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Botequim funciona como divã popular

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

Botequim. “Estabelecimento comercial onde se servem bebidas em geral (bebidas alcoólicas, refrigerantes, café etc) e pequenos lanches; bar”. Para freqüentadores assíduos, o bar, boteco ou botequim vai muito além da definição do Novo Aurélio. Ele torna-se o prolongamento da casa; um divã popular.

“A gente vira psicólogo. Você começa a saber lidar com as pessoas. As pessoas sempre desabafam para o dono do bar. Aí você analisa o cliente e dá alguns conselhos, só confortando-o”, conta Humberto Pérsio de Oliveira, o Baiano, que é dono de um bar localizado no Núcleo Geisel.

Baiano acredita que muitas pessoas procuram o bar para “carregar as baterias” e esquecer ou buscar inspiração para solucionar problemas cotidianos. “Para continuar a convivência, senão o casamento dele vai durar muito pouco e ele vai se estressar”, avalia.

Alternando funções como psicólogo, garçom, cozinheiro e confidente, Baiano passa até 20 horas diárias no bar. Apesar de chamar-se Restaurante Barracão, ele define o estabelecimento como boteco. Um boteco que acolhe os mais diferentes tipos de pessoas: do coletor de papel ao executivo.

“Nada mais é do que um boteco”, reforça.

Além das comidas tipicamente nordestinas, como sarapatel, jabá e grão de boi, um diferencial do Barracão é a decoração. Numa “arrumação desarrumada”, nas palavras do proprietário, objetos antigos e inusitados preenchem as paredes e o balcão.

O tapeceiro Willam Ricardo Alves, 36 anos, diz que vai ao bar para beber e esquecer os problemas. “Você sempre se distrai com as coisas antigas. É um ambiente familiar”, diz.

O divã de Baiano também recebe os solitários que procuram uma boa conversa. É o caso do aposentado José Marin, 72 anos, que vai diariamente ao bar. “Meu caminho é aqui, de manhã ou à tarde”, confessa. “Aqui eu encontro as amizades”, justifica.

Amigo

De terapeuta e confidente a amigo. Para Paulo Roberto da Cruz, o Tobias, do Pé-de-Varsa, a presença do dono do bar é importantíssima no estabelecimento. “O pessoal vem com um monte de problemas, começa a conversar com um amigo, com o dono do bar. Ele expõe o problema dele, a gente dá uma opinião e a pessoa sai daqui mais leve”, conta.

“Aqui você ouve e não ouve, enxerga e não enxerga”, acrescenta Tobias.

Ele também compartilha da opinião de Baiano e acredita que, além da cerveja e da feijoada de sábado à tarde regada a samba, as pessoas procuram no Pé-de-Varsa alegria e distração.

“Às vezes você está em casa meio bravo. Se você passa para tomar uma cerveja no bar, conversar com um amigo, você chega em casa diferente. Descontrai e relaxa”, diz.

É o caso do engenheiro José Arthur. “Em vez de pagar uma terapia para deitar no divã, você senta aqui numa cadeira desconfortável e fica arrumadinho. Volta para casa com a cabeça arrumada”, expõe.

Em casa

A teoria do divã parece ser uma unanimidade entre os donos de boteco. Para Vagner José Dalalio, 42, proprietário do General’s Bar, que fica na rua Monsenhor Claro, o boteco é o prolongamento do lar.

“Você se torna um terapeuta. Depois que a pessoa toma umas cervejinhas, ela fala coisas maravilhosas. As pessoas nem sempre vêm para beber. Às vezes pegam um refrigerante, sentam e querem bater um papo. É onde o dono do boteco entra”, diz.

“No meu boteco eu não vendo bebida alcoólica. Eu vendo prazer, descontração e alegria”, destaca Vagner.

Francisco Milano, 31 anos, dono do Milano Bar, que fica no Parque São Geraldo, conta que durante os anos em que vem gerenciando o boteco aprendeu a lidar com as emoções e confidências dos clientes.

“Hoje chegou um cidadão e contou para mim que a mulher trocou ele por outro. Então você acaba sendo um conselheiro e tem que ser firme”, explica.

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