Botequim. “Estabelecimento comercial onde se servem bebidas em geral (bebidas alcoólicas, refrigerantes, café etc) e pequenos lanches; barâ€. Para freqüentadores assíduos, o bar, boteco ou botequim vai muito além da definição do Novo Aurélio. Ele torna-se o prolongamento da casa; um divã popular.
“A gente vira psicólogo. Você começa a saber lidar com as pessoas. As pessoas sempre desabafam para o dono do bar. Aí você analisa o cliente e dá alguns conselhos, só confortando-oâ€, conta Humberto Pérsio de Oliveira, o Baiano, que é dono de um bar localizado no Núcleo Geisel.
Baiano acredita que muitas pessoas procuram o bar para “carregar as baterias†e esquecer ou buscar inspiração para solucionar problemas cotidianos. “Para continuar a convivência, senão o casamento dele vai durar muito pouco e ele vai se estressarâ€, avalia.
Alternando funções como psicólogo, garçom, cozinheiro e confidente, Baiano passa até 20 horas diárias no bar. Apesar de chamar-se Restaurante Barracão, ele define o estabelecimento como boteco. Um boteco que acolhe os mais diferentes tipos de pessoas: do coletor de papel ao executivo.
“Nada mais é do que um botecoâ€, reforça.
Além das comidas tipicamente nordestinas, como sarapatel, jabá e grão de boi, um diferencial do Barracão é a decoração. Numa “arrumação desarrumadaâ€, nas palavras do proprietário, objetos antigos e inusitados preenchem as paredes e o balcão.
O tapeceiro Willam Ricardo Alves, 36 anos, diz que vai ao bar para beber e esquecer os problemas. “Você sempre se distrai com as coisas antigas. É um ambiente familiarâ€, diz.
O divã de Baiano também recebe os solitários que procuram uma boa conversa. É o caso do aposentado José Marin, 72 anos, que vai diariamente ao bar. “Meu caminho é aqui, de manhã ou à tardeâ€, confessa. “Aqui eu encontro as amizadesâ€, justifica.
Amigo
De terapeuta e confidente a amigo. Para Paulo Roberto da Cruz, o Tobias, do Pé-de-Varsa, a presença do dono do bar é importantíssima no estabelecimento. “O pessoal vem com um monte de problemas, começa a conversar com um amigo, com o dono do bar. Ele expõe o problema dele, a gente dá uma opinião e a pessoa sai daqui mais leveâ€, conta.
“Aqui você ouve e não ouve, enxerga e não enxergaâ€, acrescenta Tobias.
Ele também compartilha da opinião de Baiano e acredita que, além da cerveja e da feijoada de sábado à tarde regada a samba, as pessoas procuram no Pé-de-Varsa alegria e distração.
“Às vezes você está em casa meio bravo. Se você passa para tomar uma cerveja no bar, conversar com um amigo, você chega em casa diferente. Descontrai e relaxaâ€, diz.
É o caso do engenheiro José Arthur. “Em vez de pagar uma terapia para deitar no divã, você senta aqui numa cadeira desconfortável e fica arrumadinho. Volta para casa com a cabeça arrumadaâ€, expõe.
Em casa
A teoria do divã parece ser uma unanimidade entre os donos de boteco. Para Vagner José Dalalio, 42, proprietário do General’s Bar, que fica na rua Monsenhor Claro, o boteco é o prolongamento do lar.
“Você se torna um terapeuta. Depois que a pessoa toma umas cervejinhas, ela fala coisas maravilhosas. As pessoas nem sempre vêm para beber. Às vezes pegam um refrigerante, sentam e querem bater um papo. É onde o dono do boteco entraâ€, diz.
“No meu boteco eu não vendo bebida alcoólica. Eu vendo prazer, descontração e alegriaâ€, destaca Vagner.
Francisco Milano, 31 anos, dono do Milano Bar, que fica no Parque São Geraldo, conta que durante os anos em que vem gerenciando o boteco aprendeu a lidar com as emoções e confidências dos clientes.
“Hoje chegou um cidadão e contou para mim que a mulher trocou ele por outro. Então você acaba sendo um conselheiro e tem que ser firmeâ€, explica.