Médico psiquiatra, psicodramista, autor de 12 livros com mais de meio milhão de exemplares vendidos, Içami Tiba é um dos maiores conhecedores dos conflitos familiares e há 32 anos atua no campo da adolescência. Procurado pelo JC para falar sobre o caso von Richthofen, ele diz que o acontecido naquela família pode se repetir nos lares nos quais os pais não prepararam os filhos para o mundo e os criam em “gaiolas de ouroâ€.
Para ele, quatro ingredientes levaram a estudante Suzane von Richthofen a pensar na morte dos pais: a falta de educação, más companhias, droga e paixão. Tiba diz que a filha do casal assassinado não tem qualquer traço psicótico. Fez birra e ainda não se conscientizou da barbárie que cometeu.
JC - O que o senhor quer dizer com criar os filhos em “gaiola de ouro�
Içami Tiba - Há uma diferença muito grande entre ser criado e ser educado. Quem vive em gaiola de ouro, em geral, não é educado, é criado. Está protegido de uma série de coisas. Os pais pensam pelos filhos e determinam o que eles têm que fazer. O filho passa a não ter auto-estima de realização. Não se responsabiliza por ele mesmo, porque outras pessoas se responsabilizam por ele.
JC - O caso da estudante Suzane pode ser comparado a qual filme?
Tiba - Ela tem o perfil do famoso filme de Walt Disney - a Dama e o Vagabundo. Enquanto Dama, ela foi criada e agradada em tudo o que ela queria e os desejos eram muito facilmente atendidos pelos pais. O que os pais exigiam não era grande absurdo e ela não criou auto-estima.
JC - Os filhos têm que ser preparados para o mundo?
Tiba - Na educação os pais têm que ter o cuidado para que a criança não seja eternamente protegida. Os pais criadores são pais provedores e protetores. Amam muito, mas são mais provedores e protetores do que educadores. A criança vai crescendo e na primeira oportunidade que ela tiver vai querer fazer coisas que não encaixam na vida de Dam (referindo-se ao filme).
JC - O que leva uma jovem universitária ser seduzida pela maconha?
Tiba - Todo jovem tem vontade de experimentar a maconha, mas só permanecem nela quem tem uma auto-estima baixa. Essa pessoa se deixa seduzir pelo prazer imediato, pela sensação de liberdade. A auto-estima baixa favorece o uso da maconha.
JC - O uso da droga é que favoreceu o envolvimento de Suzane com más companhias?
Tiba - O uso da maconha favoreceu o conhecimento das pessoas que também usam a droga. A maconha abriu o mundo de Suzane para pessoas do bem e do mal. No filme a Dama e o Vagabundo, a Dama encontra com um cachorro do bem, mas podia ser cachorro do mal. Na vida real, a maconha nivela as pessoas, todas as pessoas, não importa se é negro, amarelo, branco, católico, judeu; todo mundo fica igual. Ela pode ter tido a sensação que pertencia a um grupo, que era amada e isso mexe com a auto-estima.
JC - Porque Suzane continuou com as más companhias?
Tiba - O uso da maconha favoreceu o contato com pessoas que são más companhias. Para ela gostar das más companhias, provavelmente deveria estar considerando como muito boas companhias.
JC - O que a maconha faz com o jovem?
Tiba - A maconha despersonaliza a pessoa, faz com que ela se torna mais transgressora. Isso tudo provoca a deterioração das relações com a sua família. A maconha faz muito mal mesmo. Não tem essa de aceitar maconha, de que é menos mal do que álcool, que o cigarro. Isso é conversa de usuários de drogas.
JC - O que o senhor quer dizer quando fala que Suzane teve um ataque de birra?
