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Pela globalização da Justiça


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O mundo testemunha a globalização dos capitais. Mas não presencia a globalização da Justiça, da solidariedade, do respeito e da tolerância, que continua pendente. Se isto não ocorre é porque os que querem dirigir unilateralmente a globalização não permitem. Pelo contrário, ocupam-se em abrir para seus produtos os mercados dos países produtores de matérias-primas, mas vendem-lhes o acesso a muitas de suas mercadorias, criam obstáculos para o movimento migratório, agora com o pretexto da segurança, fazem da guerra seu motor econômico.

As manifestações populares de repúdio a um sistema internacional que perdeu credibilidade, como as ocorridas em Seattle, Gênova e Praga e eventos como o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, representam a aspiração legítima de dar um rosto humano à globalização, a um processo que leve em conta os interesses das pessoas e não apenas das grandes multinacionais. É por isso que o livre comércio e a mão cada vez mais visível de um mercado aberto para uns e fechado para a maioria não podem continuar destruindo as economias.

As escandalosas fraudes contábeis das maiores companhias do mundo demonstram que a mão invisível do mercado minou a confiança dos cidadãos não só nessas empresas, mas também nos controles estatais. A segurança não pode continuar sendo o pretexto para a agressão, nem a guerra pode continuar sendo a locomotiva da economia. A história demonstra que a paz é que mobiliza a economia e não a guerra. A Guerra do Golfo de há mais uma década mostra isso.

Por estes e outros aspectos, é preciso enfatizar que a globalização não implica o fim das soberanias nem das responsabilidades particulares dos Estados. Elas estão se modificando, se complementando e se fortalecendo com a presença emergente de novos atores sociais. A moderna lógica de acúmulo produtor de enormes riquezas caracteriza o modelo atual.

No caso da América Latina, vemos os efeitos devastadores da desestabilização econômica e política de algumas democracias frágeis nas mãos das determinações dos organismos financeiros internacionais. A evolução da globalização também implica a reforma destas instituições, bem como as de caráter político do sistema internacional. Esta é uma necessidade inadiável, já que seu crescimento e grau de complexidade diluiu significativamente seu papel político, reduziu sua eficácia e se converteu em grandes entes burocráticos.

Para que a globalização tenha um rosto humano, é necessária uma reforma que rompa a exclusividade que até agora têm os representantes governamentais convertidos em mandatários dos interesses das grandes corporações empresariais, as máfias corporativas e os interesses supranacionais. Trata-se de uma reforma que dê lugar à participação de atores sociais que hoje não encontram caminhos apropriados de representação na estreiteza dos sistemas institucionais existentes. (A autora, Rigoberta Menchú, é Prêmio Nobel da Paz em 1992)

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