A presença de militares norte-americanos no Iraque não tem prazo para terminar. â€œÉ uma guerra que começa e uma ocupação que não tem fim.†Essa é a opinião do historiador José Jobson de Andrade Arruda, pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da Universidade do Sagrado Coração (USC)
Ele falou ao JC sobre o conflito entre Estados Unidos e Iraque, também conhecido como Nova Tempestade no Deserto ou Segunda Guerra do Iraque.
Para Jobson, a terceira guerra mundial já começou e carrega muitos interesses econômicos. “Ninguém faz uma guerra para perder dinheiro. Faz-se guerra para ganhar dinheiroâ€, diz.
Jornal da Cidade - A ocupação do território iraquiano pelos Estados Unidos indica que a guerra já começou? José Jobson de Andrade Arruda - O 11 de setembro inaugurou o século XXI e deu início à terceira guerra mundial. Ou seja, a terceira guerra mundial já começou. Portanto, as operações militares no Iraque, que se avizinham, fazem parte desse contexto. A Segunda Guerra do Iraque já é uma realidade. As tropas já foram postas em movimento, dois porta-aviões posicionados e outros três deslocando-se para o teatro do conflito. Os dados recentes demonstram que já há 110 mil homens na região. Logo, este número chegará a 150 mil, sendo que são necessários 200 mil para conduzir as operações envolvendo, inclusive, os planos de operação que já foram traçados. Um comando militar já funciona no Catar. Grupos especiais de operação atuam no norte do Iraque. O aparato tecnológico de alto desempenho pode ser posto a funcionar em qualquer momento. E, se nós compararmos o conflito que se avizinha com o conflito de 1991, veremos que, na Guerra do Golfo de 1991, os americanos dispunham em seu arsenal de apenas 5% das chamadas bombas inteligentes. Hoje, esse arsenal representa 85%. A guerra já começou. Os americanos têm duas áreas de exclusão no Iraque - uma ao norte e outra ao sul. Áreas onde os aviões do Iraque não podem voar. Nessas áreas, já atuam grupos especiais de operação dos americanos. Portanto, é uma guerra que já começou. O território do Iraque já foi ocupado.
Jornal da Cidade - Quais são os interesses econômicos que estão por trás disso tudo? Jobson - Temos um aparato militar bélico instalado. Esse aparato pode ser financiado pela maior potência do globo, à espera do início das operações, por vários meses, segundo disse o presidente americano. Ele disse: “A guerra pode começar agora ou nós podemos ficar esperando lá por vários meses.†Não se esqueça que é manter, num teatro de operações, 150 mil homens. Vejam os custos que isso significa. Ninguém faz uma guerra para perder dinheiro. Faz-se guerra para ganhar dinheiro. Em alguns casos, as guerras são defensivas. Essa é uma guerra ofensiva. Uma previsão quase certa garante que, entre o final de fevereiro e os idos de março (expressão relacionada ao assassinato de Júlio César, em 15 de março), o gatilho será apertado. Começa o bombardeio. Neste momento, as condições climáticas favoreceriam a guerra no deserto e, portanto, esta época tem a preferência dos comandantes militares, que operam em campo. Depois disso, fica muito quente.
Jornal da Cidade - Pode-se afirmar que o conflito iniciado em 1991 jamais terminou? Jobson - Noventa e um foi uma guerra que ficou pela metade. O Bush pai começou e não terminou. Ele tinha, na época, uma série de problemas. Por que atacar o Iraque? Seria simplesmente para completar o serviço que o Bush pai não fez em 1991 quando refreou a ofensiva depois da rápida vitória e desmantelamento do exército iraquiano? Naquele conflito, o de 91, os americanos contavam com o apoio das Nações Unidas que, em nome do direito internacional, buscavam conter a anexação do Kwait pelo Iraque. O apoio da ONU é considerado relevante pelos militares americanos. O fato de os inspetores nada terem encontrado de importância real, como armas biológicas e químicas, nada impedirá a ofensiva americana. O último relatório está previsto para o próximo dia 14 de fevereiro. Mas ele em nada interferirá. O que resulta desta observação é que os americanos se colocam cada vez mais contra o direito internacional que eles mesmos ajudaram a forjar. Eles afirmam abertamente que não deixarão a comunidade internacional amarrar suas mãos. Portanto, se os inspetores nada encontrarem, volta-se ao argumento do apoio a Al-Qaeda, que mobiliza melhor os americanos. Em sua fala, Bush voltou a insistir que Saddam deu apoio à Al-Qaeda. Há provas efetivas disso? Não há. Da mesma forma que não há provas cabais de que exista realmente essas armas que os americanos dizem tanto temer. Os americanos, não tendo um argumento, voltarão ao outro. Se não houver motivos, inventa-se os motivos. Se não for possível inventar, vai sem os motivos mesmo.
Jornal da Cidade - O fato da indústria petrolífera ter patrocinado a campanha de Bush está relacionado à conduta adotada por ele? Jobson - Está sim. Ele mesmo é um homem da indústria petrolífera. O próprio Bush e o vice-presidente estão envolvidos nos escândalos do petróleo. Bush era um dirigente de indústria petrolífera. Uma razão estrutural para o conflito são os próprios impasses gerados pelo processo de globalização, do qual os Estados Unidos são os principais beneficiários. Se de um lado existe a universalização do capital no plano econômico, do outro não existe o estado mundial correspondente a essa mesma globalização. O fracasso do governo Bush em desmantelar a Al-Qaeda, em exibir os restos mortais de Bin Laden, exigiu a busca de quaisquer outros troféus que valessem a pena. Neste caso, Saddam Hussein preenche perfeitamente o molde. Líder de um estado ditatorial, é um vilão ideal para suprir a necessidade de um êxito retumbante, mas que traria consigo outros benefícios no campo econômico bem mais suculentos. Portanto, a ação no Iraque preenche tanto a dimensão política quanto econômica do exercício da chamada pax americana (hegemonia americana). Portanto, a crise do capitalismo em contexto globalizado é o motivo econômico de fundo. Essa questão de fundo, da necessidade permanente do capitalismo se rearticular e encontrar novas formas de expansão, levam a um segundo ponto: a questão dos combustíveis fósseis. Como sabemos, o caso nefrálgico do petróleo.
