Política

Pittoli cria o 'socialismo messiânico'

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 11 min

O primeiro candidato a governador do Estado por Bauru, advogado Carlos Roberto Pittoli (PSB), vai para a disputa com nomes como José Genoíno (PT), Geraldo Alckmin (PSDB) e Paulo Maluf (PPB) com um histórico de lutas contra a ditadura militar e a concepção de transformação da sociedade para o socialismo pela via democrática. Sem a pretensão de adentar ao mundo do conflito entre capital e trabalho e suas incongruências com nossa civilização, Pittoli se coloca como “instrumento da resistência em direção a um modelo de socialismo” que encontra algumas semelhanças até mesmo em passagens bíblicas que pregam o espírito de igualdade entre os homens.

Carlos Roberto Pittoli vai participar neste domingo, a partir das 21h30, do primeiro debate entre os candidatos a governador do Estado de São Paulo, na TV Bandeirantes. Antes disso, leia nesta página alguns pensamentos do bauruense:

Jornal da Cidade - Como organizar a campanha a menos de 60 dias da eleição? Carlos Roberto Pittoli - Não sou eu que vou organizar a campanha. Será eu e o conjunto do partido. Porque uma das condições que eu coloquei quando decidiram que eu seria candidato é que o comando me auxiliasse com organização, informação, formação de conselho político e apoio pessoal e de algum material. Não estou preocupado com apoio financeiro. Pedi para que a estrutura inclua a experiência e as informações que os companheiros detêm. Acredito que a formação dessa estrutura nos deixe em boas condições de participar do debate deste domingo na televisão.

JC - Como o senhor pretende divulgar seu nome nesse curto espaço de tempo? Pittoli - Vamos correr, fazer reuniões, receber a imprensa nos centros regionais, conversar com segmentos específicos da população, organizações sociais, repetir e multiplicar discursos. O Estado de São Paulo é muito grande, de Dracena, na barranca do Paraná, até na divisa com o Rio de Janeiro temos mais de mil quilômetros de chão. Mas começamos a trabalhar com uma visão das necessidades das regiões macroeconômicas, dividindo as propostas de acordo com a vocação de cada região e suas necessidades. O Vale do Ribeira é completamente diferente do litoral que é completamente diferente do Pontal do Paranapanema. O programa de televisão também vai ajudar muito a difundir esse programa. A televisão ainda nos leva a todos os lares de forma rápida e eficiente, eliminando as distâncias. Mas não vamos fabricar nenhum produto. Vamos difundir nossas idéias.

JC - O senhor acredita na transferência do sentimento do bauruísmo para o senhor que é candidato da cidade a governador? Pittoli - Alguns comunicadores têm batido muito nessa questão do bauruísmo. Sou paulista nascido em Avaí e sempre estudei em Bauru, meus filhos nasceram aqui, eu me casei aqui e aqui eu vivo. Sou conhecido aqui. Entendo que bauruísmo não se transfere. Entendo que as pessoas votam para governador de uma forma diferente da escolha para o prefeito. A candidatura para governador é uma missão muita difícil e de uma responsabilidade enorme. Agora, se o sentimento do bauruísmo aflorar, eu fico muito feliz porque podemos mostrar nossa força para o Estado. Saber que daqui sai alguém para representar nossa região no Estado já é uma grande satisfação, independente do nome. Nós merecemos ter representantes locais no cenário estadual e se o bauruísmo vier, será bem vindo.

JC - Apesar de mais de 10 candidaturas, por que dois nomes polarizam esta eleição há alguns meses? Pittoli - Veja, o Paulo Maluf milita na política há quase 100 anos. Ele deve ter uns 70 de idade, mas fazia política antes da mãe dele nascer. Ele é perseverante, não brinca em serviço e vem para ganhar e para bater. Mas também se expõe demais, tem muitos pontos fracos e isso será mostrado. Com o programa de televisão e o afunilamento da eleição, vai ficar mais à flor-da-pele a rejeição e a história do Maluf. Ele tem muitos defeitos em sua carreira política e eu nunca votarei nele. O outro candidato não fez nada para o Estado até agora, apesar de estar no governo há oito anos. Ele foi vice e passou a ser governador. O Alckmin reforçou um programa que consideramos maléfico para o povo de São Paulo e do país, que é o neoliberalismo. Essa política econômica não se adequa aos interesses da nossa população mas só serve aos interesses dos grandes grupos financeiros. Além disso, o governador tem uma máquina administrativa maior que a de muitos países e isso não é pouco. Essa máquina mantém por perto aqueles que dela dependem a gravitam. Mas a partir de agora não serão mais dois ou três candidatos, mas vários. E vamos ocupar o espaço com nossas idéias. Há possibilidade de mudar.

