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Pancada é a solução?

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 6 min

Ignorância, falta de instrução ou educação, reflexo da vida em família ou em sociedade. Qual seria o verdadeiro motivo de tanta gente partir para resolver uma situação na pancada?

Dentre os jovens, as brigas acontecem com uma freqüência quase diária, seja na periferia ou nos bairros de classe alta da cidade.

â€œÉ comum presenciarmos brigas. Quase todo dia tem briga, na maioria das festas têm briga”, afirma o estudante Theo de Miranda, 18 anos, que justifica os duelos entre amigos e conhecidos como “uma atitude impensada”.

“Ter tamanho é fator para partir para a porrada. Hoje em dia tem muito cara que faz academia e quer ficar fortão para se aparecer e resolver tudo na porrada”, acrescenta o estudante Flávio Coube, de 18 anos.

“Eu já briguei. Estava conversando e o cara veio para cima. Eu reagi para não levar”, confessa o colega Rodrigo Mantovani, de 17 anos.

Segundo os adolescentes, os motivos das brigas com violência são os mais banais: mulher, ciúme, inveja, bebida e até armas e drogas.

“Os motivos são bobos. Se um cara ficou com uma menina uma vez, ele pensa que tem o poder sobre ela. A garota não pode ficar com mais ninguém. Se ele é forte, vai ameaçar e vai trazer a turma junto”, argumenta Theo.

Os rapazes acreditam no crescimento do número de brigas justificando que “todo mundo quer medir forças”. Nesse sentido, rola mais de uma briga em cada festa.

“Hoje em dia não tem conversa. Tem gente que usa a briga para aparecer”, revela André Araújo, de 19 anos.

“As meninas também brigam, mas falam mais. Brigam verbalmente. É difícil chegarem às vias de fato, brigam por causa de meninos e de alguma citação que não agradou”, comenta Flávio.

Depois de uma briga, as desculpas não ocorrem O clima de tensão continua. E quando uma das partes bebe é briga na certa novamente.

“Às vezes o cara nem quer brigar, mas a turma fica insuflando. A briga já é uma coisa coletiva. Não é iniciativa nem de quem bate, nem de quem apanha”, diz Theo.

Inconformados com a situação, os rapazes afirmam que a tendência é de que as resoluções no tapa continuem. Revelam incrédulos que 90% das pessoas com quem convivem já brigaram e eles mesmos admitem viver num meio privilegiado. “Isso nos surpreende.”

O psicológo e coronel aposentado Sílvio Turini afirma que a violência está se superando em todas as camadas da sociedade.

“A violência está muito grande e difícil de controlar. Há alguns anos a gente não via a violência que se vê hoje.”

Ele cita a tentativa de regularizar em forma de lei o fechamento dos bares na periferia durante a madrugada, exatamente para coibir o foco de brigas. Pois a droga e o álcool são os dois fatores que mais estimulam discussões que acabam até em mortes. São fatores que até justificam comportamentos indevidos, mas que não são compreensíveis, até mesmo porque indivíduos hoje andam munidos com armas mais poderosas e agindo de maneira cada vez mais cruel.

Reação

“Já resolvi casos na porrada. Nem lembro o motivo, mas fui revidar e acabei com o nariz sangrando. Eu brigo todo dia na academia e me fez parar de brigar fora de lá. Eu não sou de brigar e até resisto a uma provocação. Mas quando o cara parte para cima, não me responsabilizo. É uma questão de defesa própria”, desabafa o estudante conhecido como Fuinha, de 16 anos.

Ele também admite que hoje se briga por qualquer coisa. “Tenho amigos que conhecem caras que saem para brigar. Brigam para ter fama. É uma relação de domínio.”

O rapaz assume que a inveja é o elemento maior da discórdia.

O psiquiatra João Maurício Bolzan explica que quem resolve os problemas na pancada são pessoas que, na sua composição psíquica, possuem como elemento final um equilíbrio instável, o que caracteriza momentos de equilíbrio por determinado tempo, mas que não se sustentam.

“De quando em quando, se acumulam determinadas energias perdidas na mente das pessoas e elas têm a necessidade de ter uma descarga, é por isso que se torna instável”.

Depois dessa descarga, ele revela que segue-se um período de equilíbrio novamente.

Bolzan afirma que esse comportamento é comum de acontecer, mas apenas os casos mais raros é que nos chamam a atenção.

Uma briga violenta ou uma reação brusca nada mais é do que uma carga de energia fica solta dentro do psiquismo do indivíduo. A pessoa tem a necessidade de colocar isso para fora, por não saber o que fazer.

“Geralmente ela aproveita uma condição externa muito pequena, para engrandecer através de mecanismos sofisticados e achar que aquilo é muito maior que a realidade, para justificar aquela carga, no caso a pancada. Quando não, ela cria uma situação, para extravasar. Quando tem a situação extrapola.”

A situação é paradoxal, define Bolzan, pois o indivíduo que age desta maneira é rico em energia mental mal aproveitada. Se essa energia estivesse nos devidos lugares, seu portador seria uma pessoa muito criativa nas artes, nas ciências, no trabalho, nos esportes. “Se isso tivesse controle, ele seria uma pessoa muito produtiva. Como está mal administrada, fica solta.”

Ele compara o indivíduo com desequilíbrio instável a um rio com vale profundo, que quando chove recebe aquela descarga e prejudica toda a população ribeirinha, leva as plantações, inunda tudo. A mente controlada seria um rio com uma barragem capaz de controlar seu reservatório de emoções.

O psiquiatra aponta que o impulso é tamanho que não da para segurar. Somente se o indivíduo tentar se controlar “no começo, do começo, do começo” é capaz de conter a violência.

A cura só pode ser feita com tratamento e com o desejo de mudança de comportamento, pois existem dois grupos distintos: o do indivíduo que tem o sintoma, faz e não aprova o que faz e os indivíduos que aprovam o que fazem. O tratamento geralmente é possível e apresenta resultados em pacientes que reprovam sua conduta e a primeira medida a tomar é manter-se longe de possíveis confusões.

--------- Marca registrada

“Não é que tenha que ser resolvido na porrada. Isso só acontece quando não se tem outra alternativa. Tem pessoas até que acham que dá status brigar com o Sapé, ser vítima do Sapé. Gente que vem disposta a apanhar para conseguir publicidade. Depois fica por isso mesmo. Eu sou um secretário municipal e o ônus é todo meu.

Quando garoto, li no “Arquipélago de Gulag”, do A. Soljenitzyn, que quem tem a violência como meta tem como princípio a falsidade. Tenho isso como lei na minha vida. Mas muitas vezes pessoas que não têm argumento incitam você a usar de violência. Tem muita gente que agride verbalmente, o que acho um ato de covardia. Sou radicalmente contra a violência. Nunca bebi, nunca usei droga, nunca mexi com ninguém. Quero que apareça uma pessoa que desrespeitei. Mas eu tenho poder de reação e na reação, para mim, vale tudo. Estou sempre sóbrio e não admito ser desrespeitado.” (José Roberto Franco, o Sapé, secretário municipal de Esportes, famoso por distribuir sopapos. Entretanto, quem o conhece bem chega a afirmar que ele não é nada agressivo.)

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