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Porre cívico


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O grande problema do Brasil é o “porre cívico”. No dia seguinte à festa eleitoral o povo acorda com dor de cabeça, estômago enjoado, terrível mau humor e parece que nada mais dá certo. Elegemos Lula com 39 milhões de votos e o Enéas Carneiro com 1,5 milhão. De carona carrega mais cinco desconhecidos para o Congresso. Com trinta segundos na televisão essa estranha figura de barba espessa e careca agressiva fez esse estrago. Nem precisou seguir a receita de Jânio Quadros para reunir gente disposta a ouvi-lo. No início da carreira, quando foi candidato a vereador, o homem da vassoura batia latas no Viaduto do Chá e com alguns engolidores de fogo e artistas mambembes contratados a troco de lanche no fim da tarde, reunia cinco mil pessoas para ouvir suas pregações apocalípticas.

Extravagâncias do sistema democrático. O último domingo foi de farra. Muito divertido. Lulinha paz e amor deu certo e saiu do primeiro turno com 39 milhões de votos redondos, quase o dobro dos 19 milhões de votos de Serra. Para ser eleito presidente da República Lula só precisa conservar os votos que tem e conquistar mais três milhões dos 25 milhões atribuídos a Ciro Gomes e Garotinho. Ambos comprometeram-se a apoiá-lo. Serra precisa reter os votos ganhos no primeiro turno e ainda conseguir mais 21 milhões dos 25 atribuídos a Ciro e Garotinho para poder vencer no dia 27. Como diriam os pós-modernistas, Serra terá que “desconstruir” a imagem de Lula a partir do primeiro programa de propaganda que recomeça amanhã. E haja desconstrução.

Em poucas palavras e para ser mais direto: Lula é o novo presidente. Chiii, e agora? A maioria do eleitorado de Lula foi cultivado na perspectiva de uma mudança rápida e generosa. É claro que as mudanças que ocorrerem - e se ocorrerem - serão apenas e tão somente as possíveis. Mas as possíveis e viáveis estarão muito aquém das expectativas geradas ao longo da pregação petista. Este será o grade desafio para Lula e para o PT , nem bem passada a próxima ressaca.

Na London School of Economics, uma das mais prestigiadas e respeitadas escolas de economia do mundo, o seu diretor Anthony Giddens disse que o mundo inteiro está olhando para o Brasil que vive “um potencial desastre”. Giddens, além de amigo de Fernando Henrique Cardoso, para quem não sabe, é o teórico da “terceira via”, em boa hora arquivada. O convidado para a palestra do dia que reuniu 400 jornalistas especializados, professores e estudantes de economia foi George Soros, sempre mencionado pelo antipático qualitativo de megainvestidor. Figura polêmica cujas opiniões provocam iradas reações da direita e da esquerda ao mesmo tempo. Disse que só um milagre poderá evitar que o Brasil faça a reestruturação da sua dívida. Os títulos da dívida externa brasileira remuneram o investidor com juros de 25% ao ano quando o máximo seria de 10%. A conclusão de Soros é que se a reestruturação (leia-se meia-moratória) for inevitável vai ser uma tragédia para o mercado financeiro internacional e para a América Latina, em especial. O México, em franca ascensão econômica, também dança a La Cucaracha. Eis o cenário que aguarda Lula e todos nós no day after. Se não houver uma coalisão política, conscientização das forças produtivas e um esforço dos meios de comunicação para convencer o povo a ter paciência, a enxaqueca vai ser terrível. Os especuladores do dólar também se estrepam porque, sem negócios, não há como ganhar.

Quem sabe na próxima eleição o povo, cansado de tanto esperar por um salvador da pátria, decida eleger o Enéas. Ele me lembra muito o Dr. Strangelove, aquele personagem do filme de Stanley Kubrick que queria soltar logo meia-dúzia de bombas atômicas e explodir o mundo de uma vez. Única forma de começar tudo de novo, com os sobreviventes juntando os cacos. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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