Ser

De virada

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 11 min

O jogo da vida de Carlos Alberto Gonçalves, 21 anos, começou cedo. Quando era apenas um garoto foi abandonado pela mãe e ficou quase dois anos vivendo na rua até ser encontrado no dia do seu aniversário de 12 anos por uma das filhas de Adelaide Moreira André, a mãe Adê, que o acolheu e lhe deu chances de reverter o placar negativo dado pelo destino.

Além de seus três filhos de sangue, já passaram pela vida de Adelaide 22 outros filhos, mas Carlos segundo ela e seus orixás, é o filho que não teve. É seu de vidas passadas.

Foi Adê quem lhe deu além de carinho, escola, trabalho e o levou ao futebol. O garoto agarrou a oportunidade de tal forma que se tornou profissional e jogou no Noroeste, Garça e Velo Clube, de Rio Claro.

No ano passado, foi descoberto nos Jogos Abertos por empresários e foi para o Palmeiras. Não deu certo, mas os mesmos dirigentes o chamaram para jogar na Coréia do Sul. O jogador Edu Bala, como foi apelidado na infância pelo técnico Baroninho, fez em setembro um teste com mais 20 atletas. Com jogadas de efeito, seduziu os coreanos. Ele embarcou no último domingo para defender a camisa do Samsung.

O sofrimento e a chance de ter uma nova família fizeram de Carlos um homem solidário e prendado. Ele sabe cozinhar, lavar, passar e principalmente cuidar das pessoas que precisam de sua ajuda. Em seus sonhos de menino, o gol é o meio que lhe dará a chance de ser famoso ou de, pelo menos, retribuir a ajuda que sempre teve das pessoas que passaram por ele.

Antes de cruzar o mundo, Carlos conversou com o Carderno Ser e nesta entrevista dá uma verdadeira lição vida.

Jornal da Cidade – Até conseguir uma família de verdade, se tornar filho da Adelaide, qual foi a sua trajetória? Carlos Alberto Gonçalves, o Edu Bala – É uma história longa, hein?! Eu tinha 7 anos quando a minha mãe resolveu ir embora de casa e deixar eu e mais dois irmãos. Nós morávamos perto de Assis, bem na divisa do Paraná. Um dia me falaram que ela tinha ido embora. Como era o filho mais velho, fui atrás dela. Encontrei-a na estrada e disse: “espera que eu vou também!”. Voltei em casa, peguei umas roupas e fui atrás dela. Paramos em Assis e lá ela ia arrumando uns homens, uns namorados e a gente ia morando com eles. Até que fomos parar em Marília, como a cidade era maior e ela não conseguiu arrumar ninguém lá, fomos para debaixo da ponte. Ficamos dois meses embaixo da ponte até que ela resolveu ir embora de novo. Só que nesse dia eu não sabia que ela estava indo embora... Eu estava ajudando uma mulher que morava junto com a gente a catar papelão. Quando cheguei me disseram que ela tinha ido embora e me indicaram a rua que ela pegou. Corri até lá, mas não a encontrei. Foi aí que eu fiquei sozinho. Fiquei mais umas duas semanas na rua sem ninguém e fui à polícia. Contei tudo o que tinha acontecido e os policiais acabaram me deixando na Filantrópica, onde fiquei mais de um mês e meio. Um dia falei para a assistente social que eu tinha um avô que morava numa fazenda perto de Bauru, no caminho para São Paulo. Ela viajou e resolveu checar se era verdade. Ela viu que eu tinha um avô na fazenda. Ela parou para perguntar e viu que era verdade. Ela nem seguiu viagem, voltou com o meu avô, acertou a papelada e ele me trouxe para a fazenda. Teve um dia que a minha mãe apareceu por lá com um cara, que era ladrão. Meu avó teve que pegar uma espingarda e botar os dois para correr. O homem estava querendo roubar um monte de coisas lá de casa. Foi a última vez que vi minha mãe. Depois disso, a situação do meu avô ficou difícil e ele me trouxe para morar com um tio em Bauru. Ele tinha mais dois filhos e eu fiquei morando com ele, mas era a mesma coisa de morar na rua. Ele me batia e me mandava fazer coisas que não queria. Eu não dormia lá, dormia nas ruas do Vista Alegre. Eu pedia para dormir nas casas. O pessoal me conhecia e deixava dormir.

