Política

Entrevista da semana - Marsola é o 'filtro' do terceiro andar

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 10 min

Embora já esteja nas fileiras da reserva da Polícia Militar, Antonio Sérgio Marsola (PM), chefe de Gabinete da Prefeitura de Bauru, ainda é tratado como coronel. A patente, na carreira militar, identifica-se com a palavra comando.

Mesmo despojado do uniforme da PM, agora como civil, Marsola levou para o terceiro andar do Palácio das Cerejeiras - piso no qual está instalado o gabinete do prefeito Nilson Costa (PPS) - as bases da Polícia Militar: disciplina e hierarquia.

Aos 55 anos de idade, dos quais 33 dedicados à PM, coronel Marsola é o homem de confiança máxima do prefeito Nilson Costa. Os calhamaços de processos que diariamente são depositados em cima de sua mesa são escarafunchados e diluídos de tal forma que, quando chegam diante do chefe do Executivo, já estão com uma proposta de resolução encaminhada.

O chefe de Gabinete da Prefeitura comenta, em tom de saudades, fases de sua infância e juventude, vividos num seminário. Lembra das conversações que manteve no ABC Paulista em épocas de greves, na condição de tenente da PM, com o então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, hoje presidente da República.

Antes de sair em viagem para o Guarujá, onde descansa por alguns dias, Marsola concedeu a seguinte entrevista ao Jornal da Cidade:

Jornal da Cidade - A maioria da população não conhece o coronel Marsola, chefe de Gabinete da Prefeitura. Quem é Antonio Sérgio Marsola? Antonio Sérgio Marsola - Sou natural de Jaú, tenho 55 anos de idade. Venho de uma família bem humilde. Somos em sete irmãos. Sou o do meio. Quando garoto, comecei meus estudos em escola normal e, depois, ingressei no Seminário Congregação Nossa Senhora da Consolata com 11 anos de idade. Fui transferido para Santa Catarina, em Rio do Oeste. Fiquei lá dois anos e completei o ginásio. Vim para São Manuel para um seminário da mesma congregação.

JC - Essa passagem do senhor pelo seminário foi com o intuito de estudar ou havia alguma intenção de seguir o sacerdócio? Marsola - Quando criança, eu não tinha muita idéia da coisa. Na verdade, hoje eu analiso que fui atraído pelo seminário não por vocação e com a intenção de seguir carreira de sacerdócio. Foi por uma vocação de esportista. Eu sabia que no seminário praticava-se esporte, principalmente futebol. É lógico que entrei nos estudos e fiquei seis anos no seminário. E foi muito importante na minha vida. Sou uma pessoa muito ligada à religião. Hoje, eu sou espírita.

JC - A sua carreira na Polícia Militar foi exemplar. Como o senhor chegou à PM? Marsola - Ingressei na Polícia Militar em 1967, em Bauru. Na época, eu já tinha pretensão de fazer carreira militar. Estava decidido.

JC - Quais os fatores que pesaram nessa decisão de seguir a carreira militar? Marsola - Eu acredito que a disciplina do seminário pesou muito. No seminário, tínhamos uma disciplina tão rigorosa quanto na Polícia Militar. Isso me induziu. Fiz o Tiro de Guerra em Jaú e me adaptei perfeitamente. Tentei um concurso na Escola Preparatória do Exército, em Campinas, mas fui desclassificado. Na seqüência, acabei conhecendo a Polícia Militar. Ingressei no 4º Batalhão da PM como soldado, aqui em Bauru, que foi muito importante na minha vida. Trabalhei em Santos, fiz curso em Campinas, em Taubaté e cai em São Paulo, onde fiquei grande parte do meu tempo na PM. Lá, fiz academia. Passei por todos os postos da PM. Completei meu tempo com 33 anos de serviço. Sai muito orgulhoso.