Tiba - Significa o seguinte: que naquela manhã ela ganhou quatro brinquedos, mas ela viu o quinto. Se ela não ganhasse o quinto, iria morrer. Então fez um escândalo até a mãe comprar. Na birra, a criança fica cruel; ela quer porque quer e nega todos os quatro brinquedos anteriores que já ganhou. O que aconteceu com Suzane é que ela queria brincar de ser casada com Daniel. Ele virou o brinquedo proibido pelos pais e pretendido por ela.
JC - Essa birra se agravou porque?
Tiba - A birra foi complicada pelas más companhias e pelo uso de drogas aliadas a uma auto-estima baixa. Uma criança com birra quer matar a mãe. Hoje crianças que fazem birra não ficam chutando o chão, chutam a canela da mãe, agridem a mãe.
JC - Quando isso acontece, os pais devem ceder às vontades dos filhos?
Tiba - A criança enche tanto que a mãe não agüenta mais e dá o brinquedo. Então não adiantou nada ficar proibindo tanto, porque a criança se vê autorizada a fazer aquilo. No dia seguinte, em geral, a criança nunca se arrepende da birra que fez. Na cabeça dela, ela fez porque o outro mereceu.
JC - A frieza afetiva da filha em relação aos pais vem da droga?
Tiba - A crueldade vem da frieza afetiva provocada pela droga. A estratégia é inerente da inteligência de gente grande e o crime é fruto das más companhias. Provavelmente, Suzane se colocava como uma Julieta. Mas o Daniel não foi um Romeu, porque não a protegeu.
JC - A morte dos pais foi planejada?
Tiba - Quando ela falou ou pensou em matar os pais, virou um projeto, uma estratégia de ação. Ela arquitetou todo o esquema de como ganhar o brinquedo que os pais não quiseram lhe dar, enquanto que para Daniel e seu irmão Cristian o interesse era roubar. Tanto que Cristian comprou uma moto com os dólares.
JC - O senhor acha que Suzane nasceu com uma índole criminosa?
Tiba - Ela não tem índole criminosa. Esse é o meu grande debate. Tem pessoas que acham que já nascem manchadas. Não nascem. A má educação é capaz de fazer isso e as primeiras vítimas são os próprios pais e aí está a prova. Ela é absolutamente normal, não tem núcleo psicótico.
JC - O senhor acha que os pais de Suzane estavam certos em proibir o namoro dela com Daniel?
Tiba - A mãe e o pai tinham mais do que razão de proibir, tanto que estão mortos hoje. Eles deveriam ter feito uma aliança com a outra família. Poderiam ter ido até a casa do namorado e ter falado com os pais dele ou quem quer que fosse. Deveriam ter conhecido o casal e falado sobre as diferenças entre os filhos deles. Poderiam ter dito que não concordavam com o namoro e que esperavam que os pais dele também não permitissem que Suzane entrasse na casa deles.
JC - Como devem agir os pais que enfrentam problemas semelhantes?
Tiba - Primeiro eles tem que analisar o porquê daquele namorado não ser adequado para sua filha. É preciso verificar se não há um preconceito embutido nessa idéia. Se é porque ele é mais pobre do que ela, se porque é negro e ela branca, etc. Quando os pais percebem que o namorado é má companhia, devem proibir e agir, como já citei.
JC - Como o senhor classifica o pai de Daniel e Cristian?
Tiba - É um grande delinqüente. É preciso observar até que ponto ele não estava sabendo de todo o plano. Como um pai deixa um filho que não estuda e não trabalha entrar em casa com roupa nova, com moto? Para mim ele é conivente com o crime. Se o pai não deu dinheiro, onde o filho arrumou esse dinheiro?
JC - Que paixão é essa que leva as pessoas a perderem a razão?
Tiba - É a força dos hormônios. É o famoso amor e uma cabana, ou seja, quem tem força para viver de amor e de cabana, nada mais interessa. Não interessa a vida dos pais, nem o que vai acontecer. Só interessa que os dois vão ficar juntos.
JC - O que faz com que as pessoas não pensem em matar?
