Articulistas

O retrato das burcas


| Tempo de leitura: 2 min

Há um ano, os sofrimentos e a exclusão das mulheres afegãs provocaram um forte protesto internacional. Para o mundo, a situação das mulheres do Afeganistão converteu-se em um barômetro de paz e segurança. Durante quase sete anos, elas foram afastadas completamente da vida social, econômica e política de seu país. Desde 1996, as meninas afegãs eram proibidas de freqüentar a escola depois dos 8 anos. As mulheres não podiam aparecer em público, a menos que estivessem acompanhadas de um homem de sua família. Eram proibidas de trabalhar e, praticamente, todos seus direitos eram violados.

Atualmente, apenas 3% das mulheres sabem ler e escrever. A taxa de mortalidade durante o parto é de 1.600 em cada 100 mil, ou seja, 160 vezes maior do que a das mulheres dos países industrializados. A maioria das mulheres afegãs não tem acesso à água potável, energia ou saneamento. E, apenas em Cabul, estima-se que 50 mil mulheres são viúvas e chefes de família. Em 65% das mulheres estudadas pela organização Médicos pelos Direitos Humanos foram encontradas tendências suicidas e 16% haviam efetivamente tentado o suicídio.

Existem quatro prioridades para apoiar a presença das mulheres na reconstrução do Afeganistão. A primeira é a segurança. As mulheres afegãs ainda não tiraram suas burcas, esses capuzes que lhes escondem o rosto e as cobrem dos pés à cabeça. E isso acontece, inclusive, em Cabul, por não se sentirem seguras. Os crimes, assassinatos, saques e seqüestros continuam ameaçando a sobrevivência das mulheres. E o silêncio prevalece quando se trata da violência contra as mulheres no lar.

Promover a Justiça tanto para um quanto para outro sexo é, portanto, a segunda prioridade. Englobar a igualdade dos sexos nos contextos constitucional, legislativo, judicial e político do Afeganistão é um ponto de partida fundamental. Na prática, isso significa que as violações dos direitos das mulheres devem ser detectadas, informadas e sanadas. A terceira prioridade é o exercício do poder. É fundamental que na direção do processo de reconstrução do país participem tanto homens quanto mulheres. Deixar 60% da população sem representação, não significa apenas violar os princípios de exercício do poder, democracia e responsabilidade, mas, também, negar ao Afeganistão um de seus mais importantes recursos.

A quarta prioridade é melhorar a segurança econômica das mulheres. A pobreza no Afeganistão, bem como em todo o mundo, sofreu uma feminização. Erradicá-la não será possível sem recapacitar as mulheres como professoras e provedoras de cuidados sanitários, bem como envolvê-las completamente em programas de reconstrução. Isso só pode ser feito incrementando-se o acesso das mulheres aos serviços básicos.

A situação das mulheres continuará sendo o indicador da paz e da segurança nesse país. O progresso das mulheres significará progresso para todos. (A autora, Noeleen Heyzer é diretora-executiva do Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento das Mulheres - Unifem)

Comentários

Comentários