Aplausos, lágrimas e sorrisos. Quando soou o apito da maria-fumaça, na noite de ontem, a comunidade que encheu a antiga Estação da Noroeste do Brasil para ver (ou rever) a máquina, teve as mais diferentes reações de emoção.
De ferroviários aposentados a crianças de colo levadas pelas famílias, mais de 600 pessoas estiveram presentes no evento de apresentação da locomotiva 278, recuperada pela Secretaria Municipal de Cultura e que agora volta aos trilhos. A iniciativa faz parte do projeto “Ferrovia para Todosâ€.
Ao ouvir o barulho provocado pela velha máquina quando chegava à estação, Paulo César Bertolini, filho de ex-ferroviário, não conteve as lágrimas. “Que saudadeâ€, diz.
Emocionada, Maria do Carmo Bertolini, 71 anos, lembra de quando viajava com os dois filhos e o marido para o Mato Grosso a bordo de uma maria-fumaça. “Estou chorando por dentro. Viajei muito nesse tremâ€, conta. “Foi muito bom, mas agora só resta a saudadeâ€, acrescenta.
Foi o ferroviário aposentado da Noroeste do Brasil (NOB) Geraldo Pires que trabalhou como maquinista na noite de ontem, conduzindo a fumaça para perto das pessoas que esperavam ansiosamente. “A emoção é muito grande de entrar nessa estação cheia conduzindo essa locomotiva. Não tem coração que agüenteâ€, expõe.
Além do maquinista e foguista, a máquina trouxe a bordo o grupo Choro Alto, que tocou para os participantes músicas da época em que a ferrovia movia a cidade. Emocionados, alguns dos presentes cantaram em coro a famosa “Trem das Onzeâ€.
O ferroviário José Carlos da Silva, 45 anos, diretor do Sindicato dos Ferroviários, lembra a importância da ferrovia para a história do desenvolvimento da cidade. “Bauru não pode fugir dessa históriaâ€, diz.
A presença de famílias no evento de ontem foi marcante. Preocupados em passar um pouco da história aos filhos, os pais levaram à antiga estação crianças de todas as idades.
Daniel Ferreira Maciel, 10 anos, neto de ferroviário aposentado, diz que gostaria não apenas de ver a máquina nos trilhos, mas também de passear a bordo da maria-fumaça. “Eu vim para ver a máquinaâ€, salienta.
Sua irmã, Gisele Maciel Arantes, 13 anos, conta que o interesse surgiu a partir das histórias contadas pelo avô. Dá curiosidade de ver a máquina andando e saber como era naquela épocaâ€, diz.
Acompanhado pelo casal de filhos, Adalto Sebastião Bombini Júnior compareceu ao evento. “Eu os trouxe para que eles conheçam um pouco da história da nossa ferrovia e de algo que infelizmente está praticamente encerrado no Paísâ€, ressalta.
Denilse Donizete Braga de Melo Souza, funcionária do Museu Municipal de Bauru, levou a filha de 20 anos. “Minha filha quase não viajou de trem e eu viajei muito. É uma recordação muito bonitaâ€, expõe.
A filha, Genilse de Souza, estudante, quer que as próximas gerações valorizem mais a ferrovia. “Estou achando o máximo e eu gostaria que meus filhos pudessem participar disso tambémâ€, observa.
O ferroviário aposentado Vanderlei Trindade levou o neto para conhecer a locomotiva 278. “Eu trabalhei um pouco em maria-fumaça, mas acabei meu tempo nas máquinas a diesel.â€
História
Momentos antes de soar o apito da 278, o prefeito de Bauru, Nilson Costa, relembrava que a rede ferroviária foi constituída nos tempos de Juscelino Kubitschek. “Para mim, como ferroviário aposentado, é um momento importante. Eu acompanhei a história da ferrovia. Isso aqui é um esforço romântico em que nós fazemos a ferrovia voltar aos velhos temposâ€, expõe.
O historiador Luciano Dias Pires destaca a importância do dia 27 de setembro de 1906, quando a Noroeste inaugurou seu primeiro trecho - 48 quilômetros entre Bauru e Avaí. “Essa realização traz para nós muitas lembranças. Principalmente para mim, que fui ferroviário por 37 anosâ€, conta.
“Quatro gerações de bauruenses trabalharam na ferrovia. Eu vivi praticamente 50 anos ligado a elaâ€, acrescenta o historiador.