Ser

Gente de passagem

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 6 min

A poesia de Arnaldo Antunes, que foi cantada por Marisa Monte em seu segundo disco serve de trilha para milhares de brasileiros que vivem como nômades, mas com destino e calendário de mudança bem marcados pela temporada de exposições agropecuárias, que se inicia em março e só termina na primeira quinzena de dezembro.

O produtor musical Auro de Oliveira Carvalho já passou 25 dos seus 40 anos entre recintos e parques de todo o Brasil. Ele nasceu em Januária, Minas Gerais, mas aos cinco anos foi morar em Brasília e destes 35 anos de endereço brasiliense, não chega a dez anos o período em que ficou realmente por lá. Nos últimos 15 dias ele esteve em Bauru, vindo de Nova Andradina (MS), organizando os shows da Grand Expo, mas seu próximo destino é Catanduva, depois Ubatuba, depois...

“Sou um andarilho”, define e empresário que começou ainda adolescente a trabalhar com a noite e o showbussiness, que segundo ele é um vício: “uma cachaça”, que o embriaga ao ponto de buscar ir a um show até nos raros dias de folga, para ficar em dia com as inovações tecnológicas.

Dos 365 dias do ano tem folga apenas nos dias 24 e 25 de dezembro, quando não faz o projeto Natal Esperança, que em parceria com uma grande rede de supermercados arrecada alimentos para as pessoas carentes de Goiânia. “Quando isso acontece passo o Natal fora de casa também e já emendo com os shows de reveillon que começam no dia 26, depois vem a temporada de verão, o Carnaval do Nordeste e em março começam as feiras.”

Neste ritmo, a vida pessoal de Auro foi embora. Ele vê a família no máximo dois ou três dias ao mês com a família: pai, mãe, esposa e uma filha de 7 anos, que liga todos os dias e o deixa louco por não estar presente às suas descobertas.

“É muito complicado mesmo, sinto muita falta da minha familial, mas vou fazer o quê? Eu vivo disso. E isso é um vício. Há dois anos passamos um período de crise em que não se conseguia fazer show e fiquei quase dois meses dentro de casa. Fiquei maluco, numa inquietação total.”

Carvalho conta que sua vida está baseada em hotéis com uma mala de roupas que dura 30 dias, cuja repetição de camisas o entedia e uma escova de dentes que se renova a cada viagem. Ainda no rol de manias, o produtor que dorme em média três horas por noite, só consegue adormecer com a tevê ligada e não passa das 6h da manhã. “Se deito 5h45, durmo apenas 15 minutos e acordo às 6h.”

Mas a maior dificuldade encontrada na sua vida cigana é conseguir se fixar, fazer amizades ou ter referências. “Você passa a não ter nenhuma referência. Eu me sinto muito sozinho e isso mudou meu comportamento, me tornei mais tranqüilo, era bem mais agitado. Mas quando você começa a ter alguns vínculos de amizade, você já tem que sair e ir embora. Tem que recomeçar. Eu tenho facilidade de fazer amizades, mas tenho dificuldade de mantê-las, em função de estar sempre mudando. Eu passo geralmente 15 dias em cada lugar.”

Nesse sentido, o que tira de proveito da vida cigana é o fato de andar o Brasil inteiro e estar em contato com pessoas, culturas e atitudes completamente diferentes e muito atípicas. Aliás, Auro revela que é essa aproximação aparentemente superficial que o fascina. Ele admite ser extremamente observador e tirar lições a cada 15 dias. “É difícil conseguir isso, mas acontece comigo e gosto muito. Mas fico na minha, sou muito na minha”, comenta o produtor que afirma ter três ou quatro grandes amigos, praticamente irmãos, que trabalham com ele.

Recompensa

A zootecnista Daniela Sanches Rapello, 25 anos atua há apenas dois anos na área de julgamento e é a sua primeira vez na organização de uma feira. Mesmo com pouco tempo de estrada, a botucatuense já percorreu mais de 30 exposições cidades diferentes exercitando a profissão.

É o amor pelo trabalho que faz com que Daniela siga nesta vida itinerante onde somente os CDs, o carro e as malas são seus fiéis companheiros.

“Minha família me dá muito apoio e a gente se fala todo dia pelo telefone, mas a vida amorosa acaba sendo meio arrastada. Ás vezes, se passamos por um período complicado e encontramos alguém lá na frente, não dá vontade de voltar.”

Entretanto, a zootecnista afirma colecionar grandes amigos. “Dá tempo de fazer amigos que você leva para sempre. Geralmente as pessoas que trabalham na exposição são as mesmas, vamos mudando todo mundo junto, só muda o cenário e a gente se reencontra.”

Na vida prática e de hotel, Daniela sistemática assumida comenta que tem mania de limpeza e organização e mesmo carregando malas enormes, arruma tudo a cada quarto. Mas por não ter identidade com cada cidade, em nome da vaidade, foi obrigada a aprender fazer as unhas e não esquece de colocar a chapinha na mala para alisar os cabelos.

A saudade, inclusive dos cachorros é uma constante, principalmente quando se chega a ficar três meses fora de casa.

Muitas vezes, o local ou as pessoas acabam não agradando a julgadora que procura se trancar quando bate o desespero. “Me tranco e tento por na cabeça que tenho que ficar”, revela, sabendo que só muitas feiras lhe trarão a experiência de isolar o que não lhe agrada. Afinal, adora a liberdade que essa vida lhe doa. “Não mudaria não, se me trancar eu morro.”

Herança

A liberdade e a paixão pelos animais veio na genética do tratador e apresentador Ronaldo Pereira Rodrigues, 27 anos, que há 20 acompanha um rebanho de nelore pelo País.

Ronaldo é de Uberaba, já perdeu a conta de quantas exposições já fez na vida, mas ao contrário de Auro e Daniela, que moram em hotel, sua casa é o próprio recinto.

Ele vive junto ao gado. “A gente dorme junto, come junto, pois a nossa vida é vigiar o rebanho, cuidar dele e não deixar que nada aconteça.”

O tratador conta que o ofício aprendeu desde pequeno com o pai que a vida toda foi peão e se orgulha por isso.

“Sou casado há três anos e tenho um filho de um ano e um mês. Vi meu filho pouco tempo, mas mato a saudade por telefone. Saí de casa dia 10 e só volto para casa em dezembro. Saindo daqui, vou para Avaré.”

Além da paixão por viver junto dos animais, fato que Ronaldo aponta como saúde, ele atribui ao amigos de verdade a força para continuar seguindo a cada tempo numa exposição.

Sua dedicação é tamanha que nestes 20 anos teve apenas dois patrões. “Eu tenho patrão que reconhece a gente, por isso sou feliz, muito feliz mesmo.”

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