Ser

"Detetive" de gente

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 7 min

Ana Paula Cardia Soubhia é assistente social do Abrigo para Idoso e Deficientes da Sociedade Beneficente Cristã há um ano e meio. Na verdade, ela atua meio como “detetive” porque muitos dos idosos abrigados não sabem por onde andam suas famílias e Ana Paula tenta desvendar os caminhos que possam levar essas pessoas a reencontrar seus parentes.

Dos 230 idosos assistidos atualmente pelo Abrigo da Sociedade Beneficente Cristã, apenas 106 têm informações sobre as respectivas famílias. “A maioria delas a gente não tem nem por onde começar a procurar”, lamenta a assistente social.

Na semana passada, porém, a assistente social conseguiu localizar a família de Zélia Esquezardi Pinto, 74 anos, portadora de esquizofrenia, que não tinha notícias de sua família há 42 anos. Zélia não tinha nem cédula de identidade quando chegou à entidade. Foi buscando colocar em dia a documentação pessoal de Zélia que a assistente social localizou sua certidão de casamento. Depois, com um pouco mais de pesquisa por parte de Ana Paula, foi descoberto o endereço da família, que correu para reencontrar Zélia.

Mas nem sempre é assim, ainda há muito o que se fazer para conseguir reintegrar os idosos da Instituição às suas famílias.

Leia em seguida a entrevista com a assistente social Ana Paula.

Jornal da Cidade - Esse trabalho que você realiza é parecido com o de um detetive, já que vocês abrigam, na instituição, idosos que perderam o contato com seus familiares e você tenta, através de pequenas pistas descobrir onde se localizam essas pessoas. Como é esse trabalho?

Ana Paula - Na realidade, não necessariamente porque a pessoa ficou abrigada, ela perde o vínculo familiar. A entidade tem casos de pessoas que, mesmo estando abrigadas, recebem visitas, existindo um vínculo com a família, mas infelizmente, a maioria das pessoas perdeu o vínculo familiar. Temos muitos casos de pessoas que não têm dado nenhum e aí que entra esse trabalho de pesquisa para descobrir alguma coisa ou alguém ligado a essa pessoa que vive aqui com a gente. É um número significativo de pessoas que estão em situação de abandono.

JC - Quantas pessoas aqui estão nessa condição?

Ana Paula - Dos 230 idosos que abrigamos, apenas 106 têm informações sobre suas famílias. A maioria não sabemos por onde começar a procurar.

JC - Quais são as dificuldades que você enfrenta em relação a essas pessoas.

Ana Paula - Essas que nós não temos dados, são pessoas que estão há muito tempo na instituição, então elas concebem este lugar como a casa delas. Nós trabalhamos com idoso e com portador de deficiência. A maioria é deficiente mental, então a vida dessas pessoas é na instituição. De uma certa forma, essa é a família que eles têm, então acaba se formando um vínculo entre eles.

JC - Então com essa família que eles formam na instituição, eles não sentem falta de ter sua verdadeira família...

Ana Paula - Eles sentem falta sim. A concepção de família, pai, mãe, é uma referência para qualquer indivíduo, então eles falam da mãe, do pai, mas alguns estão abandonados mesmo e isso faz com que nós não possamos garantir nada em relação a isso.

JC - Há um trabalho que você realiza com eles no sentido de tentar resgatar vínculos?

Ana Paula - Sim, nós trabalhamos muito com isso. Eu e a nossa psicóloga Paula Guimarães Motta Canho, realizamos esse trabalho tentando um fortalecimento de vínculos com o objetivo de preparar nossas pessoas para que um dia possam voltar a conviver em família.

JC - Como é, na prática, esse trabalho que você realiza na busca da família dos abrigados?

Ana Paula - Eu venho trabalhando no sentido de que a pessoa é cidadã a partir do momento que ela tenha uma documentação. O documento é uma comprovação de que você existe, então eu venho trabalhando assim. O caso da Zélia foi exatamente isso. Eu consegui a certidão de casamento dela através de um relato dela e alguma coisa que tinha em prontuário e, a partir dessa pesquisa, que começou a surgir informações sobre a família.

