Ontem, ao comemorarmos o dia da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, me veio à lembrança o tempo em que servi como capelão no Convento de Santa Clara. A comunidade religiosa era formada de irmãs que, devido à idade e limitações de saúde, não podiam se deslocar para a igreja mais próxima e participar da missa.
O convento já estava há um bom tempo a procura de um padre e a madre superiora não escondia o alívio pela minha chegada pois, todo mês, uma boa parte do seu tempo era dedicada a agendamentos com sacerdotes da região.
Para mim, este ano e meio no Convento de Santa Clara foi um verdadeiro oásis, durante o qual consegui terminar minha tese de doutorado. Porém, devo admitir que, nos meus primeiros meses, sentia um certo constrangimento, pois aquelas mulheres, com muito mais experiência de vida e de serviço a Deus do que o jovem padre, permaneciam dependentes da presença de um homem, para celebrar a eucaristia.
A contradição se tornava ainda maior com a imagem de Maria no centro do altar-mor da capela. Apesar de darmos um nome masculino ao Ser superior que gerou o universo e nos chamou para a existência, Deus está acima da nossa natureza humana, em outras palavras, Deus não possui sexo. Em uma visão cristã, Deus se revela aos homens como “paiâ€, pois em seu relacionamento conosco reconhecemos características de uma relação paterna.
Porém, nesta mesma relação, podemos sentir muito do amor maternal. Por esta razão, o Papa João Paulo I fez questão de nos lembrar que Deus também é “mãeâ€. Portanto, não somente aspectos masculinos (força, poder, autoridade...), mas principalmente femininos (amor, misericórdia, carinho...) fazem parte da imagem que nos foi revelada de Deus.
Este lado feminino do Sagrado não é nenhuma novidade do Cristianismo. Durante toda a história da humanidade existiu a fé em uma deusa ou em uma manifestação feminina de Deus.
Isis era, para os egípcios, a deusa que conduzia os homens à ressurreição. O povo hebreu acreditava em Aschera, mediadora da Graça salvífica de Javé.
Já pela fé cristã, Deus se fez humano e esta encarnação do verbo apresenta-se como homem: Jesus Cristo. Porém, o sexo masculino de Cristo deve ser entendido em seu contexto histórico. O Verbo se fez carne há dois mil anos atrás e em uma sociedade judaica. Dentro deste contexto, a mulher estava em completo segundo plano, sem direitos de participar ativamente de sua religião, submissa totalmente às leis dos homens e condenada a uma vida serviçal.
Se o Verbo tivesse se tornado mulher não teria a menor chance de divulgar a Boa Nova à humanidade. Em sua primeira manifestação seria, com certeza, apedrejada em praça pública. É também por este motivo, que Jesus escolhe apóstolos do sexo masculino para o trabalho de proclamação da mensagem de Deus.
Isso não significa que em seu grupo não havia mulheres. Jesus foi cercado de mulheres apaixonadas por seu carisma e por suas palavras, mulheres que não só o seguiram, mas também o ajudaram em seu empreendimento (Lc 8, 1-3). Além do mais, o Cristo se mostra totalmente aberto às mulheres, inclusive para discutir com elas teologia, o que para um judeu de sua época era um verdadeiro escândalo (Jo 8, 1-11; Lc 10, 38-41; Jo 4, 1-42).
Hoje, não se tem dúvidas de que também mulheres estiveram presentes na última ceia e os primeiros anúncios da Ressurreição de Jesus foram feitos por elas (Jo 20, 1-18; Mc 16, 1-7). As mulheres apenas não tomaram a dianteira na divulgação da “Boa Novaâ€, por ser a sociedade da época extremamente machista.
Apesar deste universo humano dominado pelo sexo masculino, Maria encontra-se no núcleo desta história de salvação e de forma alguma é apresentada como uma mulher submissa. Ela aceita a proposta de Deus e se torna a mãe do Salvador, mas antes de dar o seu “sim†deseja saber como tudo deveria acontecer (Lc 1, 26-38).
Ela proclama a justiça social e praticamente força Jesus a realizar seu primeiro milagre (Lc 1, 46-56; Jo 2, 1-12). No transcorrer dos séculos esta mulher acaba tornando-se parte integrante do cosmo divino, sendo venerada em todos os Continentes.
O universo religioso, porém, deveria refletir em nossas relações humanas. A imagem de Maria e de muitas outras mulheres proclamadas como santas, devem ressaltar a importância da participação da mulher em todas as áreas de nossa sociedade. Mais do que qualquer outra religião, o cristianismo deveria reconhecer o devido lugar da mulher.
Se hoje as mulheres contribuem ativamente, com sua feminilidade, no governo de países, Estados e cidades, nas administrações de empresas, escolas, enfim, em diversas áreas de nossa sociedade, torna-se cada vez mais contraditório a presença de hierarquias religiosas formadas somente de homens ou de comunidades cristãs nas quais as mulheres não possuem a liberdade de seguir uma vocação sacerdotal, são impedidas de desenvolver uma atividade profissional ou estão condenadas a costumes morais arcaicos.
Se as igrejas cristãs querem proclamar Jesus Cristo, necessariamente devem estar a serviço da realização pessoal e da felicidade de todos os seres humanos, independentemente de raça, cor ou sexo. “A verdade é filha do tempo, não da autoridade†(Francis Bacon).