Auto Mercado

Encontro com o passado

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

Sempre há pessoas que imaginam, equivocadamente, que os encontros de veículos antigos em Bauru resumem-se a um punhado de carros sempre dos mesmos donos dispostos aos 15 minutos de fama. Entretanto, os motivos que levam a formação de tal estereótipo são desconhecidos.

O fato é que toda reunião onde os automóveis antigos são o centro das atenções tem suas particularidades. Sempre há proprietários e veículos diferentes e histórias igualmente curiosas para contar. Prova disso foi o evento do gênero realizado no último domingo, no estacionamento da Faculdade de Odontologia de Bauru, pelo Clube de Carros Antigos do Centro Oeste Paulista.

O encontro reuniu cerca de 280 carros de décadas passadas e atraiu pelo menos 5 mil pessoas, entre admiradores, apaixonados, colecionadores e curiosos ávidos pelo clima de saudosismo no ar. Além disso, o evento também teve seu lado solidário e arrecadou aproximadamente 100 quilos de alimentos não-perecíveis, que serão distribuídos às entidades bauruenses mantidas pelo Centro Espírita Amor e Caridade.

O encontro teve na variedade de modelos seu maior destaque. Por onde se andasse nas alas divididas previamente pela organização era possível perder alguns minutos de atenção entre uma raridade e outra. Logo no “bolsão” inicial de carros, que abrigava alguns Fordinhos e jardineiras, uma das maiores atrações do evento: um Ford Phaeton 1922, movido a manivela e o mais antigo em exposição.

Na segunda ala, destinada aos automóveis produzidos entre as décadas de 30 a 60, lá estavam os Dodges, Mercedes, Ford sedans, caminhonetes e Chevrolets. Entre estes, uma “jóia” do passado difícil de se encontrar em eventos de antigomobilismo: um Chevrolet Commercial 1946, também conhecido como “Tigre” em razão de sua enorme grade dianteira com frisos semelhantes a listas do felino.

O felizardo a possuí-lo é o botucatuense Hélio Barduco Júnior, que participou pela primeira vez do encontro bauruense. Para ele, ser proprietário de um auto antigo é colaborar para preservar a história. “O brasileiro não tem por hábito cultuar sua memória histórica. Carro também é cultura e imagine o que um Tigre desse deve trazer de lembranças sobre ele”, considera.

E estas não faltam, conforme conta Hélio. Segundo o botucatuense, seu Chevrolet, como o próprio nome dá pistas, era utilizado para fins comerciais na época, atuando na entrega de pães e como ambulância na Santa Casa de São Manuel, cidade vizinha à sua terra natal. “Que eu saiba, só há mais dois modelos desse no Brasil, mas esta tem detalhes que a diferencia das outras, como o vidro lateral e a entrada de ar traseira”, diz ele.

Para comprá-la, Hélio contou com a sorte. “Ela estava abandonada à beira de uma estrada, em um terreno de café, há cerca de 22 anos. Parei para perguntar quem era o dono e, por coincidência, era um amigo. Acabei adquirindo-a e reformei-a inteiramente, pois o motor estava estourado”, relembra ele. E acrescenta: “Mas ainda pretendo pintá-la da cor original, pois ela era branca.”

O encontro reservou, ainda, áreas para a exposição de motos antigas, como lambretas e uma BMW sidecar, e de automóveis envenenados, principalmente Fuscas e Opalas turbinados e com potentes equipamentos sonoros.

De pai para filho

Outro que também tornou-se alvo dos olhares curiosos do público visitante foi uma caminhonete azul piscina F1 1952, de propriedade do araraquarense Daiwes Gustavo Ferreira de Melo.

Estreando no encontro bauruense, Daiwes elogiou a quantidade e a qualidade dos modelos em exposição e aproveitou para relatar sua história de amor com o veículo, que comprou há cerca de seis anos. “Meu avô tinha uma oficina e meu pai trabalhava nos carros. Assim, fui pegando gosto até virar um hobby. Hoje até já vivo dessa atividade”, ressalta ele.

Daiwes enfatiza que a admiração pela F1 é tanta que a sensação é a mesma de possuir um automóvel importado. “Quem tem mais recursos financeiros pode comprá-los e, assim, por onde onde irá chamar a atenção. Consigo fazer a mesma coisa com a F1, mas sem ter de gastar muito para isso”, considera ele.

Mesmo assim, o araraquarense desembolsou uma boa quantia para restaurar a caminhonete. “Quando a adquiri ela só tinha a carcaça. Fiz funilaria e a parte mecânica, colocando um motor seis cilindros da F1.000. Assim, viajo com ela para todos os cantos que preciso”, garante Daiwes.

Primeiro carro

Na ala do encontro reservada aos Fuscas, Gordinis, Corcels, DKWs e Willys, um dono de um Fusca 1967 relembrava com saudade dos tempos em que o modelo da Volkswagen transformou-se no primeiro carro de muitos brasileiros.

Para o jauense Carlos Alberto Miranda, vários motoristas que circulam pelas ruas e avenidas de Bauru e região aprenderam as técnicas de direção ao volante de um Fusca. “Isso principalmente para aqueles, como eu, na faixa de idade dos 50 anos”, destaca ele. “Além disso, quantos namoros não aconteceram dentro de um Fusca. Saía com minha primeira namorada nesse Fusca”, acrescenta.

Para Carlos, mesmo diante da modernidade e da tecnologia atual dos veículos, ainda vale a pena ter um Fusca por vários motivos. “Tenho outros carros, mas ele é o meu xodó. O Volks é fácil de manter sua originalidade e conservá-lo”, conclui ele.

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