Ser

Triplo crescimento

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 8 min

Um gigante de 19 anos. O armador do Bauru Basquete, Leandro Mateus Barbosa, começou cedo. Aos 5 anos já era ala no Continental, na Capital, onde fez as primeiras cestas incentivado pelo irmão mais velho, Artur que também era jogador. Antes de vir para Bauru nos play-offs do Campeonato Paulista de 2000, descoberto pela equipe técnica do então Tilibra-Copimax, o jogador ganhou as quadras do Palmeiras, Monte Líbano, Espéria e Corinthians.

Mas foi com o grupo de Bauru e os conselhos do técnico Guerrinha, de quem não esconde a admiração, que esse menino franzino e ligeiro cresceu.

Em dois anos, ele passou de 1,86m para 1,92m, foi eleito o melhor armador da temporada paulista e o jogador revelação do Campeonato Brasileiro do qual foi campeão. Foi para a Seleção Brasileira e disputou um pré-mundial na Turquia e o mundial dos Estados Unidos.

Hoje, Leandrinho está no Chile com a equipe de Bauru representando o Brasil no Campeonato Sul-Americano, mais uma conquista em sua carreira de 14 anos.

Em meio aos treinos, jogos e títulos, o garoto de família humilde se torna um homem responsável, e apaixonado pela vida e pelo que faz, mesmo tendo a cada dia um adversário diferente, seja na quadra ou fora dela.

Jornal da Cidade – Ser campeão brasileiro mudou muito a sua vida? Leandro Mateus Barbosa (Leandrinho) – Mudou. Eu tive um título na minha vida de todo o tempo que eu comecei a jogar, há 14 anos e fui para a Seleção Brasileira, que era um sonho meu.

JC – Quando você descobriu que foi a revelação da temporada paulista e brasileira, o que passou pela sua cabeça? Leandrinho – Eu fiquei muito feliz. O que passou pela minha cabeça foi que o que eu estava fazendo estava dando certo. Tudo o que eu fiz quando era pequenininho deu certo e foi reconhecido. Não tinha como não ficar feliz.

JC – O menino Leandrinho mudou com essa responsabilidade? Leandrinho – A responsabilidade aumenta mesmo. O que mudou foi justamente isso. Eu cresci e ganhei mais responsabilidade. Só.

JC – De quantos centímetros foi esse crescimento? Leandrinho – Eu tinha 1,86m e agora estou com 1,92m. Mas já está bom. Eu era pequeno. O pé também passou de 44 para 45.

JC – Mesmo podendo ser ala, você vai continuar sendo armador ou tem pretensões de crescer mais e chegar a pivô? Leandrinho – Acho que não, mesmo podendo chegar a 1,95m, não vou mudar de posição. Vou ficar como armador, que é uma posição em que me dou bem e gosto muito. Gostava de lateral também, mas agora não mais. Nas minhas últimas tentativas não me dei muito bem. Sou armador, gosto de colocar o time para jogar e dar volume ao jogo.

JC – A sua convocação para a seleção foi um tanto polêmica. Teve aquela declaração do Lula Ferreira (auxiliar técnico) dizendo que o grupo não era lugar de aprendizado e você ainda era muito novo para ir a um mundial. Como você recebeu essa notícia? Leandrinho – Eu fingi que não tinha existido essa notícia, porque o Lula foi o cara que me lançou, aí ele vai e fala um negócio desse. Eu fingi que nada tinha acontecido, que ninguém tinha falado nada.

JC – Do fundo, do fundo do coração? Leandrinho – Do fundo do coração mesmo. Foi ele quem começou a dar oportunidades para eu jogar no adulto do Palmeiras. Ele me lançou. Mas acho que o Lula mudou muito depois que saiu do Palmeiras e foi para o COC de Ribeirão Preto. Os jogadores falam que ele mudou demais como pessoa, na amizade e como técnico também. Acho que isso aí deve estar fazendo parte do que ele falou, mas tudo bem. O importante foi que eu fui.

JC – Como você recebeu a convocação? Leandrinho – Eu chorei muito. Estava em férias na casa da minha mãe. Foi ela quem atendeu o telefone. O pessoal falou que eu tinha sido convocado e tinha que me apresentar em tal dia tal lugar. Eu não sabia onde por alegria. Todos nós choramos muito.

JC – E qual a sensação de estar na seleção? Ir à Turquia, aos EUA e pisar numa quadra representando o seu País entre os melhores do mundo? Leandrinho – Eu não fiquei muito ansioso. Queria jogar e mostrar o que eu sabia. Mas ele (o técnico Hélio Rubens) não me deu muita oportunidade para fazer o que eu queria fazer. Mas eu não estou bravo, nem triste pela falta de oportunidade. Mesmo do banco, eu vi e aprendi muita coisa que aqui no Brasil não tem e não iria aprender. Eu estou muito feliz, meu. Só o fato de ter ido é uma vitória.

