Quando se fala em educação, sabe-se que há uma dificuldade em se lidar com o tema. Isso porque o desenvolvimento da sociedade acabou provocando uma mudança brusca nesse aspecto e, mesmo assim, ainda não se encontrou o modelo ideal para educar. As regras mudaram de alguns anos para cá. Antes, as crianças eram educadas de forma mais rígida, com mais exigências.
Não havia muito espaço para dar opiniões e falar sobre seus pensamentos e opiniões. Atualmente, os pais adotam uma educação mais aberta. Diálogos são fundamentais e fazem parte dos almoços em família e de todas as horas em que se reúnem. A criança também é mais respeitada nos dias de hoje. Ela deve ter seu espaço e os pais devem respeitar isso, exigindo, também, respeito em relação a eles.
Antigamente, a educação era mais severa. Os pais exigiam mais dos filhos e eram muito menos tolerantes que atualmente. O diálogo aberto, onde todos dão opiniões e tiram dúvidas, também não fazia parte da vida dos adultos com as crianças. Muitas meninas menstruaram sem saber o que estava se passando com elas. A sexualidade, as drogas, o alcoolismo eram assuntos nunca abordados com os filhos.
Hoje, já se fala mais sobre isso, orientando e ensinando o que se deve e o que não se deve fazer. Quando a iniciativa não parte dos pais, as crianças questionam porque ouvem sobre esses assuntos nas escolas, em rodas de amigos e querem saber dos pais - que são em quem confiam - o que acham sobre o tema.
Atualmente, quando se trata de educação de filhos, é comum ser mais compreensivo, sem castigos drásticos, com conversas e explicações. O meio termo, ou seja, nem tanta liberdade e nem tanta severidade, que é considerado o ideal, ainda não foi alcançado e é difícil de ser atingido. Claro que isso não é uma regra. Ainda há famílias conservadoras que exigem dos filhos da mesma maneira que foram exigidos de seus pais, mas a maioria é mais tranqüila em relação às famosas broncas.
Respeito
As psicólogas Sandra Cristina Boconcelo e Adriana Felix Providello concordam com a afirmação: cada caso é um caso e deve ser tratado individualmente. Elas explicam que é preciso fazer um estudo de caso e um acompanhamento para que se obtenha um diagnóstico do problema existente, mas uma coisa é certa: é preciso impor limites. “Não podemos deixar as crianças fazerem tudo o que querem, temos que orientar sobre as atitudes corretas, mas bater não é solução, não resolve, é preciso impor respeito com muito diálogoâ€, afirma Adriana.
Sandra salienta que para todos os casos há explicações e soluções. O importante, de acordo com ela, é os pais procurarem ajuda do psicólogo escolar para as orientações adequadas que vão de encontro às necessidades do desenvolvimento da criança.
De acordo com ela, a maneira de educar dos pais interfere diretamente no comportamento da criança em sociedade e no desenvolvimento escolar. “As crianças demonstram, quando não verbalmente, por atitudes, a maneira como são tratadasâ€, afirma. Ela complementa orientando que os pais jamais devem agredir seus filhos com palavras. “Nunca se deve comparar filhos, dizendo que um faz melhor que o outro, nem dizer algo agressivo, como ‘você é burro’ ou ‘você é chato’. Isso pode interferir muito na auto-estima da criança e causar um problema graveâ€.
Para a psicóloga, uma palmadinha leve na hora certa pode não prejudicar, mas ela deixa claro que isso não é uma forma de educar. “O limite do tapa é rápido, mas nem sempre é compreendido, sendo que, na maioria das vezes, é imposto. Com essa atitude, a criança pode acabar respeitando só por medoâ€, diz
Em total acordo, Adriana diz que é totalmente contra a agressão. “Não é preciso bater. Isso não adianta. O ideal é o diálogo. Os pais devem explicar o porquê a criança está errada e conversar para que ela entenda e não volte a repetir o erro. Bater pode deter uma atitude de momento, mas a criança, algumas vezes, não entende o motivo pelo qual está apanhando se os pais não explicaremâ€, diz.