JC – Quantos anos você tinha na época? Edu Bala – Oito para nove. Mas eu era muito assim, se já tinha dormido numa casa, não pedia para dormir de novo. Até que um dia, não tinha mais onde dormir, pois já tinha dormido em todas as casas. Comia o que me davam e era só de noite. Tinha o garçom de um pizzaria do bairro, o Bigode, que hoje freqüenta a minha casa, que me dava um lanche quando não conseguia o que comer. Um dia estava com fome, frio e sem lugar para dormir sentado perto de um orelhão e a Fatinha, que hoje é minha irmã, estava ligando para o namorado que hoje é marido dela. Ela conversou com ele e falou que do outro lado da rua tinha um menino gemendo de fome e frio e que iria levá-lo para casa. Ela atravessou a rua e me levou para casa. Elas me deram banho quente e comida. Eu comi para caramba e eles começaram a perguntar da minha vida, onde eu morava e disseram que iam procurar a polícia. Eu disse que morava em tal lugar, mas sabia que lá era uma casa abandonada. Eu não queria voltar para a casa do meu tio, ele iria me bater. Elas chamaram a polícia e eu disse que a família do meu tio tinha se mudado da casa e me deixado. Mas estava com medo, justo o policial que atendeu ao chamado era um que sempre me batia. Houve uma época em que a polícia batia sem dó.

JC – Você chegou a apanhar muito? Edu Bala – Apanhei, apanhei bastante, mas isso é passado. Mas naquele dia, eu me agarrei no Ronaldo (outro filho de Adelaide) que era grande. Ele me defendeu e fez com que a polícia me deixasse passar o dia na responsabilidade deles, eles disseram que sim, mas que voltariam no dia seguinte. Não voltaram até hoje. Aí a mãe me convidou para morar com ela e estou aqui. No primeiro dia fiquei com medo do escuro, pois estava acostumado a dormir em papelão debaixo de poste. No dia seguinte, a mãe Adelaide foi conversar com meu tio para ver se ela podia ficar comigo. Ele respondeu que ela podia fazer qualquer coisa. Se quisesse matar, podia matar.

JC – Esse tio mora em Bauru ainda? Vocês se encontram? Edu Bala – Mora sim. Eu conheço ele, mas nunca mais fui atrás. Penso assim: em cacho de abelha não se mexe. Já o vi na rua. Quando jogava no Noroeste, uma vez ele me viu e me cumprimentou. Mas é só.

JC – Pela história que contou, você sempre teve uma presença de espírito ou um anjo da guarda 24 horas de plantão... Edu Bala – Nunca me aconteceu nada. Eu procurava não cheirar cola, roubar, essas coisas... Isso nunca me passou pela cabeça. Eu não bebo, não fumo. Nunca tive isso.

JC – Mas se você estava na rua a tentação não era grande? Edu Bala – Não era porque eu não sentia, eu procurava me cuidar. O pessoal me oferecia, mas eu disfarçava e ía embora. Eu ía na escola. Deixava meus cadernos escondidos num terreno baldio e ía para a escola. Estudava e ficava na rua. Uma coisa eu sempre falo: você faz coisa errada se está de cabeça vazia, se tem alguma coisa para fazer, não vai ficar pensando em roubar ou fazer coisa errada. Então, sempre procurei me cuidar e fazer amizades. Se eu roubasse, ninguém iria me ajudar. É por isso que todo mundo sempre me ajudou. Eles viam que eu era um menino bom, me deixavam dormir em suas casas e até largavam carteiras e relógios no quarto para me testar, mas eu não mexia. Meu negócio era descansar, comer e ir embora.

JC – Você tem notícias da sua mãe? Sente mágoa do que ela fez com você? Edu Bala – Eu ouvi falar que ela está presa em Campinas. Mas eu nunca senti mágoa dela. Eu não gosto de guardar rancor, isso não faz bem. Se um dia ela vier pedir a minha ajuda, eu vou ajudar. Mas eu não a amo. Eu a considero, ela é minha mãe de sangue, sem ela não estaria aqui. Eu amo a minha mãe Adelaide, que me deu carinho, me criou e me colocou para fazer um monte de coisa: me deu escola particular com uma bolsa que ela ganhou do Duda Trevisani, do Preve, me colocou no Cips e na escolinha de futebol do BAC, eu fazia três coisas e tinha uma família.

