Aos 64 anos, o cirurgião plástico e craniofacial Silvio Antonio Zanini é homem que sabe como poucos o significado mais amplo da palavra superação. Ex-maratonista e ex-professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Porto Alegre, ele descobriu, há 16 anos, ser portador de uma rara doença degenerativa chamada esclerose lateral amiatrófica (ELA) - um mal que pode ser fatal e que o colocou numa cadeira de rodas e lhe afetou a fala.
Mas Zanini resiste. Além de ser responsável pela unidade de cirurgia craniofacial do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP), o Centrinho, de Bauru, que ele mesmo criou em julho de 1989 - o médico também virou escritor. É autor, entre outros, do livro “Apenas Pequenos Detalhesâ€, publicado pela Editora Revinter, onde descreve sua luta pela vida (e pela vida dos outros, na qualidade de médico). No conto que dá nome ao livro, Zanini é enfático: “Vida e morte são muito iguais, diferentes apenas em pequenos detalhesâ€. Por e-mail, de sua casa em Porto Alegre (RS), Zanini concedeu uma entrevista para o JC. A seguir, os melhores trechos.
Jornal da Cidade - O senhor sempre quis ser médico ou tinha outros sonhos quando criança?
Silvio Antonio Zanini - Fui quase de tudo: fiz o curso de pilotos da Varig e já era pecuarista e criador de cavalos crioulos, quando fiquei doente.
JC - Como é ser médico num país ainda tão afetado por doenças como a dengue a febre amarela: é uma profissão ou é uma provação, uma missão na vida?
Zanini - É uma provação e uma aventura.
JC - O que é essa doença com a qual o senhor se viu obrigado a conviver do dia para a noite? Existem formas de prevenção?
Zanini - Não, apesar dos grandes progressos da medicina ainda há doenças de causas desconhecidas e essa é uma delas. Por isso não há como fazer uma prevenção.
JC - Acostumado à limitação alheia, o que passou pela sua cabeça quando descobriu que estava doente e que, de alguma forma, sofreria uma inversão de papéis e também se tornaria paciente?
Zanini - Eu já me deparara com a nossa limitação de humanos e médicos quando fizera um ano de cirurgia de câncer de cabeça e pescoço, e via os pacientes morrerem apesar de tratamentos bem-feitos e da dedicação dos médicos.
JC - Como tem sido o seu cotidiano nesses 13 anos de superação diária?
Zanini - Às vezes, fico cansado, especialmente na viagem de carro de São Paulo a Bauru. E em outras vezes triste, quando vejo o “predião†(nova unidade do Centrinho, em construção) vazio por falta de verbas, com tanta gente precisando dele.
JC - Como é o apoio da família, em especial, de sua esposa, dona Nilva?
Zanini - O apoio da família é muito importante nessas doenças incapacitantes que liquidam com a autonomia. As pessoas, às vezes, confundem o amor com a posse, especialmente proteção com absorção. Quem sabe as diferenças, saberá também entender as dificuldades dos que ainda não encontraram a sabedoria.
JC - O ator norte-americano Christopher Reeve, que voava nas telas do cinema como o Super-Homem em quatro filmes, diz que pensou em se matar quando se viu tetraplégico, depois de uma queda numa prova de equitação. Numa situação-limite como essa, como afastar os pensamentos negativos?
Zanini - Pensamentos sombrios assaltam a todos nós, em certas ocasiões, mas devemos lembrar sempre que, quando há vida, sempre há esperança, e, por piores condições em que estejamos, sempre haverá alguém a quem podemos estender a mão. E se fizermos isso, encontraremos a compensação de todo nosso sofrimento.
JC - Além de “Apenas Pequenos Detalhesâ€, lançado há três anos, o senhor pretende escrever mais algum livro para compartilhar sua história?
Zanini - Agora, fiz a revisão do último livro: “ELA (Esclerose Lateral Amiatrófica) e Euâ€, onde sigo relatando minha experiência após esses anos com a doença crônica e degenerativa, e comento algumas tentativas de tratamento pela medicina ortodoxa e alternativa. Esse livro foi escrito a pedido da Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiatrófica (Abrela). Entreguei os originais revisados há alguns meses para a Editorial Lemos, que não sabe me informar quando será lançado.
JC - Em sua coluna bimestral no jornal “Em Focoâ€, do Centrinho, o senhor demonstra ter espírito esportivo e bom humor. A alegria de viver é o segredo do sucesso e do bem-estar para todos nós?
Zanini - Isso já está cientificamente provado. Mesmo os doentes terminais têm melhor qualidade de sobrevida se conseguem se manter otimistas e alegres, apesar de tudo.
JC - Qual o seu recado para quem vive se queixando da vida?
Zanini - Nunca desanime, pois como diz meu irmão Tulio: “Até um pé na bunda nos bota pra frenteâ€.
"A Morte Não é o Fim"
“À noite, na cama, viro e reviro o saco de ossos e músculos atrofiados e inúteis, em que se transformou meu corpo. Procuro acomodá-lo para acalmar os ‘latidos ferozes’ de todas as dores, uma por uma. Quando todas estão quietas, tateio no escuro de meus pensamentos uma memória boa para embalar meu sono.
Com as memórias vêm outras idéias que vão com elas, fazendo histórias. Todas querem sair dali para o papel, mas umas são desinteressantes, outras são estapafúrdias e finalmente poucas são aprovadas, acrescidas de uma pitada de fantasia, porque a vida também o é...â€
Trecho da crônica “A Morte Não é o Fimâ€, do livro “Apenas Pequenos Detalhesâ€, Editora Revinter