JC - O senhor pretende aproveitar sua história de militância nesta eleição, que contém a tortura como ingrediente da manifestação política? Pittoli - Nossa história política dá o indicador de como levar o partido para a massa, a população. O PSB tem que ser levado mais ativamente para a massa. O que eu entendo é que esse histórico de militância política me coloca em um ponto de já ter enfrentado situações pesadas, complicadas, duras, mas que eu sobrevivi. Sobrevivi e fui atrás da construção de minha vida. Me apliquei, trabalhei, me identifico muito com as causas sociais e, portanto, não temo nada na luta pela transformação da sociedade. Estou inserido em Bauru, com minha família, em um Estado chamado São Paulo, que está inserido em um lugar chamado Brasil que não é utopia, está inserido em um lugar chamado planeta. Portanto, essa história certamente me coloca em condição de participar desse processo de cabeça erguida e com o sentimento de já ter sentido na pele o que é dificuldade.

JC - Então o senhor vai explorar a veia socialista nesta eleição? Pittoli - O socialismo tem que ser mais divulgado junto à população para que se entenda que no socialismo se busca oferecer a cada um oportunidades iguais. Meus filhos já fizeram e fazem faculdade. Por que o filho do meu vizinho não pode fazer faculdade? Esse sentimento básico de dar igualdade nas oportunidades precisa ser difundido. Por que o meu filho tem acesso a uma faculdade pública que nós pagamos, inclusive meu vizinho, e o filho dele não tem a sua vaga? Até o mais humilde que compra um pacote de feijão está ajudando o meu filho a ter sua faculdade pública porque paga imposto. E todos os filhos não chegam à faculdade pública porque nosso ensino de base é muito fraco e exclui os mais humildes. A partir da educação começamos a modificar essa realidade.

JC - A educação pode ser o símbolo da transformação social? Pittoli - Pelo menos o símbolo capaz de permitir que todos tenham condições iguais de aprendizado, formação e politização para buscar seu espaço na sociedade. Esse cidadão que é ministro da educação, o Paulo Renato, proibiu que se desse aula de sociologia e curso de sociologia no curso colegial. Esse cidadão que ocupa a presidência da República e não merece nem ter o nome repetido, proibiu que se proibisse sociologia. Por quê? Porque a filosofia e a sociologia fazem nossos jovens pensar e isso permite conhecer a realidade sem maquiagem e perceber como se dá a convivência em nosso complexo social.

JC - O governo representa interesses capitalistas? Pittoli - Esses cidadãos são meros representantes do FMI no Brasil e querem nossos filhos cada vez mais ignorantes no sentido educacional da palavra. Temos aqui no Estado de São Paulo a Rose Neubauer, que acabou com a repetência em nosso Estado e enfraqueceu nosso sistema de educação na base, acabou com a qualidade de nossas escolas. Nossas crianças, em boa parte, lêem os textos mas não entendem o que foi lido. É a massificação do domínio a partir da pseudo-alfabetização. Esse processo interessa a esse sistema que eles ajudaram a se formar em nosso país. Isso é catastrófico e o socialismo pode mudar essa realidade. Esses cidadãos estão enterrando nossa identidade cultural.

JC - Mas o senhor vai conversar com milhões de semi-analfabetos, milhares de analfabetos e muitos despolitizados? Pittoli - Sim, mas nós temos que começar a conversar porque esse é o nosso povo. E temos que mostrar para ele que é possível mudar e isso poder acontecer através do voto. Existe o novo, e o novo sempre vem. Alguém chamado Belchior cantava isso. Se eu servir para ser o instrumento dessa divulgação de mudança eu já me sentirei satisfeito.

