Saúde

Sobras favorecem a automedicação

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

O que fazer com a sobra dos medicamentos é uma discussão antiga entre os profissionais de saúde. De acordo com o diretor do Departamento de Urgência e Emergência de Bauru, Felinto dos Santos Neto, o hábito de guardar remédios em casa favorece a automedicação.

“O primeiro problema é usar de novo de forma indevida. O médico lhe receitou um antibiótico para tratar uma infecção de garganta e sobrou. Daqui a dois meses, você tem outra infecção na garganta e usa aquele mesmo remédio. Talvez, naquele momento, para aquela infecção, o melhor antibiótico fosse outro, mais fraco ou mais forte que aquele”, ressalta.

O segundo problema apontado pelo médico é que remédios estragam. “O prazo de validade indicado na embalagem refere-se ao produto lacrado. Quando você abre, esse prazo muda. Um antibiótico em xarope, por exemplo, você tem que usar em três ou quatro dias. Se guardar por mais tempo, você não vai poder aproveitá-lo”, observa.

Na opinião de Santos Neto, o ideal seria que os antibióticos ou medicamentos específicos para tratar determinadas doenças devem ser desprezados ou doados ao final do tratamento. “Primeiro, você deve conversar com seu médico para comprar na quantidade certa para que não haja sobra. Mas se sobrar, com exceção de antitérmicos, analgésicos e antiinflamatórios, jogue fora”, sugere.

O médico lembra que o remédio errado pode mascarar uma doença grave. Os sintomas das viroses são muito parecidos, principalmente nas crianças. A pessoa aparece com sintomas parecidos com os de um resfriado e toma uma Aspirina. O ácido acetil-salicílico (princípio ativo) é vasodilatador.

Se ao invés de um resfriado a pessoa estiver com dengue - virose em que ocorre vasodilatação -, o medicamento vai potencializar a doença e pode levar a uma hemorragia grave. Se não for socorrida a tempo, a pessoa pode morrer em poucas horas.

Já o o professor de Farmacologia da Universidade do Sagrado Coração (USC), Dejair Caetano do Nascimento, é contra a idéia de se jogar fora as sobras dos medicamentos.

“É um desperdício de dinheiro. Remédio custa muito caro. Se não quiser guardar, se for um medicamento de uso específico, a pessoa pode doar para uma instituição de assistência à saúde. Mas se preferir guardar, a pessoa precisa ter consciência de só usar o remédio sob nova prescrição médica. Então, se adoecer, ela pode levar aquele remédio ao consultório e perguntar ao médico se aquele produto pode ser usado naquela situação”, observa.

Na opinião dele, o problema não está em se guardar a sobra dos medicamentos. O que precisa é instruir, ensinar, educar a população sobre a importância da receita médica e sobre os perigos da automedicação.

Questionados sobre a farmácia caseira, os dois profissionais defendem que um kit de primeiros socorros só precisa ter algodão, gaze, esparadrapo, um antitérmico e soro fisiológico.

“Sempre que houver um ferimento, lave com água e sabão, depois limpe com o soro e faça um curativo. Se houver sangramento importante, vá ao pronto-socorro”, comenta Santos Neto

Em casos de febre, ele sugere que a pessoa tente as alternativas caseiras, um banho em água morna, uma dose do antitérmico indicado pelo médico da família. “Numa virose comum, a febre vai ceder com estes cuidados. Agora, se a febre não ceder, se voltar em duas horas ou se aparecem outros sintomas junto, como vômitos, leve o paciente ao médico para um diagnóstico adequado”, acrescenta.

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