Ser

Pé na estrada

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 6 min

O mais recente modelista brasileiro, Hélio de Lima, 25 anos, já conquistou seu espaço na sua área de atuação. Depois de ter sido o vencedor de dois primeiros lugares no Top Francal de Estilismo - 2002, a 34ª Feira de Calçados, Acessórios de Moda, Máquinas e Componentes, realizada entre 15 e 18 de julho no Anhembi, em São Paulo, o artista embarca para Milão-Itália, onde ficará dois meses realizando um curso sobre moda.

Vale lembrar que o curso é um dos mais conceituados na área e, com isso, Lima, que estava vivendo com o seu fundo de garantia, depois de sair da fábrica de calçados onde trabalhava, certamente obterá um bom emprego.

Este foi apenas um dos prêmios que Lima, aluno do Senai de Jaú, recebeu da revista italiana Moda Pelle por ter vencido a categoria Estilo Brasil. O Senai, com o objetivo de ajudar o aluno vitorioso, vai custear a viagem. Outra categoria que Lima conquistou o primeiro lugar do Top Francal 2002 foi Criação Livre.

Nascido em Barra Bonita, onde iniciou seu contato nessa área como cortador de calçados, numa fábrica, ele fez o curso técnico de Modelismo em Calçados no Senai de Jaú por três meses e já se consagrou como um dos melhores da sua área. Os amigos de Lima acreditam que seu potencial é nato. Para eles, o curso apenas aprimorou o dom do amigo que desperta orgulho não só nos amigos, mas principalmente na família.

Com o curso que ganhou na Itália, Lima pretende se aperfeiçoar ainda mais e voltar cheio de novidades. Ele explica que este curso é muito conceituado no meio e estará convivendo num país europeu que dedica boa parte do seu capital para a moda de calçados.

Depois dos prêmios, Lima conta ter recebido várias propostas de trabalho, mas insiste em aprimorar as técnicas de estilismo. Quando voltar da Itália, aí sim ele afirma estar disposto a analisar ofertas de emprego. “Prefiro me dedicar ao curso e aprender italiano por enquanto. Depois vou pensar no que vou fazer”, afirma.

Leia em seguida entrevista com o ganhador do Top Francal 2002.

Jornal da Cidade - Você, antes de fazer o curso de modelismo no Senai, trabalhou numa fábrica de calçados em Barra Bonita. Você acredita que essa vivência no meio fez com que você se interessasse por essa profissão? Hélio de Lima - Sim, eu sempre desenhei fotografia, mas foi através de uma fábrica de calçados que descobri que eu poderia me tornar um bom estilista de calçados.

JC - Quando você percebeu que tinha um certo dom para desenhar calçados? Lima - Foi na fábrica de calçados em que trabalhei, através de um modelista que ao saber que eu tinha o dom de desenhar, pediu para que eu desenhasse um calçado, ele gostou e me elogiou muito.

JC - Você desenha apenas calçados femininos? Lima - Sim, no momento estou investindo na criação de calçados femininos.

JC - Todo artista cria um estilo próprio na área em que atua. Como você se define? Qual seria seu estilo? Lima - Eu me defino como um estilista criativo e inovador. O meu estilo é lançar modelos arrojados e inéditos.

JC - Você se espelha em algum outro modelista? Tem alguém que você admira nessa área e acaba criando os seus modelos de acordo com esse estilo? Lima - Sim eu admiro o estilista Wilson Nadaleto, de Jaú, ambos criamos modelos femininos, mas com estilos próprios.

JC - Como foi a sua participação na Francal? Foi indicação do Senai? Como aconteceu? Lima - A minha participação na Francal foi excelente, pois fui vencedor de duas categorias, 1º lugar no estilo Brasil e 1.º lugar na criação livre, fui indicado pelo Senai e por amigos que atuam na área de calçados. Aconteceu através de uma palestra com o estilista italiano Roberto Benelli, que ao me reconhecer, me indicou a participação no Top de estilismo Francal 2002.

JC - Algumas vezes, a gente participa de concursos só por participar, outras, sentimos que temos chance de ganhar algum prêmio, você já esperava ganhar algum prêmio ou foi uma surpresa totalmente inesperada? Lima - Sim, eu já esperava ganhar algum prêmio. A surpresa foi ganhar uma bolsa de estudos em Milão, na Itália.

JC - Você concorreu aos prêmios com quantos modelistas? Lima - No estilo Brasil disputei com outros 31 modelistas, e na categoria criação livre com 46 modelistas.

JC - Qual foi o seu prêmio? Lima - Dois troféus de ouro, um prêmio em dinheiro e uma bolsa de estudos em Milão.

JC - E agora, o que muda na sua vida? Lima - Mudam muitas coisas, pois graças a esse prêmio no top de estilismo, e a bolsa de estudos vou ganhar mais credibilidade no mercado de trabalho.

JC - O que você espera do curso que irá fazer na Itália e o que isso acrescenta no seu currículo? Lima - Espero me aperfeiçoar ainda mais, vou ter um crédito a mais por fazer um curso de três meses em Milão, onde concentra-se os melhores estilistas do mundo.

JC - O que você pretende fazer quando voltar da Itália? Lima - Pretendo continuar o meu trabalho com mais segurança e mais experiência.

JC - Você já recebeu alguma proposta de emprego que te balançou? Lima - Já tive propostas, mas não uma que me balançasse.

JC - Quais as oportunidades que surge na vida de um profissional que ganha os prêmios que você ganhou? Lima - As oportunidades são muitas, mas pretendo continuar com os estudos para depois entrar no mercado de trabalho.

JC - E sua família, o que está achando de tudo isso? Lima - Estão muito felizes e orgulhosos.

Inovação

De acordo com Lima, a idéia do modelo vencedor na categoria Criação Livre já rondava sua imaginação. “Eu queria fazer alguma coisa com cepa (o “corpo” do calçado, geralmente maciço ou quase, com salto anabela) de madeira, e pensava em um modelo de porta-jóias”, conta.

Quando mostrou seu projeto a seus colegas e supervisores do curso no Senai, percebeu o entusiasmo que eles demonstraram em relação a sua inovação e se dispôs a produzir o calçado. O resultado é uma sandália com cepa e cabedal (a cobertura) em madeira, solado em couro e um espelho como detalhe. Os puxadores das pequenas gavetas são em metal niquelado. Um modelo totalmente diferenciado do convencional que conquistou os jurados do concurso.

Para o Estilo Brasil, ele optou por pesquisar materiais mais próximos possíveis do conceito de País tropical. A escolha recaiu sobre bambu e juta. “Os índios usavam e ainda usam muito bambu, e a juta também aparece muito, como nas sacas de café”, argumenta Hélio, que acredita que de agora em diante, é preciso investir nessa carreira. Quando voltar da Itália é que ele vai pensar no que vai fazer, mas uma coisa é certa: um bom emprego esse rapaz de Barra Bonita, já conquistou. “Agora não tem mais volta. O único jeito é ser modelista”, afirma demonstrando um ar de felicidade.

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