Tiba - Todos nós somos capazes de matar, dentro da normalidade. Lógico que quem tem ética, não faz. Mas o poder de matar qualquer um tem. O que segura é a ética, é a segurança interna, o respeito pelo outro... Tudo isso que a educação de gaiolas de ouro não tem.
JC - O que tem que ser incluído na educação da criança para evitar a má educação?
Tiba - Na educação tem que incluir a saúde psíquica individual. Valores, disciplina, gratidão, religiosidade , ética e cidadania. Isso tem que estar tudo dentro da casa. A educação na gaiola de ouro não prepara o filho para um mundo perigoso, que está cheio de predadores, coloca o filho num carro blindado, numa escola superprotegida. O que ele não sabe é que o maior predador pode ser o próprio filho. Por isso, os pais são as primeiras vítimas dos filhos mal educados.
JC - O senhor acha que Suzane também foi enganada por Daniel?
Tiba - Acho que sim. Ela deve ter pensado que o Daniel fez essas coisas para agradar a Suzane, mas não. Daniel fez isso para um roubo comum. Na cabeça dela tinha o romantismo. Ela foi a Julieta e ele não foi o Romeu. A mulher é facilmente envolvida.
JC - O senhor acha que o choro de Suzane era de arrependimento?
Tiba - Era fingimento, estratégia de ação. Eu acho que ela continua fingindo. As vezes leva três a quatro meses para a pessoa cair numa depressão. Ela vai ter uma depressão muito forte quando perceber a barbárie que fez.
JC - O senhor acha que ela ainda não tem noção do que fez?
Tiba - Ela tem essa noção da barbaridade, mas na cabeça dela ela continua pensando que tudo vai acabar bem, que vai ficar com o dinheiro e vai viver bem com o Daniel. Ainda não caiu a ficha dela.
JC - Pelo perfil dela, o senhor acha que ela pode cometer outros crimes?
Tiba - Não. A fúria dela foi contra os pais. Com o irmão não porque ela o domina.
JC - Qual o estado psicológico do irmão de Suzane, Andreas, que viu os pais mortos e a irmã presa?
Tiba - Ele está na fase dos 15 anos. Ele me lembra do filho da Lady Di, quando ela morreu. Meio perdidão. Sem saber o que está acontecendo. Parece que ele não está entendendo. Ele está numa situação muito delicada.
JC - Qual o sentimento dele em relação à irmã?
Tiba - Em relação à irmã ele tem dois sentimentos: admiração porque ela era líder dele, modelo para ele. E raiva misturada com ódio por ela ter matado os pais dele. Admiração e ódio numa fase em que a personalidade está se desenvolvendo pode complicar a vida no futuro. Eu acho que ele será socorrido a tempo, com uma terapia.
JC - Em que tipo de família esse tipo de crime pode ocorrer?
Tiba - Só acontece na família que protege, que dá tudo para o filho; na família que acredita que só o filho não mente e que ele tem sempre razão; na família que compra briga do filho e diz que o vizinho, o professor e todos estão errados, só ele está certo. Essa é a família de risco.
JC - Que família está livre desse pesadelo?
Tiba - A família bem integrada, saudável, que os pais sabem onde os filhos estão. Os filhos se vão a um lugar e mudam para outro, mas avisam a família. Pessoas que sabem que a menor sociedade do mundo é a própria família e que ele pertence a ela e não quer ela sofra.
JC - Quem ama, educa?
Tiba - O meu livro que tem esse título é um best-seller. Os pais precisam colocar na personalidade da criança ingredientes importantes como os valores sociais, ética, cidadania, gratidão, religiosidade e disciplina.
JC - E os limites?
Tiba - Limites fazem parte da disciplina. O valor é disciplina, limite é a medida. Eu acho que quando se fala em disciplina sabe-se o que é o limite. Quando se fala em limite, pode ficar muito vago. Limite é uma qualificação. Disciplina não é um ranço do autoritarismo. Nesse livro ensino como o limite é saudável.