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Ele é um guerreiro

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 11 min

Jorge Guerra, o Guerrinha dispensa grandes apresentações. Aos 43 anos, ele já dedicou mais de três décadas da sua vida ao basquete, 13 anos só como jogador da Seleção Brasileira. Há quase cinco comanda a equipe de Bauru e já deu à cidade os títulos inéditos de campeão Paulista e Nacional.

Fora da quadra, ele se define como “um cara caseiro” e prendado. Não gosta de televisão, não consegue terminar a leitura dos livros que começa a ler, todos ao mesmo tempo, mas confessa ser viciado em jornais e revistas e não dispensa rádio FM. “Porque tem de tudo: música de todo tipo e notícia toda hora”, alega.

Ele acaba de receber um prêmio do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) como jogador e está cotado para ser o novo técnico da Seleção Brasileira Masculina de Basquete. Aparentemente reservado, Guerrinha rasgou o verbo na conversa com o JC e revelou até um sonho de infância: ser marceneiro.

Jornal da Cidade – O que representa para você o prêmio que o COB lhe entregou na última terça-feira? Jorge Guerra, o Guerrinha – Olha, é um prêmio como jogador, pela minha carreira de jogador e desportista. Eu sou considerado atleta olímpico, poucos no Brasil tiveram a chance de disputar uma Olimpíada e eu disputei mais de uma. Então, é uma honra ao mérito para quem é desportista. É um prêmio muito importante. É uma forma que o COB está resgatando de valorizar os ex-jogadores, ex-atletas olímpicos, e conseguir através da divulgação na imprensa uma mudança na cultura esportiva do Brasil, porque nós somos muito de valorizar o presente, o hoje e a gente se esquece do passado. É um erro da nossa cultura ocidental, principalmente brasileira. Sem dúvida nenhuma, a gente tem que valorizar as pessoas que construíram, de uma forma ou de outra, principalmente o esporte que é o nosso caso.

JC – Num momento como esse de carreira consolidada, de Campeonato Brasileiro vencido, de prêmio de reconhecimento internacional... Você acha que isso vai pesar na decisão do Grego (Gerasime Grego Bozikis, presidente da Confederação Brasileira de Basquete - CBB) para indicá-lo agora no começo de janeiro como o futuro técnico da Seleção Brasileira? Guerrinha – Não, acho que não tem nada a ver. Como jogador eu fui uma coisa, foi muito importante a minha carreira: 13 anos pela Seleção Brasileira disputando Olimpíadas, panamericanos, mundiais, sulamericanos e pré-olímpicos, que aliás é um campeonato muito mais difícil que a própria Olimpíada. Eu acho que isso tudo credencia você a ter uma bagagem internacional, que sem dúvida nenhuma eu uso todo o tempo na minha carreira como técnico. Mas acho que o que está sendo analisado são esses meus quatro anos como técnico, que iniciei em Ribeirão Preto e estou dando seqüência aqui em Bauru. É isso o que deve estar sendo avaliado. Também não acho que deva ser analisado só um resultado ou outro, mas o trabalho que você pode fazer, uma série de coisas que o presidente da Confederação tem que analisar.

JC – Apesar de você não gostar, todo mundo comenta que você seria o sucessor natural do Hélio Rubens. Guerrinha – Eu não tenho nada contra isso. Acho que ser sucessor de uma pessoa com o sucesso que o Hélio teve como jogador e como técnico é uma honra. Consegui fazer isso como jogador em Franca, mas não é meu objetivo de vida ser sucessor de ninguém. Ninguém está aí para ocupar o espaço de ninguém. Cada um está aqui para ocupar seu próprio espaço. Acho que Deus dá individualidade para cada pessoa, características, jeito, ninguém é igual a ninguém. Nós somos apenas diferentes um do outro e eu estou aí procurando o meu espaço profissional. Venho de uma mesma escola, de uma mesma formação, mas cada um tem seu jeito de viver, a sua personalidade. E acho que tenho condições sim, juntamente com vários outros técnicos de corresponder no selecionado nacional como fiz a minha vida toda. Sempre enfrentei desafios, para mim a seleção é um a mais.