JC – Voltando para Bauru, você ficou longe em toda a crise do time e agora está de volta às quadras. Quais seus planos para um futuro próximo? Leandrinho – Tenho um contrato até julho de 2003 e vou cumpri-lo da melhor maneira. O primeiro plano é esse. Depois, a gente vê o que acontece. É melhor esperar o tempo certo chegar. A primeira etapa agora é disputar os sul-americano, que é o segundo da minha carreira e isso me deixa bem tranqüilo por saber como os caras jogam. É partir para cima dos caras. Embora a gente não tenha tempo para treinar por causa da tabela apertada do Paulista, que aliás está sendo muito bom. A gente ganhou confiança e está provando o contrário para quem não acreditava no nosso time. A gente está com muita vontade e confiante, era isso que faltava.

JC – Com a falta de tempo você deve estar morrendo de saudades da sua mãe, a dona Ivete que anda sumida da platéia bauruense? Leandrinho – Nem me fala. O meu pai está com câncer e agora está piorando, ela tem que cuidar dele. Tem o meu irmão que operou o tendão e ela está cuidando dele também. Eu fico aqui só no telefone. Mas eu tenho o Marcelo (irmão mais velho que mora com ele), que é meu pai, mãe, irmão e melhor amigo.

JC – E o coração? Leandrinho – Não estou namorando. Arrumei uma namorada mas já acabei com o romance. Encheu o saco. Eu sou novo ainda. A gente tem pouco tempo na vida e tem que aproveitar. Mil coisas podem acontecer no dia de amanhã e eu não sei quais são. Então tenho que curtir. Fiquei triste no começo, mas agora estou feliz e tranqüilo.

JC – Tranqüilidade é o que lhe define, não é? Leandrinho – Eu sou um cara sossegado, sabe... Bem sossegado. Antes, quando eu cheguei aqui era sossegado, mas também não era. Mas agora sou bem tranqüilo.

JC – O que você faz para ter essa paz? Continua ouvindo rap? Leandrinho – Eu estou tão sossegado que agora estou curtindo mais um pagode. Eu rezo muito. Peço muita coisa: para ninguém se machucar, para todo mundo jogar bem. E agradeço tudo todos os dias. Peço ainda proteção para a minha família, proteção para mim, para o meu irmão, e todas as pessoas ao meu redor.

JC – O tempo livre existe para você? Leandrinho – Difícil, muito difícil. Quando tenho folga eu durmo, assisto um filme, fico em casa, saio às vezes para almoçar com meu irmão, de vez em quando tomo um açaí, um suquinho...

JC – Você bebe? Usa droga ou já teve vontade de experimentar? Leandrinho – Não, também não e nunca tive curiosidade.

JC – Mas rola droga no basquete? Leandrinho – Rola, rola. Não só aqui no Brasil, mas principalmente nos Estados Unidos. Nossa senhora, como rola. Já me ofereceram bastante, principalmente em São Paulo onde morava. Mas nunca me deu vontade. Sou geração saúde, saúde, saúde. Para não falar que não bebo, no fim do ano tomo na praia uma bebida chamada “Tesão” feita com champanhe, leite condensado e pêssego e um vinho de vez em quando porque faz bem ao coração. E nada mais.

JC – Você furou outra orelha? Vai fazer uma tatuagem? Leandrinho – Eu fiquei com vontade e furei. Agora tatuagem não. O que é isso? Fica feio demais. Pra mim é. Deus deu o nosso corpo assim limpo, sem nada. Para que eu vou marcá-lo? Os furos na orelha também acabaram, tá? Chega.

JC – Seus sonhos mudaram nos últimos tempos? Leandrinho – Mudaram. Mudaram porque tudo o que tenho foi conseguido com meu trabalho. Comprei um carro, já deixei para o meu irmão e tenho outro. Pago as contas de casa em Bauru, ajudo em São Paulo, pago o tratamento do meu pai e a faculdade do meu irmão. É o Marcelo quem administra tudo e guarda uma boa parte longe, como garantia.

JC – Como você se sente tendo esse privilégio de aos 19 anos poder dar essa infra-estrutura para sua família num País onde muitos da sua idade têm uma realidade bem adversa? Leandrinho – Eu encaro essa situação assim: nunca dinheiro vai me subir à cabeça por mais que eu ganhe muito, muito. Não vou sair me exibindo, torrando ou usando droga. O que eu estou fazendo, mostrando para mim e para o povo de Bauru é fruto do meu trabalho, que vem desde quando era pequenininho. Foi indo, indo e deu no que deu. É uma coisa que está vindo e está pagando tudo o que tenho e posso oferecer. Graças a Deus, eu recebi o dom de ganhar um dinheiro legal, de uma maneira mais legal, para poder viver bem.

JC – Você vai jogar basquete até morrer? Leandrinho – Até morrer. Eu não penso outra coisa na minha vida a não ser jogar basquete. Eu me cuido para isso.

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