Toda geração que vem depois acha que a sua infância foi melhor que a dos outros. Tem gente que acha até que a vida de criança foi tão boa que ainda hoje faz questão de trazer algum resquício ou um universo inteiro.
Muitos adultos bem resolvidos como pessoas e profissionais não têm a menor vergonha de assumir que vivem hoje num mundo infantil e fazem do lúdico um ingrediente para viver melhor.
O jornalista João Pedro Feza assume seu lado criança aos 31 anos de idade e acredita num passado contínuo. “Acho que fiz 17 anos há três meses e não quero perder issoâ€, justifica.
Como uma pessoa extrovertida acredita que traz desde a infância os traços mais importantes de seu caráter: a honestidade, a sinceridade e o jeito brincalhão e espontâneo de ser e agir. “Com as pressões do ambiente social e de trabalho, a gente vai perdendo um pouco deste perfil.â€
Para Feza, a manutenção destas características se tornam ainda mais fácil por ter um filho de 4 anos com quem brinca, assiste desenhos animados, conta histórias e ainda pode comprar brinquedos. Inclusive aqueles que não teve enquanto era criança de fato. “Isso é uma coisa inerente de todo pai, até mesmo os mais sisudos. Muitas vezes você encontra pais nas lojas de brinquedos tentando convencer os filhos a levar determinado carrinho ou jogoâ€, comenta confessando que recentemente persuadiu o filho Gabriel a levar um Cai-não-cai, que ele nunca teve, para casa.
João Pedro também tem o privilégio de poder passar o início das manhãs com o filho assistindo televisão e já virou ídolo do garoto por saber o que vai acontecer nos episódios dos Super-Amigos, que ele assiste desde 1976. â€œÉ o máximo ouvi-lo perguntar: ‘Como é que você sabe?â€.
No baú de recordações, Feza guarda com carinho alguns truques de mágica e muitas revistas em quadrinhos. Ele tem os primeiros HQs do Batman, do Super Homem e de outros heróis da DC Comics, a grande rival da Marvel. No saudosismo, lembra-se do carrinho de rolemã, dos jogos de bola no campinho e das viagens de trem. Se pudesse voltar a ser criança hoje, tentaria andar de roda gigante para perder o medo que tem destes brinquedos de parque de diversões que giram, sobem e andam nas alturas.
Nos planos de adulto-criança, sua meta é comprar um Ferrorama que não conseguiu ganhar quando era criança. Há dois anos se presenteou com um trenzinho. “Mas não era bem aquele que eu queria...â€
Responsabilidade
Aos 46 anos completados hoje, o professor de ioga e tai-chi-chuan Antônio Fernando de Campos, que aparenta pouco mais da metade da idade que tem, afirma que a idéia de manter-se criança também serve para ter a genética privilegiada em estado de eterna juventude. “Ajuda bem.â€
“Minha vida é um circo. Eu faço graça o tempo todo e acredito que não se pode levar nada tão a sério. Mas é claro que você tem que assumir a responsabilidade pelos seus atos.â€
Entre os hábitos considerados infantis, mas preservados por Fernando estão a leitura de gibis e o tempo reservado aos desenhos animados e filmes. Pelo menos uma vez por semana, ele se dedica a passar horas fazendo só o que gosta. Ultimamente seu hit é o filme “Monstros S.Aâ€.
Para ele o adulto perde a capacidade de gostar de brincar pelo puro prazer. Pela própria profissão zen, Fernando se considera flexível e afirma que nada na vida é imutável. “Nada é infalível ao ponto de você não poder mudar para melhorâ€, reflete.
Sobre o julgamento que as pessoas podem fazer sobre seu espírito jovem, Fernando é taxativo. “Não ligo à mínima para o que as outras pessoas vão achar. Elas têm uma tendência a ser do contra e recriminar. Mas eu sou criança e vou continuar sendo assimâ€, conta, revelando que se relaciona com pessoas que têm o mesmo jeito de ser ou pensam da mesma forma.
Somente se ele pudesse voltar a ser criança de fato, talvez almejasse ser adulto, mas acha que seria pouco provável.
Pollyana
Dentre as características mais marcantes da relações-públicas Cynthia Alvarez, de 29 anos está um misto de espírito criança com o espírito Pollyana de achar que tudo está bem, que vai dar tudo certo, que todas as pessoas são honestas e felizes e o mundo é lindo e colorido. “Isso às vezes é fantástico, às vezes é horrível porque o mundo às vezes nos trai, não é tão colorido assim.â€
A cor é um fator predominante na vida de Cynthia que acredita que o mundo é branco e preto e que cada um dá a ele a tonalidade de sua preferência. Em seu caso o mundo é um arco-íris diário. “Eu busco isso diariamente. Mas, às vezes, choveâ€, lamenta, referindo-se aos problemas.
Mesmo assim, a relações-públicas que dirige o departamento de marketing de um empresa de petróleo imprime com responsabilidade pitadas dessas cores e alegria de viver em tudo o que faz.
“O lado infantil no ambiente de trabalho é só no espírito. Eu sou uma profissional super séria e uma das mais críticas que conheço, mas consigo quebrar a sisudez com a minha sala, com sorriso e transferindo alegria a cada ação coletiva.â€
No ano passado, fez com que a rede de postos distribuísse aos clientes “árvores da felicidade†na entrada da primavera e cataventos no Dia da Criança. “Gosto de envolver as pessoas.â€
As festas de aniversário são outro ponto em sua vida que ninguém passa ileso. Cynthia sempre fez questão de fazer com que os amigos interajam durante a reunião, resgatando o lado solto de ser criança. No ano passado, ela os fez pular amarelinha na entrada e soltar bolinhas de sabão durante toda a festa, podendo levar para casa um cubo mágico ou uma lousa também mágica. Este ano os convidados foram divididos em estações do ano e ganharam colares coloridos de acordo com a personalidade.
Mas nem sempre teve tempo e dinheiro para fazer festas temáticas. Cynthia passou dois anos distintos em Londres, mas durante as duas temporadas comemorou seu aniversário por lá.
“Uma das festas foi num bar que tinha máquina de bichinhos e todo mundo tinha direito a pescar. Mas no outro ano a festa foi no quintal da casa da mulher que me hospedou e somente os muffins (pequenos bolinhos individuais) tinham uma velinha cada um. Não tinha bolo de aniversário, mas tinha um elemento lúdico.â€
Uma das coisas que Cynthia guarda desde a infância e amplia até hoje é uma coleção de mais de mil lápis pretos porém coloridos por fora, catalogados por tipo e que faziam companhia a coleção de papéis de carta que acabaram depois de tantas correspondências.
“Ao longo da minha vida, eu mantenho uma coisa que me dá prazer desde quando era criança. Se pudesse reaver algo da minha infância voltaria a pintar e a dançar balé, mas acho que vou acabar resgatando isso na minha velhice, depois que a fase adulta do trabalho passar.â€