Ser

Fera da propaganda

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 8 min

Ele fez direito na Instituição Toledo de Ensino (ITE), em Bauru, passou no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), mas colocou os códigos na estante e nunca exerceu a profissão. O talento do bauruense Gustavo Victorino era outro: a propaganda, a arte de ser criativo e matar um leão por dia.

Prova disso é que hoje, no lugar dos livros de leis, ele exibe, com apenas 28 anos de idade e pouco mais de dois anos de carreira, dois Leões: um de prata, na categoria poster com os cartazes Brócoli, Champignon e Lagosta, institucionais para as massas Frescarini e outro de bronze, na categoria filme com Vertical, para o utilitário Ducato, da Fiat, conquistados no 49º Festival Internacional de Publicidade de Cannes, realizado de 16 a 22 de junho, na França.

Os prêmios vieram impulsionar a carreira já meteórica de Gustavinho, que voltou ao Brasil há pouco mais de uma semana e ainda não tomou a devida proporção dessa conquista histórica. Continua simples, um pouco tímido e absorvendo informações em filmes, o néctar de sua criatividade.

No feriado, ele veio visitar os pais em Bauru e conversou com o Jornal da Cidade.

JC - Como funciona a votação de Cannes? Gustavo Victorino - As peças avaliadas são divididas em categorias e chega num ponto em que os jurados determinam qual o Leão que receberá cada peça. Na categoria Food (comida), em mídia impressa, havia muitas, muitas peças e não houve Leão de Ouro. Neste ano, Cannes teve as inscrições em março e foram 23 categorias de mídia impressa, 20 de posters e 29 de filmes. No total, são quase 20 mil trabalhos do mundo todo, que disputam o maior e mais cobiçado prêmio de publicidade do mundo. Para as pessoas terem a dimensão é praticamente um Oscar.

JC - Qual é o critério que a agência usa para enviar um trabalho para um festival. Ela manda toda a produção ou fala “isso vai dar prêmio...”? Victorino - Cannes tem sempre tendências e o que a agência considera mais criativo é mandado para Cannes. Todo mundo manda todas as peças para o diretor de criação, que na Leo Burnett são dois: o Bruno Prósperi e o José Henrique Borghi, e eles decidem quais são as peças que vão para o festival. Eles têm muita experiência em Cannes e uma porrada de leões.

JC - Foi sua primeira vez no festival? Victorino - A segunda. No ano passado concorri com o filme Lagarto, para o Palio Weekend Adventure, da Fiat. Mas foi a primeira vez que fui participar do festival. Fui a Cannes este ano como Young Creative, um título super importante no meio. É muito legal ter sido Young, que é uma seleção para profissionais até 28 anos, em que você manda suas dez melhores peças e os selecionados vão para Cannes como Young e participam de uma série de atividades. Foram 13 brasileiros este ano.

JC - E qual a sensação? Victorino - É muito legal você estar entre os feras. Lá é a nata da propaganda. Vocês vê as pessoas que são lendas da propaganda, como o Jeff Goodby, que presidiu o júri deste ano. É muito bom ver um trabalho seu lá e ainda ganhar um prêmio de propaganda mundial, o que é mais importante. Eu fiquei muito feliz.

JC - Pena que os prêmios não ficam com você... Victorino - Os Leões ficam na agência, mas eu posso comprar se quizer. Querer eu quero, mais custa caro para caramba. Mas ganhei um carro da Fiat, em reconhecimento da montadora pelo prêmio.

JC - Mas qual o reflexo real de um prêmio desse: maiores salários, melhores jobs, cobrança pessoal ou responsabilidade? Victorino - Acho que de tudo um pouco, mas de imediato vem a responsabilidade. O pior é a cobrança pessoal de que no ano que vem você tem que estar lá de novo. Eu estou sentindo isso, tenho que pelo menos chegar perto e espero que isso não me atrapalhe.

JC - O cartazes foram um trabalho só seu? Victorino - Neste trabalho em específico nós trabalhamos em quatro pessoas, dois diretores de arte e dois redatores. Para produzir demorou umas duas semanas. Esse job foi proposto para o cliente e ele gostou da idéia.

JC - E o filme? Victorino - É um comercial de TV mostrando o carro, um Fiat Ducato que está parado. Chega uma empilhadeira cheia de carga e quando ela coloca toda a carga dentro do carro e solta o peso, faz com que o vertical da TV desça. A primeira idéia é falar sobre a capacidade de 1,6 toneladas da Ducato. É um comercial de 15 segundos, mas é tão impactante que rendeu bronze, concorrendo com uma porrada de filmes.