JC – Esse seu lado zen fora da quadra é uma característica marcante. Você sempre tem uma explicação espiritual para determinadas coisas. Isso é o que te norteia? Guerrinha – Eu acho que a gente tem os dois lados na vida: a vida material e a vida espiritual. Uma depende da outra. Não adianta você só bater cabeça, correr, treinar, se você não tem o outro lado, se você não cuidar da sua parte espiritual, da parte intelectual. Isso é muito importante para te ajudar na prática, no dia-a-dia. Eu sempre tenho isso. Eu acho que a pessoa que não tem Deus, que não tem uma religião, que não tem um lado místico, não tem nada para nortear fica muito limitada. Principalmente dentro do esporte, você vive muitas dificuldades num tempo muito rápido. Você tem um playoff onde você está disputando uma quarta partida, você perde, você tem a chance de passar adiante numa quinta partida e vai ter um dia apenas. Se não tem onde se apoiar e recorrer além da sua capacidade de estudo, seu talento profissional, tem que recorrer a outras coisas. O lado espiritual é muito importante na vida de uma pessoa.

JC – O playoff é uma nova competição? Guerrinha – É uma nova competição num espaço curto de tempo. Um mata-mata onde o estado emocional e a experiência são muito importantes e é o que nós temos pouco. Mas nós temos vontade. Se tiver isso no coração, acho que dá para seguir a diante.

JC – Mesmo com toda a reviravolta do time, você optou por ficar em Bauru. Você que era um símbolo de Franca, se tornou um símbolo de Bauru, foi adotado pela cidade. Quais vínculos você tem com essa terra, além do basquete? Guerrinha – Eu sou uma pessoa muito grata às coisas. Quando eu saí de Ribeirão, eu tinha uma proposta muito boa. Não financeira, mas de trabalho em Bauru, que nunca tinha sido classificado para a Liga Nacional quando cheguei aqui, estava para acabar o projeto do Tilibra e o Caio (Coube) acreditou na minha pessoa. Eu estava começando uma carreira, tinha tido uma primeira temporada em Ribeirão, tinha ido muito bem, com um time superbom e ele acreditou no meu trabalho. E eu tive em dois anos e meio todas as condições que um técnico precisava ter, dentro e fora da quadra. Depois disso, a equipe começou a passar por problemas financeiros, de patrocínio, de limitação, mas eu nunca deixei de ter o apoio dele e dos irmãos dele. Então, eu sou grato a isso. Não é em um momento de dificuldade agora, que eles precisam de mim, que eu poderia sair. Eu sei que a minha saída este ano, apesar de ninguém ser insubstituível, pesaria muito na continuidade da equipe e a gente não pode fechar uma equipe campeã, um centro como Bauru para o basquetebol. Então, eu, até financeiramente e em termos de carreira, me limitei um pouco, mas fiquei em reconhecimento a todo esse lado que o Caio e a família dele tiveram comigo. E obviamente, pelo basquete, para o basquetebol seria muito ruim uma equipe campeã nacional desaparecer como desapareceu Rio Claro e outras equipes de um dia para o outro. O basquetebol hoje, pela limitação financeira do País, pela circunstância global está precisando de alguns sacrifícios e eu fiz o meu e espero ser reconhecido daqui para frente, né? Como você falou, eu virei uma identificação para Bauru, uma referência por Franca, mas eu acho que as pessoas só tomam por referência quando a pessoa tem competência e sucesso.

JC – Você pensa em continuar aqui? Guerrinha – Penso. Eu sei que é um momento de transição. O Bauru Basquete é um reflexo dessa transição na economia. Mas a gente espera uma seqüência fora da quadra, numa participação de cotas seja ela a master ou menores, para darmos continuidade a um trabalho, que se terminar será difícil voltar. Os empresários precisam olhar com carinho para o basquete que é um projeto social de Bauru, uma cidade que tem poucas opções. Hoje, você vê em todo canto menino com bola e tabelas pelas ruas. A cidade ganhou espírito de basquete e merece uma equipe competitiva para motivar essa garotada e não deixar que esses meninos sigam atrás de coisas ruins como a droga e a bebida e isso reflita contra a gente em forma de roubos e seqüestros. Por que ao invés de investir em sistemas de segurança e prisões, não se faz um trabalho de prevenção?

JC – Você já se imaginou fazendo outra coisa na vida a não ser basquete? Guerrinha – Dando aula, sendo professor. Eu dou aula nas escolinhas.

JC – Mas dá aula de basquete... Guerrinha – Eu sou um cara eclético. Eu adoro fazer qualquer tipo de trabalho. O meu sonho era ser marceneiro.