Agressões físicas
Os casos de violência doméstica têm aumentado significativamente em Bauru. Só este ano, até o mês de maio, foram registrados 150 casos novos no Centro Regional de Registro e Atenção aos Maus Tratos à Infância (Crami). A maioria dos casos é de negligência e violência física. Isso preocupa os profissionais que atuam nessa área e eles acreditam que o motivo desse crescimento seja a influência da violência atual na sociedade. Tudo o que é negativo e se passa na sociedade acaba refletindo na família, que fica confusa e não consegue administrar os filhos.
A psicóloga do Crami, Adriana Felix Providello, conta que, normalmente, os pais ou responsáveis, na hora do nervoso, acabam agredindo primeiro para depois explicar o motivo pelo qual a criança apanhou. O conselho dela é que, no momento em que a criança não está obedecendo ou fez uma malcriação, o adulto deve parar, refletir e só depois agir da forma adequada. “A maneira ideal é dialogar. Explicar para a criança que aquilo que ela acabou de fazer está errado e dizer o porquê. Aí pode-se até castigar de alguma maneira, mas jamais agredir nem física, nem psicologicamenteâ€, explica.
A psicóloga lembra que é preciso colocar limites desde cedo nas crianças. “Nós somos contra a agressão física porque estudos comprovam que esse método não tem uma eficáciaâ€, afirma.
Adriana diz que se fala por aí que os pais devem ser mais liberais com os filhos, mas, de acordo com ela, ninguém conseguiu adotar uma medida correta ainda. “Os filhos não podem ficar perdidos e fazerem tudo o que querem, há que impor limites, mas com conversas, com calmaâ€, explica.
Outro fator importante, de acordo com a psicóloga, é que os filhos estão mais voltados para as atitudes dos pais e não para o que eles falam, porque muitas vezes o que os pais dizem não é coerente com o que eles fazem. “Por exemplo, o pai diz que é feio mentir, mas muitas vezes o filho já pegou o pai mentindo. E a criança forma sua personalidade com as figuras do pai e da mãe, então tem que prestar atenção nas atitudesâ€, relata.
Outro exemplo é em relação à bebida alcoólica e ao cigarro. O pai diz ao filho que essas coisas fazem mal à saúde, não são boas, mas o filho sempre vê o pai bebendo ou fumando. O pai perde a credibilidade. Vale lembrar, que não adianta o pai esconder do filho, nesse caso, beber ou fumar escondido. O único enganado aí é o pai, porque o filho percebe, sabe que o pai está o enganando, mas muitas vezes, deixa passar, não fala nada, só guarda aquele mau exemplo com ele. “Isso pode ser repercutido mais tardeâ€.
Na escola
As crianças refletem em seus atos o tipo de educação que têm em casa, na escola. Aquelas que sofrem algum tipo de agressão física ou verbal podem desenvolver alguma dificuldade em conviver com os outros alunos e em desenvolver as atividades escolares.
De acordo com a psicóloga e psicopedagoga Sandra Cristina Boconcelo, há muitas mães que sofrem com seus filhos que apresentam problemas nas escolas. É comum ouvir reclamações de mudança no comportamento depois que o filho começa a freqüentar a escola. Por outro lado, há aqueles que passam a desenvolver com mais rapidez somente depois que iniciam o período escolar e melhoram em todos os aspectos. Há crianças que choram e sentem mais dificuldade em se adaptar à escola. Isso tudo, de acordo com Sandra, está dentro do normal. “Está comprovado que a escola é uma extensão da casa e, quanto a estímulos cognitivos (pensamento, percepção, conhecimento), é muito amplaâ€, afirma.
Ela explica que é preciso uma convivência em sintonia entre a família e a escola. A criança precisa de um caminho estável para seguir. “Isso deve ocorrer pelo menos nos cincos primeiros anos de vida. A capacidade de discernimento se instala aos poucosâ€, diz.
A falta de entrosamento da família com a escola, de acordo com a psicopedagoga, acarreta insegurança na criança que fica sem saber o que seguir e a quem obedecer. Como conseqüência da tensão emocional derivada da dúvida, surge o mau aproveitamento escolar e o comportamento indisciplinar.
Sandra finaliza dizendo que se os pais querem os filhos aprendendo e progredindo, precisam entender-se com a escola para uniformizarem as condutas.