Economia & Negócios

Custo dobra desemprego na construção

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

Por conta da maior alta nos preços de materiais de construção - a maior nos oito anos de Plano Real -, o desemprego no setor de construção civil na região de Bauru dobrou neste final de ano, se comparado com o mesmo período do ano passado. A afirmação é do presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, Cláudio da Silva Gomes.

De acordo com ele, há cerca de 8 mil trabalhadores do setor na região. Normalmente, em períodos de final de ano, quando há retração de grandes empreendimentos, a mão-de-obra ociosa varia entre 25% e 30%. Em 2002, segundo Gomes, os trabalhadores sem ocupação nos dois últimos meses alcançam a marca de 50% - o que representa cerca de 2 mil desempregados a mais neste ano.

“Há um crescimento no mercado informal em dezembro. São aqueles trabalhadores que fazem acertos no mercado formal e estão disponíveis para as pequenas obras de reforma, ampliação”, diz o sindicalista Gomes. E completa: Neste ano, diferentemente dos outros, isso vem acontecendo com menor intensidade devido à elevação de preços nos últimos dois meses.”

A causa dessa “menor intensidade” de absorção de mão-de-obra é explicada pelos números do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP). O preço dos materiais pesquisados pela entidade subiram, em média, 4,95% em novembro.

O item “campeão” do mês passado foi o tubo de ferro, com alta de 15,3%. No acumulado em 12 meses, a maior elevação foi do vidro: 32,3%. Os aumentos acumulados de materiais básicos, como o cimento, o aço e o tubo de ferro, variaram entre 27% e 30%.

Com esses reajustes, considerados “abusivos” pelo SindusCon-SP, o Custo Unitário Básico (CUB), índice utilizado para reajustar os contratos do setor, aumentou 2,21% em novembro, somando uma alta de 11,6% nos últimos 12 meses. No mês passado, o valor do CUB pulou para R$ 705,45 por metro quadrado.

Dos 70 itens da construção civil pesquisados mensalmente pelo SindusCon-SP, 21 (ou 30% do total) tiveram reajuste superior ao Índice Geral de Preços do Mercado (IGPM), que ficou em 5,19%. Por outro lado, o custo da mão-de-obra permaneceu praticamente estável, com variação negativa de 0,01%.

“Os aumentos de cimento, aço e vidro, que são aqueles especialmente fabricados por oligopólios, são claramente abusivos, comprometendo o equilíbrio econômico-financeiro dos contratos das empresas”, declara o diretor regional do SindusCon-SP, Ralph Ribeiro Júnior.

Segundo ele, o produto da construção civil deverá fechar 2002 com queda de 3,5%, acumulando um declínio de 7% nos últimos quatro anos. Ribeiro Júnior ressalta que no Estado de São Paulo foram fechadas 7,5 mil vagas de janeiro até o final de outubro.

Para Ribeiro Júnior, no entanto, o SindusCon-SP está “otimista” com o futuro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo ele, se propostas do petista para o setor, como o subsídio à construção popular, forem concretizadas, poderá haver algum crescimento da indústria da construção civil no próximo ano.

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Pela metade

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, Cláudio da Silva Gomes, explica que o emprego em pequenas obras é típico do final de ano, quando há o pagamento do 13.º salário e as pessoas costumam reformar ou ampliar os imóveis com o dinheiro extra. “Esse serviço praticamente absorvia toda a mão-de-obra ociosa na construção civil”, conta.

No entanto, com a alta dos preços de materiais, muitas obras vão ficar na planta ou serão interrompidas pela metade. Este é o caso do policial Renato Gomes de Oliveira, 34 anos, que quando começou a construir sua casa, no Jardim Colonial, previa o término da obra em um ano e meio. Hoje, o prazo pulou para três anos.

“Na verdade, pelo preço do material, eu estou fazendo bem aos poucos. Numa etapa levantei a casa, na outra coloquei a laje e agora eu estou colocando o telhado”, relata Oliveira. E observa: “Vai dar para fazer o telhado e depois a gente vai esperar para fazer a calha, mas o ideal seria fazer tudo junto.”

Oliveira calcula que já gastou em torno de R$ 40 mil na construção, mas serão necessários mais R$ 20 mil para terminar. “Isso sem acabamento de primeira”, ressalta. Ele acredita que se tivesse comprado material no início do ano e guardado, poderia ter economizado, pelo menos, 40%. “O preço da mão-de-obra se manteve, mas o problema é o material básico. Subiu mesmo”, diz.

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