JC – Foi assim que o futebol entrou na sua vida? Edu Bala – Foi. Com uma bolsa que a minha mãe conseguiu com o Pedro Macéa e o Baroninho. Eu ía para a escola, trabalhava e jogava. Eu nunca repeti, sempre procurei me esforçar em tudo. Por mais novo que eu era, pensava que se tivesse oportunidade eu nunca iria largar. Até hoje eu estou aqui. Fui estudando, jogando e o tempo passando. Quando fiz 15 anos, o Barone saiu do BAC e montou uma escolinha e me chamou, mas tinha que pagar metade. Vendi bingo, vendi bala e pão que a mãe fazia, mas não desisti. Eu queria ser jogador de futebol. Quando fiz 17 anos, ele me ajudou a ir para o Noroeste. Comecei a treinar, treinar, treinar... o pessoal gostou de mim e comecei a jogar e deslanchar. Joguei nas categorias de base, fui bem e ganhei valor. Os diretores viram que estava bem e me profissionalizaram. Daí fui para outros clubes, sempre ajudando o pessoal que estava comigo. Afinal, eu sempre fui ajudado.

JC – Você acha que ajudar os outros é uma missão para você? Edu Bala – Não é uma missão. É um dever. Ontem mesmo falei com a mãe: todo mundo depende de todo mundo. Se hoje tem alguém me ajudando, amanhã eu vou ajudar muita gente porque isso vem de dentro de mim. Eu fiz uma promessa para Nossa Senhora Aparecida, que quando eu tiver minha vida, minha posição, eu vou ajudar as pessoas que merecem. Na vida existem as pessoas que merecem e aquelas que fazem semvergonhice. Mas as pessoas que merecem ser ajudadas, a gente tem que ajudar. É difícil o que aconteceu comigo. De 100 crianças, meia consegue o que eu consegui. Eu sempre fiz o bem para conseguir algo de bom. Hoje, a gente vê muita gente que tem família e dinheiro e que se droga, mata a mãe e o pai. Eu nunca precisei fazer isso aí. Eu nunca deixei de dar graças a Deus e graças a mim, pois sem a minha vontade eu não ía conseguir. Deus traça as coisas para você, mas você não pode deitar e ficar esperando. O Barone me disse um dia que Deus dá asas para a gente voar, mas é preciso treinar bastante. Hoje, eu ainda não estou voando, mas estou treinando. Acho que daqui a cinco, seis anos, vou conseguir voar.

JC – Você reza todo dia? Mesmo quando estava na rua, você rezava? Edu Bala – Eu rezo todo dia. Eu não sou católico, evangélico, espírita... Acho que Deus é um só. Eu sempre rezei, mesmo quando não sabia rezar. Eu sempre pedi para que Deus me ajudasse, mas não só a mim, mas que ajudasse todo mundo. Não adianta você pedir só para você. A gente sempre está precisando de alguém.

JC – Hoje, com a ida para a Coréia você está prestes a ficar sozinho de novo. Você está preparado para ficar longe da asa de sua mãe? Edu Bala – Eu sempre estive preparado. Eu não vou mudar meu jeito de ser e agir. Sempre me vi lá em cima, mas sempre sendo o mesmo. E eu sempre falei na minha cabeça: será que eu vou conseguir, não, eu vou conseguir. No meu vocabulário não existe se, se morreu de esperar. Quando eu estava na rua eu sempre dizia: eu vou ter um lugar para morar, vou ter minha família. Hoje eu tenho.

JC – Qual o momento que foi a grande virada da sua vida? Edu Bala – Foi o dia em que fui aceito para morar aqui. Eu estava invadindo o espaço que era deles e tinha que me acostumar à maneira com que eles viviam e fazer com que gostassem de mim.

JC – E qual a grande lição que a vida já lhe deu? Edu Bala – Existe uma frase que sempre penso. É o lema que está sempre na minha cabeça. Deus traça uma coisa para você na sua vida, se tem muitas pessoas que estão na droga e eu passei tudo o que tinha que passar, é um desafio, que ele deu para mim. É um desafio que ele dá para todo mundo. Se você superar aquele desafio, lá na frente, ele vai te dar a recompensa. Hoje, eu não terminei ainda a superação do meu desafio, mas ele já está me compensando. Você colhe o que você planta, se você planta bons frutos, vai colher bons frutos. Eu estou colhendo o que plantei.

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