JC - Mas como a publicidade entrou na sua vida? Victorino - Eu fiz direito na ITE, tirei a ordem, mas tinha certeza que não era o que eu queria. Fui morar na Inglaterra. Morei um ano e meio em Londres e lá eu fiz um curso de direção de arte na London College of Printing. Morei na Espanha por um tempo, voltei ao Brasil e com a pasta que eu fiz no curso, consegui um estágio na DPZ, em São Paulo. Depois de seis meses, consegui um outro estágio na Leo Burnett e fui contratado.

JC - Aqui em Bauru você nunca trabalhou em agência? Victorino - Eu ajudava os meninos da MR Tempo. Enquanto estava na faculdade ficava lá o tempo todo. Na verdade, foram eles, o Paulinho (Razera) e o Armando (Martins) que me incentivaram a buscar a propaganda. Eu fazia os estágios de direito, mas voltava sempre lá. E eles me diziam para cair fora do direito e fazer propaganda, que tinha mais a ver comigo. E tinha mesmo... Nunca mais abri um código.

JC - E como se trabalha numa grande agência? A Leo Burnett é um dos maiores grupos de comunicação do mundo. Victorino - A gente sempre trabalha em dupla. Sempre um diretor de arte e um redator sentam juntos para criar, é criação. Chega um briefing (as informações para a realização do trabalho), a gente tem que criar junto de acordo com o que se está pedindo. A gente faz um esboço das idéias e leva para o diretor de criação. É ele quem vai apontar quais idéias serão layoutadas. Vou para o computador e faço a arte, enquanto o redator faz o texto. Com a peça apresentada e aprovada pelo cliente, entra o trabalho de finalização. Dirijo o fotógrafo, o manipulador de imagens, a edição do filme. As duplas podem trabalhar muito tempo juntas, ou por um job (trabalho) às vezes. Normalmente as duplas são fixas, mas não é uma regra. O filme do lagarto fiz com um outro redator, por exemplo. Sempre que tem um job direcionado a mim, segue uma cópia para o meu dupla. Mas isso não quer dizer que eu não vá trabalhar com outro redator.

JC - A gente está acostumado a ver nas grandes agências clientes grandes e idéias mirabolantes. Existe cliente que apresenta um custo X bem baixo e exige um job? Victorino - Sempre tem. Clientes como a Fiat são sensacionais. Quando eles apostam numa idéia eles gastam muito dinheiro em cima disso. Mas muitas vezes a gente tem que se desdobrar. No caso da Frescarini, usamos um brócoli, uma lagosta, são fotos. Uma produção fotográfica de comida, que não é uma coisa muito cara. Mas tem filmes baratos que a gente faz e tem os caros. Mas sempre a gente busca o mais simples. Sempre o mais simples tem mais força e é mais criativo. É o que aconteceu com o Lagarto, que foi feito com uma câmera parada numa estrada. A gente pediu um iguana linda no Butatan e ela fez tudo sozinha. A gente deu muita sorte, ele podia fugir, ficar parado, mas não, fez tudo como a gente imaginou. Era o Tarcísio Meira dos lagartos (risos).

JC - Aliás, foi um lagarto que lhe deu muitos prêmios... Victorino - Ganhei um ouro e um bronze da Associação Brasileira de Propaganda (ABP) com o Lagarto e o Luvas, para o sabão em pó Ace. O Lagarto também me deu um bronze no Clube de Criação, ouro no Prêmio Colunistas e me levou à final do Profissionais do Ano, cujo resultado deve sair em outubro. Também ganhei duas medalhas de mérito no Clube de Criação com uma peça para a Editora Globo e outra da Direct TV. O Lagarto me deu muitos prêmios, mas não levou Cannes, muita gente não se conforma. Ele foi ovacionado no festival, mas não trouxe um leão. Foi decepcionante, mas até hoje tem gente que acha que ele trouxe.

JC - Dentre as pessoas do meio, com a mesma bagagem e experiência que você teve, você pode ser considerado um fenômeno na carreira? Victorino - É... foi rápido, muito rápido. Mas acho que tem aquela história de estar no lugar certo. A Leo me proporcionou muito e me deu muito espaço para criar e produzir o que a gente criava lá dentro. Eu entrei lá como estagiário e depois de seis meses estava contratado. Normalmente, se demora mais tempo estagiando, por mais que você faça uma coisa boa. A Leo dá espaço para a criação.

JC - Nesse ritmo, para onde vai o Gustavinho? Victorino - Vai continuar trabalhando do jeito que eu estou. Trabalhando muito para repetir a dose.

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