Ser

Minha história

Maura Barros Carvalho
| Tempo de leitura: 3 min

Bauru era uma cidade com 40 mil habitantes, com uma população na maioria de classe média, poucas famílias de posses.

As jovens filhas de advogados, médicos, comerciantes, considerados classe média alta, quando terminavam o curso primário da escola pública, prosseguiam os estudos no único colégio particular, o Instituto Guedes de Azevedo. As jovens de classe média baixa não continuavam os estudos, aprendiam bordados, costuras, para fazer os seus próprios vestidos, e algumas se tornavam profissionais. Outras optavam por um curso de datilografia, para conseguir um emprego nos escritórios das “Estradas Noroeste”, que absorviam centenas de funcionários.

Eu tinha 17 anos. Pensei em preparar-me para o concurso de escriturários da “Noroeste”. Comecei a freqüentar aulas de português com o saudoso “Seu Brito”, excelente conhecedor da língua portuguesa. Matriculei-me também numa escola de datilografia na rua Batista de Carvalho, no período das 19h às 20h, todos dias.

Quando terminava a aula, seguia direto para minha casa, à rua Antônio Alves 11-49. Esse endereço não existe mais, pois desapareceu com a demolicão do prédio para dar prosseguimento à Avenida Rodrigues Alves.

Mas um dia... quando descia as escadas do prédio onde funcionava a escola, os meus olhos se encontraram com dois olhos negros, que me seguiram até o último degrau da escada. Quando terminava o meu horário de aula, novamente os nossos olhos se encontravam...

O atraente jovem de olhos e cabelos negros e bigodinhos à la Clark Gable tinha uma predileção por uma certa máquina datilográfica e eu também comecei a usá-la, por achar que ele havia escolhido a melhor. E assim os dias se passavam, sem nenhuma aproximação.

As jovens da minha geração eram ingênuas; não havia televisão nem revistas para ensinar como “arranjar um marido” e na minha ingenuidade, pensei em bordar um lencinho com o meu nome e esquecer sobre a mesinha onde ficava a máquina de escrever que ele costumava usar.

Resolvi então executar o plano. No dia seguinte, que decepção! Não deu certo, mas o lencinho sumiu...

Depois de dois dias, já desiludida, quanto estava prestes a chegar em minha casa, em frente à Praça Rui Barbosa, lá estava ele. Fez sinal para que eu parasse, e em seguida perguntou-me: “Foi você que esqueceu um lencinho na escola?” E assim continuamos a nos encontrar todos os dias. Ele perdia parte da aula de datilografia e eu chegava mais tarde em casa. Havia um programa na estação de Rádio PRG8, chamado “De você para você”, em que os namorados aproveitavam para homenagear suas namoradas dedicando-lhes uma música. Qual não foi minha surpresa quando o speaker anunciou que ele dedicava uma música a mim, pelo meu aniversário.

Eis a letra:

“Em você tudo é encantamento Em você tudo é deslumbramento Você traduz sonho em luz Anjo divino Qual uma dádiva do céu No meu destino Em você eu encontrei querida A realização do que sonhei na vida...”

E assim se passaram dois anos. Encontrávamos-nos duas vezes por semana, dávamos algumas voltas pelas ruas e, às vezes, sentávamos nos banquinhos embaixo das árvores que existiam no canteiro central da avenida Rodrigues Alves. Quando chovia, ele trazia o seu guarda-chuva, onde a gente se abrigava.

Um dia, como estava chovendo, ele levou-me sob o seu guarda-chuva até o portão da minha casa e minha mãe estava me esperando. Ela convidou-o para entrar. Não era costume um rapaz entrar na casa das namoradas, pois quando ele começasse a freqüentar a casa, já estava comprometido com a família, ou seja, significava uma promessa de casamento.

As moças que tivessem um namoro mais prolongado, com o rapaz freqüentando a sua casa, caso desfizessem o namoro, teriam que “guardar luto”, ficar algum tempo sem namorar ninguém, porque ela corria o risco de ficar “falada” e, nesse caso, dificilmente se casaria; ficaria para “titia”.

Estamos casados há 59 anos e temos quatro filhos, nove netos, três bisnetos, três noras e um genro. Hoje, somos como recém-casados, sozinhos em nosso ninho, pois nossos filhotes bateram as asas e voaram para seus ninhos de amor.

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