JC - Três décadas de Polícia Militar devem ter rendido muitas histórias para contar. Mas sempre tem aquela que jamais se esquece. Qual é? Marsola - Eu tive uma convivência muito forte no ABC Paulista na época em que o Lula começou a despontar. Era a época do regime militar e convivi, na PM, como tenente, as primeiras greves que o Lula comandou. Tivemos muito contato. Conversei várias vezes com ele negociando as manifestações. Tem um fato marcante: quando a mãe do Lula estava internada, ela precisou de doadores de sangue. O Lula estava preso. Um dos irmãos dele, cujo nome não me lembro, tinha amizade com um policial militar que trabalhava comigo. Ele disse a esse PM que precisa de doadores de sangue. Esse policial falou comigo e eu arrumei seis doadores de sangue. A meu pedido, eles foram até o Hospital de São Caetano doar sangue para uma pessoa que eles não sabiam quem era (a mãe do Lula). No auge da perseguição ao Lula, os policiais doaram sangue para a mãe dele. Era um momento delicado devido à greve. O Lula liderava uma greve que estava sujeitando todos os PMs a uma carga de serviço muito grande. Era uma prontidão permanente. Os policiais nem iam para casa. Provavelmente, se eu falasse àqueles policiais que eles iriam doar sangue para a mãe do Lula, com certeza achariam isso ruim.

JC - O senhor foi para reserva e, em 2001, foi convidado para assumir a chefia de Gabinete da Prefeitura. O senhor já tinha afinidade com o prefeito Nilson Costa? Marsola - Ainda na Polícia Militar, tive contato, por diversas vezes, com o pessoal da prefeitura. Com o próprio Nilson Costa, na época secretário municipal do Bem-Estar Social. Depois, já como prefeito, Nilson sempre foi um grande incentivador do trabalho da PM. Quando passei para a reserva, o grupo que estava costurando a candidatura do Nilson me procurou e me convidou para integrar o bloco. Recebi convite de outros candidatos, dentre os quais Pedro Tobias e Tuga Angerami. Mas defini por apoiar o Nilson. Gosto do estilo dele. É uma pessoa bastante ponderada, que a cidade acreditou num determinado momento. Disse ao grupo que não era profissional do ramo. Sabia organizar as coisas, mas não tinha experiência política. Trabalhei na parte logística da campanha.

JC - Depois de 33 anos na Polícia Militar, onde a rigidez e a disciplina imperam, o senhor agora é o chefe de Gabinete da Prefeitura. Foi difícil se adaptar a essa troca repentina de ambiente de trabalho? Marsola - Não foi difícil. Me adaptei muito facilmente. Eu acho que eu fui um policial diferente. Vivi a época do regime militar, da disciplina rigorosa, da exigência maluca do militarismo. Mas sempre preservei a hierarquia e a disciplina como pontos máximos para se manter uma organização. Mas, na verdade, sempre fui muito flexível em relação à população. As coisas das pessoas mais humildes, carentes. Sempre tentei fazer uma polícia voltada para o cidadão de bem, principalmente daqueles que têm mais dificuldades. E o trabalho da administração pública é basicamente isso.

JC - O senhor está num cargo estratégico. É o responsável pela coordenação de 14 secretarias municipais. É possível aplicar a disciplina e a hierarquia no Poder Público? Marsola - Nós temos, hoje, 14 secretarias municipais, mais o DAE, a Cohab e a Emdurb. É lógico que foi preciso implantar uma determinada estratégia de coordenação. Já existe uma regulamentação interna, que facilita isso. O que se implanta na administração é fruto da decisão do prefeito. O prefeito só quer que se faça a coisa certa. Nada de ilegalidade, nada que seja escuso, nada que não seja transparente. O estilo Nilson Costa favorece muito o trabalho do chefe de Gabinete. O que é certo, vamos fazer. O que não é certo, ninguém faz. Aquilo que eu exijo, não é fruto da disciplina. É de se fazer a coisa certa.

JC - Mas, de vez em quando, o senhor deve aplicar o estilo militar no comando. Talvez uma cobrança mais dura. Marsola - Com certeza. Eu acho que todos têm de acatar a filosofia do prefeito. Quando vejo que a coisa não está funcionando bem, tenho que determinar, tenho que exigir e cobrar com insistência, até. A administração municipal é bastante complexa. Se o prefeito determinou, tenho de fazer cumprir.

