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Quem tem medo de Regina Duarte?


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Tenho medo de quem tem medo de gente.

Tenho medo de quem confunde inteligência com título universitário; saber com conhecimento.

Tenho medo de quem tem medo da alternância de poder porque esse medo revela outro, mais assustador, que é o medo mais profundo da verdadeira democracia.

Tenho medo de quem tem medo daqueles que conseguem sobreviver à fome e às endemias, galgam degraus movidos pelo próprio esforço e - por que não? – bafejados por um pouco de sorte hoje podem colocar a cabeça para fora e se fazerem ouvir.

Tenho medo de quem tem medo de Fidel Castro e desconfia sempre que possa existir um comunista sob a própria cama.

Tenho medo de quem tem medo dos resultados de eleições realizadas sob o poder do voto livre e soberano.

Tenho medo dos que não respeitam o direito de opinião, a liberdade de pensamento e de expressão.

Tenho medo dos 50 milhões de brasileiros pobres e dos mais de 20 milhões que vivem abaixo da linha da miséria e que as cercas eletrificadas um dia não vão conter .

Tenho medo – ah! tenho medo – dos milhões de desempregados; daqueles excluídos que à noitinha batem à minha importa pedindo por um prato de comida e me chateiam.

Tenho medo dos políticos e das políticas nas quais “o povo é tomado como um mito a nível lírico e emotivo”, como dizia Bobbio ao conceituar “populismo”.

Tenho medo dos salvadores da Pátria que consideram o povo matéria indiferenciada, nebulosa, difusa, informe e superior à sociedade organizada.

Tenho medo dos que não têm medo de “poder paralelo” e nada fazem para melhorar as condições de vida nos morros e nas periferias. Desses que pouco se importam em oferecer uma oportunidade aos jovens antes que caiam na delinqüência para fugir da miséria.

Tenho medo de quem tem medo de garantir a negros, índios, pobres e minorias étnicas acesso à Universidade como forma de alavanca social enquanto o preceito civilizatório – “todos são iguais perante a lei” – for apenas uma frase morta na Constituição.

Tenho medo dos que repelem as mudanças, duvidam das possibilidades de transformação para melhor e só querem mudar desde que tudo continue como está.

Tenho medo dos que ofendem no primeiro turno e buscam conciliação na segundo, empenhados em conquistar fatias do poder a qualquer preço.

Tenho medo dos jurássicos banidos pelo povo que tentam ressurgir na saia de novos governos.

Tenho medo dos que se afastam da carta de princípios sustentada ao longo de anos com inexcedível vigor e vibração.

Tenho medo de partidos invertebrados a ponto de aceitar no mesmo palanque marxistas ateus, fundamentalistas bíblicos, de ultraliberais a intervencionistas, de estatizantes a privatizantes, de defensores do Estado mínimo a defensores do Estado máximo, porque esse palanque há de cair sob o peso de tanta hipocrisia.

Não tenho medo de Regina Duarte! (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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