo mudou. Mas o processo de produção da matéria é exatamente o mesmo. É você descobrir uma história, ir atrás, escrever e entregar para o editor. E brigar para que a matéria saia. Digo isso. Independentemente do veículo, rádio jornal ou televisão, independente da função, repórter, chefe, a natureza do jornalismo é a mesma: contar história. Mudaram o instrumento, não a natureza.

JC - A velocidade ampliou o horizonte para o imediatismo da notícia. Mas existe ou não o conflito da velocidade contra o conteúdo na imprensa? Kotscho - O que aconteceu nos anos 90 foi uma experiência do jornalismo curto, rápido, visual, que concorria com a televisão e não deu certo. Alguns jornais brasileiros tentaram copiar com muita cor, muito mapa, muito gráfico a experiência americana. Eu tinha a sensação de ter me informado mais vendo a televisão na véspera do que lendo o jornal no dia seguinte. Aos poucos acho que os jornais estão voltando à sua natureza, que é o de aprofundar os temas. Essa é a característica principal. Não acredito na tese de que a imprensa de papel vai acabar. Não vai. Vai mudar.

JC - Os jornais impressos conseguem aprofundar fatos hoje? Kotscho - A missão do imediatismo é do rádio, das notícias on line e da TV, ao vivo. O jornal tem que aprofundar, assim como a revista semanal tem que dar muito mais elementos ao leitor. Nem se compare o livro, que tem que ser até detalhista, descritivo. Isso é como quando surgiu o cinema. Disseram na época que ia acabar o teatro. Não acabou e não vai acabar. Quando surgiu a televisão também falaram isso do cinema. O profissional tem que ser multimídia. Tem que estar preparado para trabalhar em TV, jornal, rádio, assessoria. Para isso tem que ter capacidade de exercer diferentes funções em meios diferentes.

JC - Qual a relação entre a grande imprensa e os jornais regionais? Kotscho - Eu sou fascinado pela imprensa regional. Uma das melhores experiências que eu tive foi quando fui contratado pelo canal 21 da Bandeirantes, que é uma TV local. Me mandaram para Toronto, no Canadá, onde tem uma televisão local. E é a TV com maior audiência por lá. A imprensa regional cresce porque, com a globalização, as pessoas estão sendo alimentadas com informações o tempo todo e em grande quantidade. Mas o diferencial para as pessoas é saber o que acontece na sua rua, no seu bairro, na sua cidade. E isso o jornal regional faz com muita capacidade. O mundo está nas mãos o com a TV e a Internet. Mas a correria do cotidiano não deixa as pessoas saberem o que está acontecendo no bairro ao lado. E esse papel é da mídia local. Os jornais regionais estão crescendo e isso é muito bom.

JC - Mas isso é nos jornais. O modelo de concessão de canais de rádio e TV é o ideal no Brasil? Kotscho - O modelo de concessões ainda é arcaico. O último setor da sociedade brasileira que ainda não foi democratizado é o de comunicação. É o último setor que ainda está nas mãos dos coronéis. Está com a família Sarney, ACM e outros. A distribuição de canais de rádio e televisão é um negócio escandaloso no Brasil. O antigo coronel político, das fazendas, hoje é o coronel da comunicação. Em troca dos cinco anos de mandato do Sarney e outros exemplos ampliou-se o poder das oligarquias regionais com o poder político, econômico e da comunicação. No Norte e Nordeste isso é muito claro. É o único setor que ainda não foi democratizado no País.

JC - Há hipocrisia no cidadão que rejeita a conscientização política, assiste tanta bobagem na TV e cobra, alienado, um mundo melhor? Kotscho - É uma grande hipocrisia. É contraditória a relação. Porque a informação foi tão democratizada. Hoje existem tantos meios para o sujeito se informar que ele não tem o direito de dizer que não sabe o que está acontecendo, que não leu, que não viu. Por outro lado, a concentração de poder na área é enorme. 90% de toda a informação no País ainda estão nas mãos de 10 famílias. Acho até que a avalanche de informações superficiais pode estar a serviço da despolitização, por falta de conteúdo do cidadão. E a grande avalanche de bobagens repete esse processo. A sociedade tem que parar de ficar esperando tudo do poder. A sociedade está começando a se organizar por ONGs.

