Ser

Minha história


| Tempo de leitura: 2 min

Foste embora, nem um último adeus, nem um derradeiro olhar. Nada que ficasse na memória para relembrar nossa despedida. Partiste e fiquei, seguiste teu destino para viver um grande amor e eu fiquei com o meu, sem ti. Deixaste-me, sem saber o sentimento que devora meu coração, tal qual um verme faminto, sem saber a tristeza em que minha alma ficou mergulhada.

Antes de te conhecer, meu coração vivia imerso num emaranhado caótico de sentimentos, que se degladiavam inutilmente. Sofria com o coração de poeta, que amava a quem nunca tinha visto. Mendigava amor, como o marinheiro insatisfeito, buscando em cada porto um pouco de carinho.

Assim como o mergulhador intrépido desce às profundezas do oceano, em busca da jóia rara, escondida numa concha que ninguém notou, eu te procurava em cada rosto de mulher, no incontido desejo de encontrar finalmente o ideal de mulher tão sonhado, transformado em carne e osso.

Ocultava avarentamente dentro de mim um amor sem mácula, à espera de minha alma gêmea, do meu ideal cristalizado numa torre de marfim, até que te encontrei, visão esculpida em minha mente, alma de menina em corpo de mulher.

E tudo em ti me atraiu misteriosamente, aquele teu jeito simples de andar, teus olhos castanhos, contrastando com teu espírito alvo, teus cabelos curtos roçando levemente a nuca, teus lábios pequenos e delicados, tua voz meiga e suave. Ah! Teu sorriso angelical, inesquecível. Teci em torno de ti a concretização do almejado ideal de mulher.

Por ti, fui criança ingênua, que a tudo vê com exacerbado otimismo. Sonhava construir algo de belo e grandioso ao teu lado. Eu te daria o meu sentimento mais puro, minha emoção mais profunda, nunca sentida antes por mim. Eu te cobriria, dia e noite, de carinhos.

Eu te amaria, não com a violência do mar batendo contra as rochas, mas com a mansidão das águas serenas de um lago azul, incrustado no alto de uma montanha, bem pertinho do céu. Eu te amaria, não com o desespero dos condenados à morte, mas com a fé dos que morrem com os olhos voltados para Deus.

Poderias ter sido tudo em minha vida. Sonhava fazer-te a dona absoluta de meu coração, a razão maior de meu viver. Contigo, eu seria rei. Por ti, eu seria escravo eterno de todos os teus desejos. Conquistaria os mais altos píncaros, em busca do amor tão desejado, tão sonhado. Mas a realidade da vida está muito aquém de nossos sonhos.

Um mil, novecentos e sessenta e sete. Olhos nos olhos, mãos entrelaçadas, dois rostos sorridentes. Então, o padre finaliza: “Que o homem não separe o que Deus uniu”. E o juiz de paz proclama solenemente: “Eu vos declaro marido e mulher”. Poderias ter sido tudo em minha vida. Mas assim estava escrito, Deus não quis. Simplesmente foi-me tirado tudo e me dado nada...

G

Comentários

Comentários