JC – Mas você já tentou executar algo na área de marcenaria? Guerrinha – Eu fiz eletrotécnica três anos no Ginásio Industrial, em Franca. Faço todo tipo de serviço na parte de eletricidade. Adoro fazer trabalho manual, marcenaria, arrumar as coisas em casa. Tudo o que eu posso, eu faço.

JC – Como funciona o Guerrinha caseiro? Lava roupa, passa e cozinha? Guerrinha – Sou cama, mesa e banho. Completo (risos). Não posso fazer muita propaganda porque a minha namorada (Renata) é muito ciumenta, mas eu sou completo. Eu adoro cozinhar, uso até como terapia, porque a minha profissão é muito tensa. Tem muita pressão em termos de resultado. O basquetebol é um esporte muito dinâmico, ele é muito tático, ele é de frações de segundo, num espaço muito curto, numa velocidade muito rápida. O seu raciocínio tem que ser muito forte, muito rápido e você tem que ter algumas coisas para quebrar isso. Fora da quadra, eu tento esquecer completamente o basquetebol. Você quer brigar comigo é me chamar para jogar uma partida de basquete.

JC–Você nunca mais jogou? Guerrinha - Joguei uma vez com os Amigos do Oscar contra os Amigos do Magic Johnson, umas vezes num joguinho ou outro que se contam nos dedos. Até quando os meus filhos chamam para jogar eu não gosto. Eu faço as coisas muito intensamente na minha vida e fui muito intenso como jogador. Hoje, eu gosto de jogar futebol, tênis, cozinhar, fazer um churrasco, pescar, coisas diferentes do meu dia-a-dia

JC – Os seus filhos também jogam basquete? Guerrinha – O Guilherme, 16 anos, deve vir para Bauru na próxima temporada. Ele joga na equipe de Franca, mas quer jogar fora para crescer como pessoa e como jogador. As opções dele são Bauru, Araraquara e o Minas Tênis, ele vai fazer teste nestes lugares e ficar no que passar. Mas ele é um bom jogador. O outro, o Marcelo, de 14 anos, já parou de jogar, já fez tênis, agora está fazendo tae kwon do. E tem a Carolina de 12 anos, né que eu nunca gostei de basquete feminino. Não tenho nada contra. Acho muito feio, acho que é esporte masculino, principalmente em nível de competição, mas em nível de recreação e iniciação é muito legal. Mas eu nunca imaginei que a minha filha jogasse basquete e é a que tem mais futuro. Ela joga duas categorias acima da dela, foi eleita a destaque do interior na categoria pré-mini e parece que eu vou ter muita dor de cabeça.

JC – Daqui a pouco você monta um time... Guerrinha – Nãããoo! Não monto, não. (risos) A gente nunca pode falar a palavra nunca na vida da gente, né? A vida é feita para ser vivida e com felicidade. Se for para ter mais filhos... A gente não sabe o dia de amanhã. A gente não sabe o que Deus reserva para a gente.

JC – Dentro das suas missões divinas está um projeto de basquete para as crianças carentes nas suas escolinhas? Guerrinha – É o projeto “Adote um Talento”, que existe há seis anos na Clínica em Franca e que já tem jogadores participando de times adultos que saíram desse projeto, voltado para crianças menos favorecidas, que não têm chances nesse Brasil nosso tão cruel com a sociedade, onde poucos têm chances. Esses garotos têm chance de se educar, têm bolsa de estudo, tratamento dentário, alimentação, integração social e aprendem a jogar basquete. Alguns deles já estão em equipes profissionais. O Eduardo de Araraquara, por exemplo, fez 16 pontos no primeiro quarto contra a gente. Tem o Moço em Rio Pardo, que era servente de pedreiro e hoje joga basquete.

JC – Como é ver uma atuação de um garoto que você deu a chance, que você é o culpado pelo sucesso? Guerrinha – No jogo de Araraquara deu vontade de bater no cara, porque ele fez pontos importantíssimos na vitória deles sobre a gente. (risos) Mas eu fico muito orgulhoso. Eu acho que o Brasil só vai melhorar quando todo mundo fizer um pouco pelo social, independente de sua profissão ou função. Você tem que dedicar pelo menos cinco horas na sua semana para um projeto social. A gente sabe que em países do primeiro mundo é assim. O dia em que o Brasil fizer isso, ele vai melhorar bastante. Nós estamos precisando de chances, de trabalho social, por isso eu acredito muito no governo Lula, é muito importante a parte financeira, mas o social é a base de uma sociedade.

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