Ensina-nos a moral religiosa que o homem pode pecar, e peca, tanto por ação quanto por omissão. A gravidade dos pecados cometidos varia na proporção do grau de consciência com que os seus agentes os levaram a cabo.
Quanto aos erros cometidos por ação, não nos parece necessário oferecer exemplos, tal a obviedade de que se revestem. Dos por omissão, porém, existe sempre a possibilidade de não serem devidamente percebidos. Por exemplo, quem dispõe de veículo de comunicação social e não o orienta no sentido de prestigiar e promover o bem comum, nem chega a precisar utilizá-lo em sentido contrário, para que esteja peando, ou errando, por omissão.
Exemplo frisante e dramático do que acabamos de afirmar, encontramo-lo nos veículos eletrônicos, entre os quais os televisivos. Já imaginaram os leitores o formidável bem que poderiam fazer se, sem prejuízo do seu papel de divertir e de informar, se ocupassem com dar procedência, em suas programações, à promoção do bem comum, via valorização do que é justo e construtivo, do ponto de vista das bases das nossas raízes culturais, em lugar de fazê-lo, cedendo à tentação do lucro fácil, explorando as paixões mais baixas que existem no íntimo da criatura humana? No exemplo em causa, estão presentes, simultaneamente, como a inteligência do leitor percebe, exemplos de erros por ação e por omissão.
Mas por que, no caso citado, tornam-se possíveis os erros praticados e os grandes prejuízos que eles acarretam? É porque, os fazedores de leis, que deveriam representar o povo, ressalvadas as exceções da praxe, representam em primeiro lugar os seus próprios e particulares interesses. E estes passam pela “promoção†de suas “imagens†perante o eleitorado que, tantas vezes, em lugar de serviço, é apenas enganado. Daí, a possibilidade dos veículos a que nos estamos referindo, freqüentemente desrespeitarem, impunemente, a própria Constituição no capítulo referente à comunicação social. Por outro lado, e por idênticos motivos, permanece inerte o guardião principal da referida Constituição, cuja observância e defesa promete e jura defender ao empossar-se.
Assim, de ação em ação, de omissão em omissão, proliferam os Calabares do ideal democrático que vivem a proclamar e exaltar. Daí, a decepção indisfarçável do povo em relação aos políticos e às agremiações a que pertencem ou, melhor, que pertencem a eles, pois dos conciliábulos entre as pequenas clíques que os manipulam, saem as decisões que, posteriormente, tentam impingir aos eleitores. Os episódios recentes da busca de candidatas, de preferência bem dotadas esteticamente falando, e a dos “marqueteirosâ€, especializados em “vender imagens†de candidatos através de pura e simples propaganda, tal como se tratasse de novas marcas de sabão em pó ou de qualquer outro produto, constituem-se em escandalosos exemplos do nível a que já se chegou em matéria de falsificação e de embuste.
Enquanto isso, o somatório das ações dos calabares, vem transferindo o controle das nossas empresas - e não apenas das estatais, mas também das particulares, 70% das quais já passaram a controle acionário estrangeiro - com erosão da nossa auto-estima e da esperança das novas gerações, cada vez mais céticas e mais vulneráveis às tentações de “fugas†e “viagens†que supõem possam preencher o vazio em que ações e omissões criminosas vão transformando, criminosamente, os seus ideais e sonhos de auto-realização. O assunto é grave e pretendemos voltar a ele, se Deus quiser. (Jorge Boaventura - Home-page: www.jorgeboaventura.jor.br/E-mail: brasil@jorgeboaventura.jor.br)