No início dos anos 60, não havia no país cursos de Psicologia. Na USP, os eventuais psicólogos eram oriundos do curso de Filosofia, que se dispunham a fazer uma complementação em análise didática. Daí para frente os cursos de Psicologia proliferaram aos borbotões pelo país afora. Havia uma brincadeira entre nós, estudantes, em contar onde havia mais loucos: entre os que estudavam filosofia ou entre os que se propunham enveredar pelos obscuros caminhos da psicologia. Tinham loucos para todos os gostos. Não apenas entre os estudantes, mas também entre os professores. Fui um dos loucos que fincaram pé na filosofia.
Lidando, desde aquela época, com o cotidiano da política, encontrei uma safra a toda prova. Não era, quase nunca, acadêmica, mas estava decididamente voltada à disputa do poder. A política concentra dose muito mais elevada de loucos que a média da sociedade. Já vi de tudo. Sãos e desvairados em grande quantidade. São retratos de nós mesmos, da nossa querida sociedade. Sua riqueza se exprime em personagens extravagantes que fazem o charme da vida política.
São personagens que se tornam muito visíveis na sociedade. Têm a árdua tarefa de disputar os gostos e as idiossincrasias dos eleitores. Enfrentam o desafio do julgamento dos semelhantes que, por mais democráticos que sejamos, nem sempre somos tão saudáveis assim. Ficam expostos à opinião pública e se oferecem de corpo e alma ao julgamento da coletividade. Loucos famosos e identificáveis, mas não são menos interessantes que os resto dos mortais.
Nunca acreditei muito, por aqueles desvios de formação, que possamos ser avaliados por nossos conteúdos psicológicos individuais. Somos seres sociais e coletivos. Basta ver na TV a imensa festa tribal e solidária pelo Brasil afora que foram os festejos da comemoração do penta. Identificações e solidariedades mil, fortes e coletivas. Dança, choros e velas. Brasil de corpo inteiro. O grande ritual nacional, evidentemente, terminou na Praça dos Três Poderes no show de hiper democracia, com a discrição do presidente e com a saudável exuberância do Vampeta.
Ao lado dessa efusão coletiva, a conjuntura da disputa política assume estranhamente um tom paranóico. Não vamos a fundo na reflexão. Fiquemos com o sentido literal que nos ensina o velho Aurélio. A paranóia é “caracterizada pelo aparecimento de ambições suspeitas, que se acentuam, evoluindo para delírios persecutórios e de grandeza, estruturados sobre base lógicaâ€.
Suspeito do quadro atual dos comportamentos políticos. Fiquei pasmo ao ler artigo de Konder Comparato, professor titular da Faculdade de Direito da USP, defensor intransigente dos direitos humanos e petista radical. Em seu artigo, “Golpe de Estado permanenteâ€, tenta caracterizar a nova técnica brasileira de golpe de estado, onde se procura conferir uma aparência de legitimidade democrática à manutenção indefinida do poder, ainda que com troca de governantes. Coloca no mesmo saco de gatos, o Poder Judiciário, a Polícia Judiciária e o Ministério Público, com cobertura logística dos meios de comunicação. Todos tramam o golpe.
Não é brincadeira. Foi publicado. O petista sente a eleição escorrer pelo ralo. Denuncia as autoridades constituídas e a imprensa em geral. Só faltou espinafrar o povo brasileiro. Ainda bem que Lula não está tão pirado. Fala em grande entendimento nacional, em delírios de Pacto de Moncloa, como pregava FHC em 1982, na época da redemocratização. Talvez porque adore, como FHC, o Rei da Espanha. O pernambucano - como sempre gostou de ser ideologicamente designado- tem o pé no chão e surpreende quando afirma: “Confesso que estou com o saco cheio com o denuncismo neste país. Achincalha-se a vida das pessoas e não acontece nadaâ€. O feitiço virou contra o feiticeiro. Duda Mendonça, além de marqueteiro, revelou-se um grande psicólogo. “Duda vem dizendo, desde 94: é preciso que você seja o que é. Não é possível que vá para a televisão sempre carrancudo. Você tem que rir, tem que brincar. É isso que estou fazendoâ€.
Vamos todos morrer de rir... (O autor, Ulysses Guariba, é professor da FFLCH da Universidade de São Paulo - USP)