Bairros

Falta de verbas emperrou programa

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 3 min

O primeiro entrave ao Projeto de Desfavelamento, que pretendia acabar com 60% das favelas de Bauru em quatro anos, foi a falta de verbas. Embora fosse barateado pelo envolvimento dos moradores e da sociedade na obra, a prefeitura diz que faltou dinheiro para terminar de erguer as casas. “Nós concluímos a primeira etapa e deixamos mais de 500 casas construídas”, diz o ex-prefeito Antonio Tidei de Lima, que estava à frente da administração municipal na época.

De acordo com o cronograma do projeto, os estudos e a viabilização do Desfavelamento começou em agosto de 1993. A idéia era sortear, no início de 1996, 400 casas; em maio do mesmo ano, deveriam ser sorteadas mais 400 residências e, até o final daquele ano, a prefeitura iria entregar as 240 residências restantes.

No entanto, apenas a primeira fase foi finalizada. No início de 1996, a prefeitura sorteou as chaves das primeiras 400 casas do bairro, batizado de Núcleo Fortunato Rocha Lima, em homenagem ao pai de Tidei de Lima.

Outras 160 casas que estavam sendo erguidas ficaram inacabadas e, posteriormente, acabaram sendo invadidas pela população. “Não houve interesse do outro prefeito em dar continuidade ao projeto e as residências foram ocupadas até mesmo por quem não participou do mutirão”, explica Tidei de Lima.

O pedreiro Arnaldo Jesus de Souza, morador do Fortunato Rocha Lima e que participou do projeto desde o seu início, conta que era presidente da associação de moradores na época. “Eu tive que dar autorização para as pessoas invadirem as casas, pois a obra estava sendo destruída por gente que nem era do bairro”, salienta.

De acordo com ele, algumas pessoas vinham de caminhão ou carroça e levavam o que podiam das residências inacabadas. “Até bloco eram furtados”, diz.

Temendo que a destruição fosse maior, Souza concordou com a invasão. “Pelo menos, as pessoas que foram morar nas casas cuidam delas, na medida do possível”, explica.

O coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, lamenta que essa parte do projeto tenha se transformado numa “quase-favela”. “Sem dinheiro para terminar a casa, muita gente usou tapume e latas para fechar paredes, fazer coberturas, o que deu um aspecto de desordem ao que tinha sido planejado para ser um bairro”, frisa.

Objetivos pelo caminho

O primeiro passo da prefeitura ao desenvolver o Projeto de Desfavelamento foi fazer um levantamento das pessoas que viviam em favelas que estavam em áreas consideradas de risco - beira de córregos principalmente.

Com a construção das casas, esses moradores seriam abrigados em um bairro de verdade, com água, energia elétrica, ruas com asfalto - ou pelo menos, guias e sarjetas - e equipamentos sociais, tais como escolas, creches e posto de saúde.

Para isso, as pessoas interessadas deveriam ajudar a erguer o núcleo. Elas seriam uma das quatro bases do projeto, ao lado da prefeitura (que entraria com o terreno e a infra-estrutura); a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), que financiaria a obra e as entidades sociais, que dariam assistência à população do bairro.

O mutirão era feito nos finais de semana e trabalhavam na obra homens e mulheres. Eles eram orientados por profissionais da prefeitura e por outros moradores que trabalhavam na área da construção civil. “Esse envolvimento das pessoas era proposital: tanto servia para baratear a obra, quanto para incutir nelas a importância do projeto”, explica Brito.

Apesar de todos esses cuidados, muitas pessoas não abraçaram a idéia com entusiasmo. Depois do sorteio das casas, alguns moradores decidiram vender o imóvel, que estava financiado para eles através da CDHU e tinha como avalista a Prefeitura Municipal, e saíram do núcleo.

Segundo informações dos próprios moradores do núcleo, há famílias que voltaram a morar em barracos; outras, acabaram retornando ao Fortunato Rocha Lima mas, desta vez, como inquilinos dos seus próprios imóveis. “Conheço gente que paga aluguel para morar na casa que era para ser dele”, diz a dona de casa Luiza Jamarini da Silva, residente no bairro.

Tidei comenta que a prefeitura não tinha como impedir que isso acontecesse. “As pessoas têm o direito de decidir o seu destino. Não tínhamos como segurá-las nas casas”, destaca.

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