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Armadilha das metas de inflação


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Quando o governo teve que abandonar o regime de câmbio fixo em janeiro de 1999, o novo presidente do Banco Central optou pelo sistema chamado de metas de inflação, para ancorar a política monetária. No regime cambial anterior, a ação da Autoridade Monetária mirava o equilíbrio entre entrada e saída de dólares no país. Quando havia perda significativa e continuada de reservas, o BC provocava um aumento dos juros para atrair recursos financeiros do Exterior e reequilibrar nossa Balança de Pagamentos. Havia também o efeito secundário dessa ação, que era o de aumentar as exportações e diminuir as importações via desaquecimento da economia.

Com o colapso do regime de câmbio fixo e a selvagem desvalorização do real que se seguiu, o novo presidente do Banco Central – Arminio Fraga – decidiu implantar o regime de Metas Inflacionárias, para devolver ao mercado a confiança perdida na nossa moeda. Segundo esse modelo, que havia sido implantado em paises pequenos como a Nova Zelândia e outras economias menos importantes, o Banco Central definiria uma faixa anual de flutuação para a inflação e operaria sua política monetária em função dessa meta. Quando a variação de um índice de preços escolhido, normalmente o índice de preços ao consumidor, ameaçasse superar a meta fixada, haveria uma alta dos juros: caso a inflação apresentasse tendência a ficar abaixo da inflação prevista, a política monetária seria abrandada.

O sucesso obtido na estabilização de nossa taxa de câmbio e a volta do crescimento econômico em 1999 e 2000, garantiram ao regime de Metas de Inflação uma aceitação generalizada. Os críticos desse sistema e aqueles que advertiam para as falhas metodológicas do modelo implantado no Brasil foram considerados quase como inimigos da pátria. Por isso, poucos perceberam a armadilha que estava sendo construída para o futuro. O Banco Central não teve a humildade de reconhecer esses erros de caráter metodológico, dos quais o mais grave era o de não haver uma regra para acomodar choques externos de preços, e manteve inalteradas as regras iniciais do sistema.

Além disso, o sucesso obtido no início subiu à cabeça da diretoria de nossa Autoridade Monetária e a Soberba passou a dominar a fixação das metas de inflação, para os anos de 2001 e 2002. Chegaríamos ao fim do mandato de Fernando Henrique com uma inflação digna dos países mais avançados, apesar de vivermos em um país do mundo emergente.

Mas Deus pune os soberbos dizem os textos sagrados, e assim aconteceu no Brasil. Uma série de choques externos de preços – petróleo e energia elétrica – provocaram uma elevação da inflação acima das metas fixadas, apesar da elevação dos juros operada pelo Banco Central. Como todos os técnicos sabiam, em situações como essa, a atuação da Autoridade Monetária não consegue evitar que por um período de tempo a inflação saia de controle. Por isso, eles devem ser expurgados dos índices de inflação, que servem de guia à ação do banco central. É assim que se faz nos USA, na Europa e em outros países mais avançados do que o nosso. Mas aqui resolvemos ser mais realistas do que o rei.

Os deuses ainda iam submeter nosso regime de metas de inflação a um teste ainda mais duro e desmoralizante. O choque de preços provocado pela desvalorização cambial brutal dos últimos meses levou a inflação para a zona dos dois dígitos, desmoralizando de vez o austero Copom. Quando ele se reunir na próxima semana, sua ação será quase certamente a de aumentar mais uma vez os juros, para tentar mostrar a todos nós de que não se sente desmoralizado. E quem vai sofrer mais uma vez, por erros anteriores de Soberba, será nossa pobre economia. (O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é economista, publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES)

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