Vocês logo irão perceber a forte razão da existência deste título, pelos insólitos acontecimentos que estarei relatando a seguir.
Era noite, transitava eu pela rodovia cujo piso se tornava cada vez mais perigoso, pelo intenso chuvisqueiro que teimava em cair desde as primeiras horas da tarde. Era um convite a uma atenção cada vez maior dos motoristas, num trânsito que, pelo horário, era bem intenso como acontecia cotidianamente. Existiam vários desvios, pois grandes obras estavam sendo realizadas. E as possantes sinalizações, muitas pendendo para o vermelho, em determinadas ocasiões me pareciam verdadeiros fantasmas, confundindo-se com as ofuscantes luzes dos faróis que varavam a escuridão.
O brilho dessas luzes no asfalto às vezes atemorizava e tornava mais intrigante a situação dos que por ela transitavam, dirigindo quase ao acaso como se autômatos fossem. Seguiam todos mais adivinhando do que propriamente vislumbrando sua faixa de rodagem. Alguns poderiam imaginar-se no comando de aeronaves, flutuando no espaço e rodeados dos mais estranhos fenômenos luminosos.
Só, com meus pensamentos, procurava não desviar a atenção, um momento sequer, daquilo que deveria ser o meu correto caminho, porém...
Os desvios provocados pelas obras eram constantes e, subitamente, ao procurar vencer um deles, fui atraído por um resto de faixa branca que sobrara à minha direita e saí com as rodas totalmente do leito da estrada, caindo num acostamento de péssima qualidade.
Os solavancos foram grandes mas não cheguei a me assustar, mesmo porque os muitos anos de estrada davam-se a condição de poder superar vários tipos de problemas que poderiam surgir nessas ocasiões.
Após um leve toque no freio, estercei a direção procurando fazer o carro voltar totalmente à estrada, com a devida cautela, o que seria uma manobra verdadeiramente corriqueira.
Mas não foi assim que aconteceu.
Logo que a roda dianteira voltou ao leito normal da rodovia, senti de imediato que alguma coisa não estava indo bem.
Num átimo perdi o controle do carro, que partiu diretamente para o lado oposto da pista, ameaçando seriamente minha segurança. Vi um barranco à minha frente, crescendo, bem iluminado pelas luzes de meu farol alto. Estercei toda a direção e o carro deu um giro de cento e oitenta graus, partindo em velocidade diretamente para o lado oposto. Novamente cruze toda a estrada e vislumbrei outro alto barranco que, bem iluminado, crescia perigosamente à minha frente.
Mais uma vez girei todo o volante e o veículo tornou a dar um giro de 180 graus, partindo teimosamente em direção oposta.
Acionava os freios vigorosamente e o carro, totalmente desgovernado deu dois grandes giros sobre si mesmo. Ouvia os pneus cantando alto, apesar do piso super molhado.
Não sabia mas o que fazer, rodava a direção nos mais variados sentidos e via barrancos ameaçadores por todos os lados.
De repente e por sua própria conta os movimentos do carro foram-se acalmando e, já lentamente, pude levá-lo ao acostamento do lado oposto ao que me dirigia.
Foi um alívio. Fiquei ali parado, estupefado, tentando entender todo o acontecido. E somente agora os demais veículos começavam a passar ao meu lado, buzinando ruidosamente ou dando vários sinais com seus faróis, talves não entendendo o que este louco motorista estava fazendo em pleno leito asfáltico, molhado e escorregadio.
Curiosamente, enquanto rodopiava em várias direções, não notei nenhum veículo passando por mim. Nem carro, nem caminhão, nada que pudesse me assustar de verdade naqueles angustiantes momentos.
Fui aos pouos me recuperando. Notei que estava com o cinto de segurança bem atado ao meu corpo. Ele dera-me uma incrível estabilidade e firmeza enquanto o carro rodopiava ao seu bel prazer, em todas as direções. Lembrei-me ainda que, enquanto rodopiava pela pista, preparava-me para um possível e talvez inevitável capotamento e recriminei-me, intima e vigorosamente, por ter deixado o acontecimento ganhar essa grande proporção...
Você poderia então me perguntar se, naqueles momentos que eu próprio considerei tão aflitivos, não teria elevado meu pensamento à Deus ou à Cristo.
Curiosamente pude concluir que não, não pensara Nele, não invoquei a sua intervenção, apesar da complicada e perigosa situação em que me encontrava.
Mas é aí mesmo que reside toda a soberba importância desse acontecimento o que me faz relembrar a famosa e linda parábola, “Pegadas na Areiaâ€!
“Se tivesse procurado as marcas dos pneus de meu carro naquele asfalto, mesmo encharcado como estava, jamais iria achar o menor sinal, a menor evidência do que havia ocorrido. E também perguntaria o por que de nenhum veículo te me abalroado com todas aquelas rodopiadas, cruzando seguidas vezes a pista, em plena rodovia movimentadaâ€.
E eu teria para tudo isso, uma só e verdadeira resposta: “Certamente Ele me levara em seus braços naquele longo momento de tremendo perigo e insegurançaâ€!
Dia seguinte, já com nenhuma chuva, sol claro, voltei ao lugar das minhas incríveis manobras. E você que me lê neste momento, pode acreditar: naquela área não existia qualquer barranco, que justificasse tudo aquilo que veio à minha visão e à minha mente, nos duros momentos por que realmente passei naquela mesma rodovia, naquele mesmo local...!!!