Sempre há pessoas que imaginam, equivocadamente, que os encontros de veículos antigos em Bauru resumem-se a um punhado de carros sempre dos mesmos donos dispostos aos 15 minutos de fama. Entretanto, os motivos que levam a formação de tal estereótipo são desconhecidos.
O fato é que toda reunião onde os automóveis antigos são o centro das atenções tem suas particularidades. Sempre há proprietários e veículos diferentes e histórias igualmente curiosas para contar. Prova disso foi o evento do gênero realizado no último domingo, no estacionamento da Faculdade de Odontologia de Bauru, pelo Clube de Carros Antigos do Centro Oeste Paulista.
O encontro reuniu cerca de 280 carros de décadas passadas e atraiu pelo menos 5 mil pessoas, entre admiradores, apaixonados, colecionadores e curiosos ávidos pelo clima de saudosismo no ar. Além disso, o evento também teve seu lado solidário e arrecadou aproximadamente 100 quilos de alimentos não-perecíveis, que serão distribuídos às entidades bauruenses mantidas pelo Centro Espírita Amor e Caridade.
O encontro teve na variedade de modelos seu maior destaque. Por onde se andasse nas alas divididas previamente pela organização era possível perder alguns minutos de atenção entre uma raridade e outra. Logo no “bolsão†inicial de carros, que abrigava alguns Fordinhos e jardineiras, uma das maiores atrações do evento: um Ford Phaeton 1922, movido a manivela e o mais antigo em exposição.
Na segunda ala, destinada aos automóveis produzidos entre as décadas de 30 a 60, lá estavam os Dodges, Mercedes, Ford sedans, caminhonetes e Chevrolets. Entre estes, uma “jóia†do passado difícil de se encontrar em eventos de antigomobilismo: um Chevrolet Commercial 1946, também conhecido como “Tigre†em razão de sua enorme grade dianteira com frisos semelhantes a listas do felino.
O felizardo a possuí-lo é o botucatuense Hélio Barduco Júnior, que participou pela primeira vez do encontro bauruense. Para ele, ser proprietário de um auto antigo é colaborar para preservar a história. “O brasileiro não tem por hábito cultuar sua memória histórica. Carro também é cultura e imagine o que um Tigre desse deve trazer de lembranças sobre eleâ€, considera.
E estas não faltam, conforme conta Hélio. Segundo o botucatuense, seu Chevrolet, como o próprio nome dá pistas, era utilizado para fins comerciais na época, atuando na entrega de pães e como ambulância na Santa Casa de São Manuel, cidade vizinha à sua terra natal. “Que eu saiba, só há mais dois modelos desse no Brasil, mas esta tem detalhes que a diferencia das outras, como o vidro lateral e a entrada de ar traseiraâ€, diz ele.
Para comprá-la, Hélio contou com a sorte. “Ela estava abandonada à beira de uma estrada, em um terreno de café, há cerca de 22 anos. Parei para perguntar quem era o dono e, por coincidência, era um amigo. Acabei adquirindo-a e reformei-a inteiramente, pois o motor estava estouradoâ€, relembra ele. E acrescenta: “Mas ainda pretendo pintá-la da cor original, pois ela era branca.â€
O encontro reservou, ainda, áreas para a exposição de motos antigas, como lambretas e uma BMW sidecar, e de automóveis envenenados, principalmente Fuscas e Opalas turbinados e com potentes equipamentos sonoros.
De pai para filho
Outro que também tornou-se alvo dos olhares curiosos do público visitante foi uma caminhonete azul piscina F1 1952, de propriedade do araraquarense Daiwes Gustavo Ferreira de Melo.
Estreando no encontro bauruense, Daiwes elogiou a quantidade e a qualidade dos modelos em exposição e aproveitou para relatar sua história de amor com o veículo, que comprou há cerca de seis anos. “Meu avô tinha uma oficina e meu pai trabalhava nos carros. Assim, fui pegando gosto até virar um hobby. Hoje até já vivo dessa atividadeâ€, ressalta ele.
Daiwes enfatiza que a admiração pela F1 é tanta que a sensação é a mesma de possuir um automóvel importado. “Quem tem mais recursos financeiros pode comprá-los e, assim, por onde onde irá chamar a atenção. Consigo fazer a mesma coisa com a F1, mas sem ter de gastar muito para issoâ€, considera ele.
Mesmo assim, o araraquarense desembolsou uma boa quantia para restaurar a caminhonete. “Quando a adquiri ela só tinha a carcaça. Fiz funilaria e a parte mecânica, colocando um motor seis cilindros da F1.000. Assim, viajo com ela para todos os cantos que precisoâ€, garante Daiwes.
Primeiro carro
Na ala do encontro reservada aos Fuscas, Gordinis, Corcels, DKWs e Willys, um dono de um Fusca 1967 relembrava com saudade dos tempos em que o modelo da Volkswagen transformou-se no primeiro carro de muitos brasileiros.
Para o jauense Carlos Alberto Miranda, vários motoristas que circulam pelas ruas e avenidas de Bauru e região aprenderam as técnicas de direção ao volante de um Fusca. “Isso principalmente para aqueles, como eu, na faixa de idade dos 50 anosâ€, destaca ele. “Além disso, quantos namoros não aconteceram dentro de um Fusca. Saía com minha primeira namorada nesse Fuscaâ€, acrescenta.
Para Carlos, mesmo diante da modernidade e da tecnologia atual dos veículos, ainda vale a pena ter um Fusca por vários motivos. “Tenho outros carros, mas ele é o meu xodó. O Volks é fácil de manter sua originalidade e conservá-loâ€, conclui ele.