É comum ter várias pessoas da mesma família que seguem o mesmo trilho, ou seja, um faz aquilo que o outro já fazia. Alguns pensam na comodidade que isso traz, já que o pai ou o irmão mais velho podem deixar, como herança, algo pronto para o filho ou irmão. O problema é que, se a pessoa não tem vocação, não adianta querer agradar ao pai ou à mãe, que não será um bom profissional.
Émerson Zagatto Domingues, 30 anos, bem que tentou agradar ao pai, ex-coronel da polícia militar (PM). Ele queria que os filhos seguissem essa carreira, por isso, Émerson chegou a prestar concurso para ingressar na PM, mas como na mesma época fez vestibular para odontologia e passou, acabou optando por essa profissão. “Sempre ficou aquela vontade, por parte do meu pai, de que nós entrássemos para a polícia. Desde pequeno eu falava que ia ser oficial da polícia, mas acabei dentista, profissão que adoroâ€, afirma.
Mesmo assim, Émerson não desistiu: “Há a possibilidade de eu ser dentista do exército, por exemplo. Ia tentar o concurso para este ano, mas não foi possível porque ainda estou terminando a especialização, mas no ano que vem, vou tentarâ€, diz orgulhoso.
O terapeuta de família Jorge do Nascimento diz que, quando há um interesse do filho pela profissão do pai, este pode incentivá-lo, mostrando o que é, na prática, aquela carreira, mas jamais exigir que o filho ou a filha faça aquilo por obrigação. “Não dá certo. Se o filho ou filha fizer o que o pai quer, certamente não será feliz profissionalmente e, na primeira oportunidade, buscará aquilo que realmente gostaâ€, explica.
Nascimento lembra que há algumas pessoas que não conseguiram ser o que queriam e repassam essa vontade ao filho. “Tenho uma amiga que sempre quis ser psicóloga, mas não teve a oportunidade de estudar porque tinha que trabalhar, então agora ela fica forçando a filha, que está no tereceiro colegial, a prestar vestibular para psicologia. Não está certo. A garota é quem tem que resolver o que vai fazerâ€, detalha.
No mesmo trilho
A esposa do dentista Émerson, Fabianne Lopes Simioli, 29 anos, também é dentista. Os dois se conheceram na universidade, namoraram e se casaram. Trabalham juntos no mesmo consultório e são muito cúmplices um do outro não só como marido e mulher, mas como profissionais.
Mas a família de dentistas não pára por aí. Émerson tem uma irmã, Alessandra Zagatto Domingues, 31 anos, e um irmão, Eric Zagatto Domingues, 25 anos, que também são dentistas. E Fabianne tem uma irmã, Vaninne Lopes Simioli, 28 anos, que atua na profissão em Londrina, atualmente. Para completar a família, o cunhado de Émerson, Luis Henrique Dias do Prado, 34 anos, carinhosamente chamado de “Fofinhoâ€, também é dentista. Luis é o marido de Alessandra e os dois, que se conheceram na faculdade, atuam em Assis.
Fabianne conta que é muito bom fazer parte de uma família de dentistas. “Nós trocamos muita experiência e indicamos pacientes um para o outro. Cada um tem sua especialidade e, portanto, nos completamos. Ela, o marido Émerson e o cunhado Eric trabalham em Bauru e estão sempre em contato e, em algumas ocasiões, também vão a Assis para realizarem algumas cirurgias agendadas por lá. “Às vezes, eu vou para o consultório do Eric atender algum pacienteâ€, diz Émerson que está se especializando em cirurgia.
Fabianne e Émerson afirmam que se os filhos se interessarem pela profissão, será muito bom porque eles vão poder dar muito apoio e ajuda na formação. “Apesar da odontologia não estar sendo muito indicada, atualmente, devido ao lado financeiro, nos sentiríamos orgulhososâ€, diz Émerson.
Eric já foi um pouco influenciado pelo irmão. “Eu via meu irmão trabalhando, fazendo curso, acompanhava em casa o que ele fazia e acabei gostando. Hoje não trocaria minha profissão por nadaâ€, diz. Além do irmão, Eric teve a mãe, que fez um curso de prótese dentária, como exemplo.
Fabianne lembra que quando a família se reúne para alguma comemoração, o assunto só gira em torno da odontologia. “Há várias histórias de pacientes e nós conversamos muito sobre issoâ€, afirma.
Sociedade em família
Os sócios Alceu Cozin, 63 anos, mecânico, e Yuzo Inoue, 59 anos, também mecânico, levaram os filhos, Paulo Henrique Cozin, 27 anos, e Humberto Yukio Inoue, 27 anos, para o mesmo ambiente de trabalho. Aquilo que hoje pertence aos pais amigos e sócios, no futuro será dos filhos, também amigos e sócios.
Os dois garotos se interessaram pelo trabalho de seus pais e começaram a adquirir responsabilidades no centro automotivo que possuem. Os dois passaram por algumas seções dentro do estabelecimento, mas agora trabalham na parte administrativa. “Acho importante aprender tudo para saber lidar com a empresa, mas a parte administrativa é fundamental para levar o negócio adianteâ€, diz Paulo Henrique.
Ele conta que trabalhar com o pai não tem “mamataâ€. “Todos pensam que quem trabalha assim, com o pai, tem privilégios, mas é bem ao contrário. A cobrança é ainda maior. Desculpa de doença ou morte na família, nem pensar, não tem como. Tenho que cumprir o horário rigorosamenteâ€, afirma.
Paulo Henrique acha importante ter essa responsabilidade dentro da empresa porque assim, passa um bom exemplo aos funcionários. “Não é porque sou da família que posso folgar. Tenho meus deveres e direitos como todos aquiâ€, conta.
Humberto também segue com a mesma opinião. Ele já tem um filho e diz que se o garoto quiser aprender com o pai e com o avô, ótimo, mas a escolha é só dele, sem interferências. “Acho que cada um tem fazer aquilo que gosta. Se ele crescer e quiser vir trabalhar comigo, vou gostar, mas se não, também terá meu apoio naquilo que decidirâ€, afirma.
Alceu, pai de Paulo Henrique, diz que é muito importante trabalhar em família. “O filho, estando perto do pai, tem orientação e controle. Do jeito que as coisas estão por aí, com drogas em todos os lugares, a gente trabalhando junto, não tem esse problemaâ€, salienta.
Yuzo, pai de Humberto, também pensa assim. “A confiabilidade é muito grande quando o negócio fica na família. Tenho orgulho do meu filho e fico tranqüilo, porque confioâ€, diz. Em relação ao neto, Yuzo diz que vai depender da vocação, mas se ele quiser, deixará o avô muito feliz.