Jornal da Cidade - Se o Iraque for derrotado em caso de bombardeio, haverá benefícios ou a crise se agravará? Jobson - Países serão beneficiados com o petróleo, mas do outro lado isso faz alastrar uma crise mundial ainda maior. É um benefício entre aspas. Eles mesmos (EUA) serão prejudicados. À medida em que a crise se alastrar, o consumo de combustível vai diminuir nos países industrializados e que precisam do combustível para alavancar sua produção.
Jornal da Cidade - Por quanto tempo deverá permanecer a ocupação no Iraque? Jobson - A tensão geopolítica relacionada com o petróleo tenderá a crescer na proporção inversa ao escasseamento desses recursos e os conflitos se tornarão inevitáveis e brutais. O Iraque tem a segunda reserva mundial. Os Estados Unidos gastam mais para proteger a exploração de petróleo no Oriente Médio do que com o valor pago para as próprias importações de petróleo. Assegurar fontes de abastecimento de petróleo tem um caráter estratégico de longo prazo e um impacto imediato na desaceleração da crise americana. A longo prazo, portanto, torna-se evidente que a presença no Iraque não tem prazo para terminar. É uma guerra que começa e uma ocupação que não tem fim. Este plano prevê uma ocupação que deve estender-se por 18 anos, mas pode muito bem transformar-se em 18 anos pois depende de que a situação se torne estável. Essa expressão é suficientemente fluída para garantir a estadia permanente. A ocupação dos poços de petróleo teria preferência na escalada militar. A ajuda econômica, reconstrução dos prédios destruídos, ajuda humanitária são formulações adocicadas que visam minimizar o efeito perverso da invasão prevista.
Jornal da Cidade - Que tipo de reação essa ocupação provocará? Jobson - Inimaginável. Sem dúvida, ações terroristas tenderão a crescer, ataques a alvos de interesses americanos ou de seus aliados em todo mundo tenderão a crescer. Este é um preço pequeno a pagar para os altos interesses do capitalismo americano e do poderio militar e político dos Estados Unidos. Estas vidas que se perderão são eufemisticamente qualificadas como danos colaterais. Que outra nação poderia tomar uma atitude como essa sem ser os Estados Unidos? Só eles podem fazer isso.
Jornal da Cidade - A reeleição também está presente entre os interesses de Bush? Jobson - Em sua fala ao Congresso americano, Bush foi convincente para mais de 70% da opinião pública americana. Isto é o que basta para um presidente que tem os olhos postos na reeleição. Portanto, haverá guerra ou não? Sim, e ela já começou. Devemos nos preparar para assistir ao espetáculo midiático, televisivo que foi inaugurado pela transmissão ao vivo da guerra do Golfo, em 1991, pela CNN. Generais não vão ao rubicão para lavar os pés. Alea jacta est (a sorte está lançada, em latim).
Jornal da Cidade - Quem é a principal ameaça para o mundo: o Iraque ou os Estados Unidos? Jobson - É difícil responder uma coisa como essa. A partir do momento em que algumas pessoas estão decididas a morrer explodindo-se com bombas, essas ações tornam-se absolutamente inevitáveis. Como você enfrenta uma pessoa que tem desamor à vida? O que impede que, no Iraque, alguns desses radicais use um artefato deste? Nada. Portanto, é preferível que o controle desses equipamentos esteja nas mãos de pessoas consideradas fanáticas e radicais ou de uma democracia como a americana? Os Estados Unidos estão ameaçados, mais ainda são uma democracia. Eu prefiro acreditar nisso do que acreditar em Saddam Hussein e nas atrocidades que certamente ele comete.
Jornal da Cidade - Quais seriam as principais conseqüências da guerra para o Brasil?
Jobson - Nós sabemos muito bem que essa guerra tem um impacto imediato na alta do petróleo e isso terá um efeito imediato na inflação. O dólar sobe. Os pagamentos que o Brasil tem que fazer pelos empréstimos contraídos pelo Estado ou pelas empresas estarão mais caros. É evidente que o governo Lula, que pretende ser um governo com a utilização da maior parte possível de recursos para o social, terá dificuldades para realizar esse projeto. São previsões de curto prazo. Se aquele projeto ensaiado pelos americanos de ocupação do Iraque acontecer e os americanos aumentarem a produção de petróleo, esse custo poderá cair bastante. Amenizará a crise americana e as dificuldades brasileiras.
Jornal da Cidade - Bush, em seu discurso, comparou Saddam a Hitler. O que o senhor acha dessa comparação? Jobson - Essa comparação tem dupla face. Você também pode dizer que Bush é um Hitler moderno. Quando Hitler descobriu que para pôr sua máquina de guerra em funcionamento ele precisaria de petróleo, ele não teve dúvida em avançar e descer em direção ao Mar Negro para ocupar reservas petrolíferas que estavam sob controle da Rússia. O que falava mais alto era o interesse imediato. O que o Bush está fazendo é isso. Alguns são mais descarados, outros são mais disfarçados.