JC - Qual sua opinião sobre a formação religiosa na escola? Pittoli - Acho que tem que ter formação religiosa sim, mas tem que ser mais ampla. Não pode abrir a aula apenas com a oração do Pai Nosso, que para mim é uma das orações mais lindas que existem junto com a prece de Cáritas, que é espírita e é linda. Tem que ter religião, mas no sentido amplo. Tem que ter religião sim, mas falando da história católica, cristã, do protestantismo, tem que explicar como se deu a reforma, falar de Lutero, Calvino, falar das diferentes correntes evangélicas, tem que falar da umbanda, das manifestações de origem africana, do espiritismo de Kardec. Ou seja, quero dizer com isso que a religião tem que ser dada na escola respeitando a liberdade das crianças na formação religiosa que vem do berço. Não pode fazer distinção entre as correntes religiosas. Não se trata nem de defender as minorias, nem de manifestar a maioria. Se trata de liberdade de expressão e de formação cultural e religiosa e isso está na Constituição Federal. Vamos tratar de religião na escola como um elo de formação de moral, de solidariedade, do conhecimento desse ser maior que arquitetou o universo e que se manifesta à nossa semelhança pregando o amor entre todas as pessoas.

JC - Como o senhor vê o fundamentalismo religioso? O senhor vê riscos na apropriação da fé como alavanca de busca do poder? Pittoli - Entendo que sempre que se apropria a religião para fins políticos está se cometendo um erro muito grande. E esse erro redonda em prejuízo para seu próprio autor. No caso do fundamentalismo, ele é tão maléfico quanto toda e qualquer forma de radicalismo. E tudo o que é radical fere garantias. Não pode existir radicalismo, mas deve existir a tolerância religiosa com o respeito pela vida humana.

JC - O país tem indicadores sociais comparáveis a uma guerra civil. Como romper por esse modelo pela via democrática? Pittoli - O modelo diferente da via democrática é o revolucionário, mas não vejo condições e não entendo como possível nesse atual estágio do país a revolução. Gramsci, que foi um grande pensador italiano, colocou bem essa questão. Ele apontou que temos que desenvolver um trabalho voltado pela formação. Vamos bater a ferro frio durante um bom tempo. Mas o bater constante aquece as moléculas e o ferro vai esquentar e vai se expandir. A democracia é fundamental nesse processo de mudança. É a democracia que mostra como se dá a corrupção. Na ditadura, a corrupção era muito maior, mais tudo era obscuro, tinha censura. Hoje a imprensa fala do Lalau, do TRT, do Luiz Estevão, do preço da avenida Água Espraiada em São Paulo, das contas em Jersey, do preço do Rodoanel, etc. Ainda temos muito a evoluir e um dos campos é eliminar o resquício da ditadura chamada impunidade. Quem faz a lei é quem está no poder, não é o povo. O Maluf está 30 anos respondendo por processos e a Justiça demora a chegar nele. Isso é uma vergonha, é nojento. Mas vamos transformar. Vamos começar e o povo vai aprendendo com o exercício da democracia. Pode demorar, mas mudaremos. O ladrão de galinha é preso porque não faz lei, a galinha faz um barulho danado e o ladrão de galinha foge de bicicleta e não de jatinho.

JC - Para finalizar, existe alguma página da Bíblia onde o conteúdo possa ser juntado com algum pensamento de Marx? Pittoli - Existem muitas passagens. A Bíblia e Marx se juntam em muitos conteúdos. Marx pregou: aos pobres, orientar, fazer crescer, fazer evoluir, respeitar, tolerar, ser irmão, morar próximo, ser companheiro, viver em comunidade, dividir o pão de forma igual. E muitos dos fundamentos da Bíblia já indicavam o milagre do embrião do socialismo que se mostra através das passagens de multiplicação dos pães, do amor entre as pessoas e do respeito ao próximo. Mas não pode ser colocado como anticristão. O materialismo dialético serve como possibilidade primeira de estudar as transformações sociais e o materialismo histórico é a alavanca necessária para a compreensão das mudanças da sociedade. Mas, de repente, você cai no vazio porque é o ser humano que pode evoluir, mudar, tem livre arbítrio. E aqui, neste instante, isso só pode se dar com solidariedade e através do voto.

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