Pesquisa desenvolvida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) constatou que 80% dos fumantes conhecem todos os malefícios do cigarro e querem abandonar o vício. No entanto, apenas 3% deles conseguem parar efetivamente. A maioria desiste quando os sintomas da abstinência aparecem. Para estes, especialistas indicam técnicas e tratamentos que aliviam o mal-estar e tornam o processo menos penoso.
Médicos confirmam que parar de fumar realmente não é fácil. A nicotina causa dependência cerebral como qualquer outra droga. Para conseguir livrar-se do vício, a pessoa terá que alterar toda a sua rotina e isso geralmente significa fazer sacrifícios. Por isso, não adianta insistir, nem contestar: só consegue parar de fumar quem realmente deseja parar.
“Quando um paciente entra em meu consultório dizendo que veio porque a mulher quer que ele pare de fumar, eu já sei que ele não vai pararâ€, comenta o pneumologista Sebastião Benetti. Segundo ele, em contrapartida, a pessoa que chega sozinha pedindo ajuda mostra que está disposta a abandonar o tabagismo de verdade.
“Só o fato dela se expor - porque ela não me conhece, sabe que está errada, sabe que vai levar uma bronca e ainda assim vem - já indica que ela tem 70% de possibilidades de conseguirâ€, completa.
O médico admite que deixar o cigarro não é tarefa fácil. “Não existe uma fórmula mágica, um tratamento, um remédio que, em um mês, ele pare de fumar. O que existe é um conjunto de coisas que ajudam a pessoa a vencer o desafio. O médico orienta sobre essas técnicas, indica piteiras, adesivos, gomas de mascar, remédios, mas tudo vai depender da força de vontade e persistência do próprio pacienteâ€, salienta.
Ele compara a decisão de abandonar o cigarro com a decisão de trocar de carro. Para conseguir comprar o veículo, é preciso fazer economia, abrindo mão de sair, de jantar fora, de comprar roupas novas ou mesmo de encomendar pizzas.
“Quando você decide parar de fumar, você está querendo adquirir um bem, que é sua saúde. Mas da mesma forma como o carro, ninguém vai pagar as prestações por você. Eu posso até orientá-lo sobre como arrecadar o dinheiro em menos tempo, mas é você que vai ter que abrir mão de coisas de que gosta e fazer sacrifícios para conseguir o que quer. Então, tem que querer de verdadeâ€, observa.
Benetti comenta que os fumantes convictos são extremamente hábeis em arrumar uma desculpa para não parar de fumar e todas elas empurram a responsabilidade para terceiros.
O argumento mais comum, segundo o pneumologista, é o de que ele estava até conseguindo, mas a esposa (ou marido) brigou com ele (ou ela), ele ficou nervoso e acabou acendendo um cigarro.
Ou então, foram os filhos, que estão prestando vestibular e isso o deixa ansioso. Outras vezes os filhos tiram nota baixa na escola e isso o irrita. Sem contar os problemas financeiros, a mudança do presidente, a queda das bolsas, a alta do dólar.
E tem também a desculpa do trabalho: o patrão que o persegue, o colega que mexeu em seus arquivos e sumiu com aquele documento, ou o corte de funcionários que o faz pensar que ele pode ser o próximo.
Para rebater todas as desculpas, basta um argumento: todas as pessoas do mundo têm problemas. O cigarro pode até dar um alívio momentâneo, mas além de durar pouco, ele não resolve a questão. A única maneira de sanar problemas é enfrentá-los, sem desculpas ou subterfúgios.
Para a médica homeopata Sandra Mara de Oliveira Lima, que desenvolve trabalhos contra o tabagismo há dez anos, o tratamento para abandonar o vício deve atuar em três frentes - conscientização, motivação e ação.
A conscientização consiste em mostrar ao fumante os prejuízos que o cigarro está causando à sua saúde. A motivação depende de convencê-lo sobre os benefícios que ele vai ter a curto, médio e longo prazos mantendo seu organismo livre da fumaça. Vencidos estes passos, é hora de arregaçar as mangas e iniciar a mudança de hábitos em busca de uma vida mais saudável.
“A maior dúvida do fumante quando pensa em parar de fumar é o que ele vai sentir no período de abstinênciaâ€, observa a médica. Segundo ela, isso varia muito de uma pessoa para outra. Alguns passam por essa fase sem grandes transtornos, outros podem precisar até de acompanhamento medicamentoso.
Entre os sintomas mais comuns, a retirada súbita da nicotina pode aumentar a irritabilidade e ansiedade, causar dores de cabeça, causar dificuldade de concentração, alterações de sono e aumento do apetite. Os médicos esclarecem, porém, que a fase crítica dura cerca de dois meses e, em média, os sintomas praticamente desaparecem em torno do terceiro mês.
Em todas as fases da crise, é possível adotar alguns artifícios para ajudar o fumante a vencer o desafio. A vontade de fumar é a única sensação que pode persistir, inclusive por anos. Aí, vale a criatividade para desviar a atenção.