JC - E quando você não encontra documentação nenhuma. Qual é o primeiro passo?

Ana Paula - Nesse caso, nós fizemos uma parceria com o escritório jurídico da ITE (Instituição Toledo de Ensino). Como são pessoas com deficiência mental, é preciso uma ordem judicial para fazer a certidão de nascimento. Por exemplo, eu tenho o caso da Odair de Souza que no dia 10 de junho foi realizada a audiência onde o juiz autorizou a emissão da certidão de nascimento dela, mas até chegar nesse ponto, muito trabalho já foi feito.

JC - Que trabalho é esse?

Ana Paula - Um contato, via ofício junto aos cartórios, por exemplo. Com isso, nós conseguimos uma resposta negativa. Alguns casos, a partir daí já conseguimos alguma coisa, como foi o caso da Zélia. Já a Odair, não conseguimos a certidão, então houve a necessidade de entrar com esse processo judicial para poder registrar e garantir outros direitos dela.

JC - Há quanto tempo está aqui aquela que tem mais anos de abrigo e menos tempo?

Ana Paula - Temos a Rosa Maria Antônia que está desde 1964 e a Izolina que chegou em março deste ano.

JC - E esse trabalho de tentar localizar a família é feito com todas essas pessoas.

Ana Paula - Sim, com todas. Eu e a psicóloga Paula trabalhamos nesse sentido de garantir o direito à convivência familiar. Esse é nosso objetivo dentro da instituição.

JC - Eu acredito que esse trabalho deve ser difícil, deve mexer até mesmo com seu emocional. Como é lidar com isso para você?

Ana Paula - Desde a época da faculdade, eu nunca havia trabalhado com deficiente mental porque eu achava que iria ser uma dificuldade muito grande. Eu comecei no Paiva como voluntária, agora já sou contratada e aprendi a lidar com essas pessoas e adoro esse trabalho. O retorno do trabalho que realizo é impressionante. Como esse caso da Zélia, valeu o meu ano de trabalho. É muito gratificante.

JC - Esse trabalho afeta o seu emocional. Você chega a levar para casa algum caso que fica rondando sua cabeça, alguma preocupação excessiva?

Ana Paula - Sem dúvida. Isso já ocorreu algumas vezes, mas nós vamos aprendendo a conviver com a situação, mesmo porque para alcançar o objetivo profissional, se nos envolvermos, perdemos o sentido. A cada dia vamos aprendendo a lidar com as situações.

JC - De onde vêm as pessoas que vocês abrigam na instituição?

Ana Paula - Nós temos alguns que vêm do Hospital Psiquiátrico, temos solicitação de recursos da comunidade, da família, de hospitais, de algum programa de atendimento ao idoso.

JC - Os abrigados participam de festas que vocês realizam. Como é o comportamento deles nesses momentos?

Ana Paula - Eles adoram. As mulheres ficam esperando e se preparam para as festas. Se arrumam, escolhem as roupas, usam bijouterias. É uma diversão. Nos próximos dias vamos ter nossa festa junina. Elas já estão ansiosas. A união entre os abrigados é muito intensa. Nós trabalhamos muito com esse lado do respeito entre todos, do carinho. Elas têm um afeto umas pelas outras e adoram viver aqui. Quando algumas saem para visitar a família, às vezes querem voltar rapidinho.

JC - Vocês sobrevivem apenas de recursos municipais, estaduais e federais?

Ana Paula - Essa verba que recebemos não é muito. A comunidade nos ajuda. Temos alguns colaboradores, mas não é nada fixo. A partir do dia 20 deste mês, por exemplo, vamos iniciar a campanha da toalha. Arrecadamos toalhas de banho para manter o estoque que atende nossos 230 abrigados. Vamos fazendo assim, algumas campanhas, recebendo ajuda e temos parcerias com a ITE, a Unesp, Sorri, USC, que colaboram com nosso trabalho de garantir direito de cidadania.

JC - Se alguém quiser colaborar com a entidade, como faz?

Ana Paula - É só nos procurar aqui na Rua 12 de outubro, 9-51, na Bela Vista. Nós recebemos algumas doações, mas nós temos que tentar nos manter, não podemos apenas contar com ajuda externa.

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