Auto Mercado

Teoria da transformação

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

O que você pensaria se alguém lhe dissesse ser possível transformar um Fusca 1967 em um triciclo? Certamente não acreditaria, mas ao conhecer o torneiro mecânico bauruense José Horácio Farah Porto logo mudaria radicalmente de opinião.

É que ele, popularmente conhecido como Lindão, fez exatamente isso. Utilizando várias peças do modelo da Volkswagen, Porto construiu um triciclo semelhante aos da tradicional marca By Cristo, uma das preferidas entre os admiradores de motocicletas do gênero.

Para desenvolvê-lo, o torneiro mecânico demorou cerca de três meses e aproveitou, inicialmente, a suspensão traseira, as barras de torção, o câmbio e as mangas de eixo do Fusca da década de 60. Entretanto, como Porto faz questão de enfatizar, o Volks é apenas a base do triciclo, pois este possui uma verdadeira “salada” de componentes de outros veículos.

O motor, a álcool, é um 1.6 do Passat TS 1980 e os freios, a disco, são do Vectra. O triciclo também recebeu pneus traseiros 225/80/14 da picape Ranger, rodas traseiras do Puma GTS, roda e pneu dianteiros do Palio, amortecedores dianteiros da Strada 200, lanternas traseiras do caminhão Ford Cargo, escapamento da Honda Titan 2000, bateria de Santana e espelhos retrovisores da Honda Biz.

Também integram o triciclo um punho de luz da Honda Titan 2000, um farol da Ford 250 e o mecanismo de velocímetro de um Voyage. Outro detalhe curioso é a origem do tanque de gasolina: um cilindro de inox de uma cervejaria. “Apesar disso, cerca de 70% dos seus componentes originaram-se do Fusca”, frisa Porto.

O torneiro mecânico explica que um dos primeiros passos para construí-lo foi montar a suspensão traseira. A partir dela foi possível delinear o quadro do triciclo e modelar seus tubos, existentes, principalmente, no conjunto guidão/roda dianteira. “Daí foi só realizar o casamento das demais peças e o resultado aí está”, afirma ele. â€œÉ uma obra-de-arte completa, que já está até homologada. Falta apenas a documentação”, completa.

Entretanto, engana-se quem pensa que essa é a primeira experiência de Porto com a fabricação de veículos. Em maio do ano passado, ele encerrou a construção de sua própria moto, uma Amazonas, assunto que foi objeto de reportagem do AutoMercado &Cia na época.

Por isso, ele considera que executar tais projetos é um dos maiores prazeres de sua vida. “Um amigo meu costuma dizer que ganho a vida me divertindo. E ele tem razão, pois tudo que faço é com alegria, como se fosse um fabricante de brinquedos. Só que para gente grande”, compara Porto, rindo.

Venda

Apesar do triciclo ter sido originalmente construído para enfeitar a garagem de Porto, ele não pode usufruir do veículo por muito tempo. Diante de um aperto financeiro momentâneo, o torneiro mecânico precisou vender a motocicleta de três rodas.

Com isso, o felizardo a adquiri-lo foi o comerciante bauruense Marcos Brandão Garcia, amigo de longa data de Porto. Proprietário de uma Amazonas 1984 e integrante do motoclube bauruense, Knibais do Asfalto, Marcão, como é mais conhecido, conta ter realizado um antigo sonho, que foi sendo alimentado à medida que participava dos encontros do gênero realizados no País.

Ele justifica sua paixão pelo triciclo alegando que este possui várias vantagens em relação às motocicletas convencionais. “Tem mais estabilidade, conforto, segurança e capacidade de bagagem. Também é econômico, pois chega a fazer uma média de 17 quilômetros por litro de álcool”, pondera o comerciante.

Por esses motivos, Marcão confessa estar ansioso para andar logo com o triciclo. â€œÉ como voltar a ser criança, que fica aguardando a chegada de um brinquedo”, diz. Ele já planeja até sua “estréia” com o veículo na cidade e fora dela. “A primeira saída será nas confraternizações que fazemos sempre às quartas-feiras e sextas-feiras. Pretendo, ainda, ir com ele até o encontro de motos de Ourinhos”, conclui.

Porto destaca também que o interesse pelos triciclos é crescente e generalizado, especialmente entre os motociclistas mais velhos. “São pessoas acima de 40 anos, das mais variadas categorias profissionais, que já têm três ou quatro veículos e enxergam nestas motocicletas uma ótima opção de lazer”, finaliza.

____________________

Adaptações

Planos para incrementar o triciclo e deixá-lo ainda mais bonito também não faltam na mente de Marcão. Entre outros acessórios, ele pretende instalar bagageiro, mais faróis, rádio, buzina e o principal deles: a cabeça dourada de ferro, de aproximadamente 20 centímetros de altura, de um cavalo que ele apelidou de “Ventania”.

Segundo o comerciante, “Ventania” é mais do que um amuleto da sorte. Ele brinca que o cavalo será o combustível do triciclo. “Quando acompanho na estrada os membros do motoclube para os encontros, geralmente fico para trás, pois muitos possuem motos mais rápidas que a minha. Por isso, costumo dizer que é o Ventania que impulsiona a motocicleta nesses momentos”, considera.

Marcão pretende, ainda, aproveitar os encontros do gênero para achar mais apetrechos para o triciclo. “Só não pode é enfeitar demais, pois senão vira um burro de cigano”, alerta Porto, rindo.

Mesmo sem as adaptações sonhadas, o comerciante já considera seu triciclo mais bonito até que os By Cristo, que diferentemente do construído artesanalmente pelo torneiro mecânico, são produzidos em série.

“Não é porque é meu, mas este foi feito com todo carinho e praticamente sob medida. Já os By Cristo são mais problemáticos, pois possuem dimensões maiores que dificultam o estacionamento”, compara Marcão. “O filho da gente é sempre mais bonito que o dos outros”, acrescenta o sempre bem-humorado torneiro mecânico.

Comentários

Comentários