JC - O jornalista é presunçoso? Kotscho - É muito presunçoso, ainda é arrogante. E sinto isso muito mais hoje do que quando comecei, há 30 anos. Quando eu comecei o jornalista tinha mais o sentido de servir a sociedade. Era o ciclo do Cláudio Abramo, do Dines, do Mino Carta. O jornalista estava onde o leitor não estava e passava a contar para ele. Hoje o jornalista se sente, em muitas ocasiões, mais importante do que a notícia, que o fato. E o que mais me revolta são expressões disso em situações simples. Eu participei por mais de 10 anos do Programa Roda Viva, da TV Cultura. Um belo programa. Eu me preparava, pesquisava, buscava informações sobre o entrevistado. Fazia o básico. Hoje eu vejo jornalistas indo lá não para perguntar, mas para afirmar coisas. Eles querem ser mais importantes do que o sujeito que está no meio da roda. Esse é bem um exemplo de como as coisas estão deformadas. O bom jornalista é como um bom juiz de futebol, é o que não aparece na notícia. Pode aparecer no questionamento, não no conteúdo. O jornalista não é personagem, ele é instrumento. Tem que brigar por coisas sérias, perguntar, mas não pode ser mais importante que o entrevistado.

JC - O senhor defende que modelo, o jornalista “clínico geral” ou especializado? Kotscho - Já passei por todas essas “clínicas”. Antes tinha que ser geral, depois passou a ser especializado. São ondas que acontecem. O importante é você escolher uma profissão como opção de vida e dentro dela fazer o que você se sente melhor. Existem tantas opções. O importante é fazer com prazer, ser feliz, independente das ondas. Ser correspondente da Globo em Londres pode ser uma boa ambição e é natural. Mas a ambição não pode ser maior que o seu compromisso. O jornalista tem que ter compromisso com a sociedade, com seu tempo, com a transformação. Nesse aspecto ele deve brigar contra o errado e pelo que vê que é certo. Se ele quer ser superficial é melhor procurar outra carreira.

JC - O jornalista, o promotor o juiz ainda fazem da língua um instrumento de obstáculo junto à sociedade? Kotscho - É um absurdo isso. Quem mostrou muito isso foi o Jânio Quadros. Fiz muita matéria com ele. Ele falava uma língua que a maioria das pessoas não entendia. Era um sucesso popular porque era até folclórico, mas as pessoas não entendiam o que ele falava e achavam que ele era um gênio. Quem lida com a sociedade, com juiz, o promotor, o jornalista, tem que se fazer entender e não precisa ser absolutamente coloquial para exercer esse papel.

JC - Qual sua opinião sobre a necessidade do diploma para exercer o jornalismo? Kotscho - Fico muito à vontade para falar sobre isso, porque fui da turma da ECA/USP de 1967 e não me formei até hoje. Perdia muita aula. Escola não atrapalha, escola ajuda. Como jornalista foi melhor o curso de ciências sociais do que o de jornalismo para a profissão. Quanto mais você estudar é melhor para o jornalismo. Agora cansei de ouvir as pessoas dizerem que você tem que ser bom em inglês e dominar a informática. Não é verdade. Ser bom jornalista não está associado a isso. É claro que ajuda a escola. Mas mais do que isso é o que move a pessoa. A percepção, a sagacidade, ter sentido do que fazer e como. Tem que ter paixão. E outra. Pode liberar o diploma que os bons jornalistas não vão perder emprego para ninguém. O jornalista vive todo o instante da notícia. Um economista, advogado ou profissional liberal exerce outra função na sociedade. Jornalista é opção de vida. Ainda mais em um país como o nosso. Você se esfola para dizer o que está errado, é perseguido. É opção de vida.

JC - O jornalista é realizado ou convive com a frustração? Kotscho - Quem escolheu o jornalismo como opção não vai ficar frustrado. Poder escrever o que você viu, o que você pensa é fantástico. Tenho um amigo, Carlito Maia, que diz: Podem não publicar tudo aquilo que eu escrevo. Mas não podem me obrigar a escrever aquilo que eu não penso. O jornalista que vive isso no dia-a-dia não vai ser “queimado” em uma empresa. Eles vão querer esse cara sempre. O cara que não fica na pauta trivial, que cultiva boas fontes, que tem capacidade de questionamento. Por mais ruim que possa ser um veículo, o dono terá que sucumbir a uma ou várias histórias bem feitas por um jornalista. É isso que move a profissão e a empresa. O jornalista não tem o direito de ser triste, frustrado, dizer que não dá. Ele precisa brigar todos os dias por aquilo que sua consciência diz que está errado. Precisa consertar o que está errado e dizer o que está certo. O jornalista tem dificuldade em dar notícia boa. Você só transforma a realidade quando diz o que está errado e fala o que está dando certo.

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