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Lições do futebol


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Leio em El País que o tribunal de instrução criminal de Barcelona absolveu de plano o juiz de futebol acusado por um cartola do time perdedor de dar palmadas na bunda dos jogadores – “en el culo”, como se diz em puro castelhano. Como em Portugal, esse substantivo nada tem de chulo. Denomina aquelas partes carnudas e globosas da porção superior das coxas que conhecemos por nádegas. Na farmácia, em Lisboa, o balconista me perguntou se preferia levar a injeção no braço ou no...

A verdade é que o magistrado relacionou as palmadas do árbitro a um gesto paternal, “próprio do desejo de impor a necessária calma no calor da disputa, capaz de mitigar a violência inerente a todo esporte de competição, em especial quando os coletivos se enfrentam”. Palmada en el culo seria, para o julgador, “a expressão visual e tátil por parte de quem tem a ânsia de ver prevalecer o espírito esportivo”. O mais, seriam desculpas de maus perdedores, como o do técnico do selecionado espanhol que quer atribuir aos erros da arbitragem a sua desclassificação no Mundial. O árbitro erra, como todo ser humano. Seus equívocos fazem parte do jogo e é preciso ser bom o suficiente para superá-los. A Inglaterra em 1966, na final contra a Alemanha, teve validado um gol sem que a bola cruzasse a risca fatal.

Vinte anos depois Maradona marca um gol com a mão e desclassifica a Inglaterra. Seria insensato tirar os méritos do Brasil por causa do pênalti que Rivaldo transformou em gol no jogo contra Turquia. Se o árbitro viu falta na cabeçada do belga Wilmots e isso assegurou mais uma vitória canarinha, paciência. No futebol americano são sete árbitros. Ainda podem consultar o tira-teima – um monitor de TV ao lado do campo – nos lances mais polêmicos. Brigas acontecem, do mesmo jeito. Enquanto a Fifa não adere às novas tecnologias os jogadores têm que superar as falhas involuntárias dos juízes. Mas, cá pra nós, no Mundial do Japão/Coréia as arbitragens foram realmente catastróficas.

Felizmente nada tira a credibilidade desse evento único em que o brasileiro mostra para o resto do planeta que seu País, pelo menos nesse esporte, é do Primeiro Mundo. Torcem por nós na Índia, no Afeganistão, em qualquer parte. Os adversários fazem questão de trocar camisas com os nossos atletas e só faltam pedir autógrafos. Sabem que as derrotas passam e a lembrança da disputa contra jogadores de tão grande valor vai servir para sempre como testemunha das conversas futuras. Para ser um País de verdade falta ao Brasil somente ganhar a batalha contra a desigualdade social, ser vitorioso no desenvolvimento econômico, no fortalecimento de um Estado capaz de atender a todos e enfrentar os mais desenvolvidos em pé de igualdade na mesa de negociações.

Para chegar a esse estágio o Brasil só precisa de técnico. Alguém como o Felipão, capaz de dar palmadas na bunda se for preciso acabar com a mania de autodepreciação entre os membros da família. Um líder que reafirme os talentos individuais mas consiga fazê-los atuar coletivamente, única atitude vencedora. Rui ensinou que a Pátria não é ninguém, são todos. Felipão mostrou que não só a classificação era possível como teríamos condições de disputar o pentacampeonato, mantida a união do grupo.

O Brasil precisa de escolas e de Scolaris. No âmbito Federal, nos Estados e nos Municípios. Gente capaz de decidir, animar e fazer emergir as nossas potencialidades. Um Estado, para funcionar, deve ter uma hierarquia claramente estabelecida, de tal maneira que decisões tomadas se transmitam a todos os níveis de administração. Mais do que isso, uma hierarquia que mostre à sociedade que há regras básicas que não podem ser burladas e que o exemplo começa por um comando ético.

Idéias são fundamentais para todo aquele que tem a responsabilidade de realizar. Obtém sucesso quem tiver um plano articulado, com prioridades estabelecidas, e souber executá-lo no transcurso da competição. Um técnico sem idéias teria apenas um amontoado desarticulado de jogadores. Ter idéias e trabalhar em situações difíceis é a marca de um dirigente, de um governante. É imprescindível que tenha projetos para poder trabalhar o material empírico segundo idéias realisticamente estabelecidas. Felipão com seus três zagueiros deu conta do recado. Criou uma família solidária, capaz de jogar em função do objetivo comum: a vitória final. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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