JC - E por conta desse estilo mais duro de cobrar e exigir, o senhor teve confrontos com membros do primeiro escalão? Marsola - Não. Não tive nenhum problema. O secretariado é um grupo consciente dessa situação. Talvez, alguns podem até não ter gostado de atitudes que eu tenha tomado. Mas nunca ninguém se manifestou. Nunca tive problemas de alguém deixar de cumprir aquilo que o prefeito determinou. Pelo contrário, acho que o grupo funciona muito bem.

JC - O senhor deixou a PM, onde não há espaço para jogo de cintura, para assumir uma função que exige articulação política. Foi fácil assimilar esse jogo? Marsola - A articulação política é bastante complicada. A política é muito dinâmica. Na polícia se tem legislação, normas, regulamentos rígidos. Era muito fácil. Agora, na política é diferente. Tenho muito trabalho para tentar articular o desenvolvimento de alguns programas da cidade com relação à Câmara Municipal, por exemplo. O que a gente quer é passar para eles (vereadores) uma realidade daquilo que temos conhecimento, dentro da filosofia do prefeito de ser muito transparente. Mas é fácil de se ver que na política determinadas posições não são muito coerentes. Sofro com isso. Eu estou na chefia de Gabinete de passagem, mas quero fazer o melhor para a cidade. Aí você não consegue convencer uma pessoa, dentro de uma lógica, de que aquilo é necessário se fazer. Então, não importa o que você está argumentando. Por quê? Porque simplesmente ele é contra porque é contra. É oposição. Algumas experiências foram até frustrantes. Não é desanimador, porque não vamos desistir nunca.

JC - O chefe de Gabinete é uma espécie de filtro da administração. Todos os processos passam por aqui. O senhor tem que estar muito bem informado até para orientar o prefeito. É estressante essa carga diária de trabalho? Marsola - É desgastante, com certeza. O volume de documentos que a administração elabora é grande. Recebemos documentos da Câmara, das secretarias, de entidades. Mas eu me habituei muito a analisar todos os assuntos. Só levo ao prefeito no momento da decisão. Os processos tramitam de uma secretaria para outra e o gabinete faz esse meio de campo. Esses documentos têm que ser filtrados. E quando se chega na fase de decisão, eu os levo para o prefeito já com uma análise, um resuminho, até. Fora disso, ele não tem que estar na rotina se inteirando de tudo, tendo que determinar pareceres. Essa parte burocrática é o gabinete que faz.

JC - O nome do senhor sempre é lembrado em época de eleições. Na passada, por exemplo, cogitou-se de levá-lo para a disputa da Assembléia ou Câmara Federal. O senhor almeja, um dia, disputar um cargo público? Marsola - Sinceramente, vou falar o que todo político fala. Se me perguntassem há alguns anos se eu participaria de política, se me filiaria a um partido, eu diria não, jamais. E hoje estou na política. Foi fruto de uma oportunidade, de um momento da vida. Eu estava me aposentando e fui convidado. Entrei para participar de uma campanha. Saimos vitoriosos. Dizer que um dia não vou disputar um cargo, seria uma irresponsabilidade. Hoje, estou na chefia de Gabinete, pertenço ao partido do prefeito Nilson Costa. Estou ligado a seu grupo político. Minha função é de agente político. Não tem como você não se relacionar politicamente, não articular politicamente. Agora, dizer que tenho vontade de participar de alguma eleição, digo que neste momento não. Mas não vou dizer que se, de repente, as circunstâncias, a oportunidade me conduzirem a isso, eu não aceite. Não tenho pretensão. O cargo de prefeito é o maior cargo da cidade. É o sonho de muita gente. Só que quem está lá sabe que é uma pedreira. Não é fácil. Às vezes até comento com o prefeito que fizemos uma campanha, lutamos tanto para ganhar uma eleição para hoje estarmos aqui. O prefeito está há quatro anos aqui e não tirou férias. Trabalha todo dia, de cedo à noite, de sábado e de domingo. É preciso muita dedicação. Não que eu não tenha vontade ou tenha preguiça ou medo do trabalho. Mas é bastante desgastante. De fato, fui convidado para disputar a eleição passada, mas descartei. Isso não estava no meu esquema e não era o momento. Estava sem vontade e sem pique.

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