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Mercado rejeita portador do HIV

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Preconceito associado à desinformação são ingredientes que dificultam o acesso dos portadores de HIV ao mercado de trabalho. Pessoas como o casal Maria e João (nomes fictícios), pais de seis filhos, passam por dificuldades financeiras apesar de várias tentativas de trabalhar.

A situação da família é cada dia mais difícil. O casal HIV positivo não consegue trabalho e os seis filhos passam por dificuldades, inclusive de alimentação. O aluguel está atrasado e o proprietário da casa entrou com ação de despejo. “Vamos ter que desocupar a casa a qualquer momento”, lamenta a mulher.

Ela não sabe para onde vai quando o oficial de Justiça chegar com a ordem judicial. “Não sei o que vou fazer. Estamos sem energia, água e sem comida”, conta.

Maria não quer que as pessoas pensem que ela está esmolando. “Eu quero um trabalho que me dê condições para sustentar meus filhos. Eu estou bem e preciso de um trabalho. Sou faxineira”, conta.

O marido dela, também portador do vírus HIV, está disposto a fazer pequenos serviços. “Estou em tratamento e consigo fazer pequenos serviços como ajudante. Mas as chances no mercado de trabalho são mínimas. Preciso sustentar a minha família”, diz.

A mulher conta que sofre com o preconceito em todos os lugares. “Se meus vizinhos souberem da minha doença acho que não vão me ajudar mais. Tenho medo que as pessoas saibam”, confessa.

Os filhos do casal é que estão sofrendo as conseqüências. “Um dos meus filhos é portador do vírus. Os demais, não. Minha filha de 14 anos foge de casa e eu queria que ela fosse internada num educandário. Ela vive em conflito por causa desta situação”, diz Maria.

Élcia Terezinha Rodrigues, psicóloga e coordenadora do Recursos Humanos do Centro de Orientação para o Trabalho (COT), acha que os portadores do vírus HIV deveriam ter cota de emprego assegurada, assim como os portadores de deficiência física.

Ela lembra que dos 200 desempregados atendimentos pelo COT em um mês, 1% sé portador do vírus. “São homens na idade produtiva, entre 20 e 45 anos”, relata. Dentre os atendidos, a psicóloga lembra um deles em especial. “Ele é um ótimo profissional. É portador do vírus e sofre com a rejeição”, conta.

Para ela, a desinformação é a maior barreira. “As empresas temem que a doença seja passada para outros funcionários. Os empresários receiam que o empregado precise de licença durante muito tempo, entre outras coisas”, diz.

Élcia ressalta que a maioria das empresas rejeita o portador do HIV. “Em Bauru há empresas que atendem, mas a maioria rejeita. Eu conto a verdade às empresas porque ainda acho que é o melhor caminho”, sustenta.

Em um caso, segundo a psicóloga, a empresa não pôde contratar o profissional porque o seguro não o aceitou. “Eu nem sabia que o seguro não aceitava os portadores!”, admira-se.

A psicóloga ressalta que o portador do vírus é uma pessoa que precisa comer, beber e dormir, como qualquer um de nós. “Se o mercado de trabalho o rejeita, ele não tem como sobreviver”, questiona.

Já o Centro de Encaminhamento e Pesquisa ao Mercado de Trabalho (Cepet) não registra se os candidatos a emprego são ou não portadores do vírus HIV. “Nosso cadastro não inclui a parte de saúde”, explica a coordenadora do Cepet, Telma Ribeiro de Carvalho.

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