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O exercício do poder imperial


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A nova ordem estratégica do governo George W. Bush, tal como se depreende do documento enviado ao Congresso, intitulado “A estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos da América”, e do agir da diplomacia norte-americana, representa a completa subversão das regras do direito internacional em vigor, isto é, do sistema político-jurídico que as Nações Unidas construíram laboriosamente desde a II Guerra Mundial. Aplica-se aqui em toda sua extensão a expressão corrente da velha sabedoria popular: “Contra a força não há argumentos”. Os Estados Unidos converteram-se, depois da queda do comunismo e sem oposição nem rivais possíveis, na única superpotência militar do mundo. Os acontecimentos de 11 de setembro mostraram, entretanto, sua face vulnerável. A resposta do governo Bush (por certo não a mais inteligente) parece ser esta: “quem pode, manda”. Ou seja, quem tem a força a exerce de acordo com o que considera seus interesses vitais - a expressão é antiga - sem limitações, singularmente de tipo jurídico ou no plano da moral internacional. Daí, a inevitável marginalização das Nações Unidas.

Tinha razão Nelson Mandela, um dos destaques da consciência mundial, ao advertir, na Cúpula Rio+10, em Johannesburgo, com a simplicidade que têm as coisas verdadeiramente sérias: “Se os Estados Unidos atacarem unilateralmente o Iraque, sem prévia autorização do Conselho de Segurança, destruirão os próprios fundamentos da ordem internacional que nos governa”. É evidente que nem todos nos Estados Unidos pensam como o governo Bush. Nota-se, sem dúvida, matizes e sinais de oposição, inclusive entre republicanos. Os Estados Unidos são uma grande democracia pluralista, possuem contrapoderes eficazes que funcionam, e admitem a oposição, que, lamentavelmente, manifestou-se com menos força do que se poderia pensar.

Por outro lado, o resultado das eleições na Alemanha demonstra que a consciência política da velha Europa, ao contrário de alguns de seus dirigentes mais atuantes na mídia, não se deixa convencer com a facilidade com que muitos esperavam. Sindicatos e importantes organizações não-governamentais exteriorizaram seus protestos, que começam a ser considerados em círculos bem informados e lúcidos da opinião norte-americana.

O ataque norte-americano contra o Iraque, “autorizado” ou não pelo Conselho de Segurança, cria complexos problemas de ordem militar, política e geoestratégica que não devem ser ignorados. Não basta derrotar o odioso ditador Saddam Hussein, a quem ninguém de sólida formação democrática pode defender. É preciso saber o que virá em seguida - e os custos em vidas humanas que será pago para derrubá-lo -, sem ignorar a nova divisão do petróleo mundial, as conseqüências de tudo isso para a Opep e o novo mapa geográfico da região que os Estados Unidos tentarão desenhar.

Bush tem pressa de agir, consciente de que o tempo pode jogar contra ele. Parece disposto a abrir, sem medo, a caixa de Pandora. Mas, quem pode dizer, com segurança, em que isso resultará? Algo bom para o progresso da humanidade, com certeza, não! (O autor, Mário Soares foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996)

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