Ser

Como nossos pais

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 5 min

É comum ter várias pessoas da mesma família que seguem o mesmo trilho, ou seja, um faz aquilo que o outro já fazia. Alguns pensam na comodidade que isso traz, já que o pai ou o irmão mais velho podem deixar, como herança, algo pronto para o filho ou irmão. O problema é que, se a pessoa não tem vocação, não adianta querer agradar ao pai ou à mãe, que não será um bom profissional.

Émerson Zagatto Domingues, 30 anos, bem que tentou agradar ao pai, ex-coronel da polícia militar (PM). Ele queria que os filhos seguissem essa carreira, por isso, Émerson chegou a prestar concurso para ingressar na PM, mas como na mesma época fez vestibular para odontologia e passou, acabou optando por essa profissão. “Sempre ficou aquela vontade, por parte do meu pai, de que nós entrássemos para a polícia. Desde pequeno eu falava que ia ser oficial da polícia, mas acabei dentista, profissão que adoro”, afirma.

Mesmo assim, Émerson não desistiu: “Há a possibilidade de eu ser dentista do exército, por exemplo. Ia tentar o concurso para este ano, mas não foi possível porque ainda estou terminando a especialização, mas no ano que vem, vou tentar”, diz orgulhoso.

O terapeuta de família Jorge do Nascimento diz que, quando há um interesse do filho pela profissão do pai, este pode incentivá-lo, mostrando o que é, na prática, aquela carreira, mas jamais exigir que o filho ou a filha faça aquilo por obrigação. “Não dá certo. Se o filho ou filha fizer o que o pai quer, certamente não será feliz profissionalmente e, na primeira oportunidade, buscará aquilo que realmente gosta”, explica.

Nascimento lembra que há algumas pessoas que não conseguiram ser o que queriam e repassam essa vontade ao filho. “Tenho uma amiga que sempre quis ser psicóloga, mas não teve a oportunidade de estudar porque tinha que trabalhar, então agora ela fica forçando a filha, que está no tereceiro colegial, a prestar vestibular para psicologia. Não está certo. A garota é quem tem que resolver o que vai fazer”, detalha.

No mesmo trilho

A esposa do dentista Émerson, Fabianne Lopes Simioli, 29 anos, também é dentista. Os dois se conheceram na universidade, namoraram e se casaram. Trabalham juntos no mesmo consultório e são muito cúmplices um do outro não só como marido e mulher, mas como profissionais.

Mas a família de dentistas não pára por aí. Émerson tem uma irmã, Alessandra Zagatto Domingues, 31 anos, e um irmão, Eric Zagatto Domingues, 25 anos, que também são dentistas. E Fabianne tem uma irmã, Vaninne Lopes Simioli, 28 anos, que atua na profissão em Londrina, atualmente. Para completar a família, o cunhado de Émerson, Luis Henrique Dias do Prado, 34 anos, carinhosamente chamado de “Fofinho”, também é dentista. Luis é o marido de Alessandra e os dois, que se conheceram na faculdade, atuam em Assis.

Fabianne conta que é muito bom fazer parte de uma família de dentistas. “Nós trocamos muita experiência e indicamos pacientes um para o outro. Cada um tem sua especialidade e, portanto, nos completamos. Ela, o marido Émerson e o cunhado Eric trabalham em Bauru e estão sempre em contato e, em algumas ocasiões, também vão a Assis para realizarem algumas cirurgias agendadas por lá. “Às vezes, eu vou para o consultório do Eric atender algum paciente”, diz Émerson que está se especializando em cirurgia.

Fabianne e Émerson afirmam que se os filhos se interessarem pela profissão, será muito bom porque eles vão poder dar muito apoio e ajuda na formação. “Apesar da odontologia não estar sendo muito indicada, atualmente, devido ao lado financeiro, nos sentiríamos orgulhosos”, diz Émerson.

Eric já foi um pouco influenciado pelo irmão. “Eu via meu irmão trabalhando, fazendo curso, acompanhava em casa o que ele fazia e acabei gostando. Hoje não trocaria minha profissão por nada”, diz. Além do irmão, Eric teve a mãe, que fez um curso de prótese dentária, como exemplo.

Fabianne lembra que quando a família se reúne para alguma comemoração, o assunto só gira em torno da odontologia. “Há várias histórias de pacientes e nós conversamos muito sobre isso”, afirma.

Sociedade em família

Os sócios Alceu Cozin, 63 anos, mecânico, e Yuzo Inoue, 59 anos, também mecânico, levaram os filhos, Paulo Henrique Cozin, 27 anos, e Humberto Yukio Inoue, 27 anos, para o mesmo ambiente de trabalho. Aquilo que hoje pertence aos pais amigos e sócios, no futuro será dos filhos, também amigos e sócios.

Os dois garotos se interessaram pelo trabalho de seus pais e começaram a adquirir responsabilidades no centro automotivo que possuem. Os dois passaram por algumas seções dentro do estabelecimento, mas agora trabalham na parte administrativa. “Acho importante aprender tudo para saber lidar com a empresa, mas a parte administrativa é fundamental para levar o negócio adiante”, diz Paulo Henrique.

Ele conta que trabalhar com o pai não tem “mamata”. “Todos pensam que quem trabalha assim, com o pai, tem privilégios, mas é bem ao contrário. A cobrança é ainda maior. Desculpa de doença ou morte na família, nem pensar, não tem como. Tenho que cumprir o horário rigorosamente”, afirma.

Paulo Henrique acha importante ter essa responsabilidade dentro da empresa porque assim, passa um bom exemplo aos funcionários. “Não é porque sou da família que posso folgar. Tenho meus deveres e direitos como todos aqui”, conta.

Humberto também segue com a mesma opinião. Ele já tem um filho e diz que se o garoto quiser aprender com o pai e com o avô, ótimo, mas a escolha é só dele, sem interferências. “Acho que cada um tem fazer aquilo que gosta. Se ele crescer e quiser vir trabalhar comigo, vou gostar, mas se não, também terá meu apoio naquilo que decidir”, afirma.

Alceu, pai de Paulo Henrique, diz que é muito importante trabalhar em família. “O filho, estando perto do pai, tem orientação e controle. Do jeito que as coisas estão por aí, com drogas em todos os lugares, a gente trabalhando junto, não tem esse problema”, salienta.

Yuzo, pai de Humberto, também pensa assim. “A confiabilidade é muito grande quando o negócio fica na família. Tenho orgulho do meu filho e fico tranqüilo, porque confio”, diz. Em relação ao neto, Yuzo diz que vai depender da vocação, mas se ele quiser, deixará o avô muito feliz.

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