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O ensino e o futuro da sociedade


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Após tantas mudanças na educação, principalmente na escola pública, um aspecto, e sem dúvida o mais importante, continua precário: o aprendizado. O último Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) revela que boa parte dos adolescentes não sabe escrever, não consegue articular idéias, muito menos elaborar e dissertar conceitos.

Em 1998, a Secretaria de Estado da Educação, dentro de um amplo projeto de reestruturação do ensino fundamental e médio, implantou uma nova grade curricular em que se privilegiava o ensino da Língua Portuguesa e de Matemática. Na ocasião, os alunos do período diurno contavam com seis horas/aula e o noturno com cinco. Nessa mudança houve aumento da hora/aula por disciplina e redução de disciplinas por período de aula, ficando cinco horas/aula para o diurno e quatro para o noturno, o que implicou na redução do número de aulas de algumas disciplinas, como Educação Artística, Geografia e História.

Se é possível apontarmos grandes avanços com a nova política, como a melhoria das bibliotecas, dos laboratórios e dos prédios em geral, por outro lado o processo ensino-aprendizado não apresentou melhoras, ao contrário, as avaliações apresentam dados alarmantes. Alguns tentam culpar a progressão continuada, mas, sinceramente, pela experiência que tenho de sala de aula acredito que ela foi um grande avanço ao tirar a escola e os professores da posição cômoda em que tudo se resolvia com a reprova. O problema foi delegar a praticamente duas disciplinas a incumbência de proporcionar o desenvolvimento intelectual de crianças e adolescentes.

Com relação à Língua Portuguesa, por exemplo, não é o número de aulas que vai propiciar o seu aprendizado. Para se expressar razoavelmente bem é preciso produção de idéias, que por sua vez necessita conhecer conceitos políticos e sociais, interpretar, analisar e discutir a realidade que nos cerca. Assim sendo, a construção do sentido histórico, cultural e social ficou muito comprometida, impedindo a formação crítica de nossos estudantes, bem como a capacidade de elaboração de novas idéias sobre a nossa atualidade. A redução da carga horária de História na escola pública retirou um auxiliar importante da Língua Portuguesa, a reflexão.

O interessante é que tal redução coincidiu com algumas mudanças importantes que estavam sendo implantadas no ensino de História, agora bem menos voltado para memorização de fatos e datas e dando ênfase numa História mais analítica, que associa o cotidiano da criança com as questões relacionadas à construção da cidadania. Hoje, o professor de História, por exemplo, deve associar a Revolução Francesa à situação política atual, pontuando o nascimento das ideologias de esquerda e direita, bem como a importância da participação da sociedade na política. Mas, infelizmente, com o tempo destinado ao ensino de História, o professor não consegue atender ao mínimo do mínimo para um razoável aprendizado de História do Brasil.

Neste sentido, se é consenso que o homem é um ser histórico por natureza, uma vez que somos resultado de nossa experiência na temporalidade, onde desenvolvemos formas de sociabilidade chamadas de cultura, a ausência de um bom aprendizado de História compromete de forma irreversível o nosso desenvolvimento sócio-cultural.

É urgente que a grade curricular contemple pelo menos quatro aulas semanais de História para o ensino fundamental e três para o ensino médio. Isto é, se for desejável termos no futuro uma sociedade mais reflexiva, crítica e preparada para os novos desafios. (O autor, Silvio Luiz Lofego, é doutor em História pela PUC-SP - e-mail: silviolofego@bol.com.br)

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