Tribuna do Leitor

Lamentações de uma velha árvore ao homem


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O que vou descrever no texto talvez seja uma utopia sem sentido, mas tire as conclusões da nossa realidade, coloque-se no lugar delas.

Quinta-feira, 13h35, na vicinal que dá acesso ao retorno do Instituto Lauro de Souza Lima para cidade, presenciei as máquinas e tratores tombando as velhas árvores para abrir espaço para a construção de uma grande empresa. Na minha imaginação viajei no passado não muito distante, apenas alguns anos, e recapitulando como era bonito aquele lugar, as gigantescas árvores, as matas, a floresta, a paisagem misturando com o contraste da estrada, hoje duplicada, por sinal uma bela estrada, ou melhor, uma bela rodovia. E a árvore destruída, no lamento da angústia de ser tombada e morta, perguntaria ao homem: o que faço por ti?

Dou-te meu oxigênio para que possas viver feliz, recolho o gás carbônico que lanças ao ar livre sem proibição nenhuma, todas as minhas partes (da raiz aos meus frutos) dão-te alimento necessário para a tua sobrevivência.

Realizo a fotossíntese para reduzir os maléficos efeitos da poluição ambiental, tenho sais minerais e vitaminas, que são tão necessários a tua nutrição.

Minha gordura não produz para o teu corpo o colesterol, por isso não te causo enfarte, dou-te fibras para diversas utilidades, bebidas deliciosas, madeiras para construção da sua casa, ainda que modesta, móveis, transporte e o meu calor.

Dou-te perfumes, remédios e adornos, amparo-te na hora da chuva e do sol, quanto é boa a minha sombra para as suas horas de calor e cansaço.

Evito as erosões da terra tão constantes em nossa cidade, fertilizo-a com minhas folhas que caem e se integram ao solo para te dar a colheita mais fértil.

Dou o prazer para o esconderijo e descanso dos pássaros, dou o aconchego, não empresto, dou de graça a minha sombra e o vento das minhas folhas para afagar e acariciar os seus cabelos, dou a minha beleza natural sem te cobrar nenhum centavo, dou-te a beleza do horizonte em forma de paisagem colorida, quando se misturam entre mim as flores da primavera.

E o que fazes comigo: depreda-me impiedosamente para retirar meus frutos, às vezes, ainda verdes, ou matar meus hóspedes naturais - os pássaros que me alegram com seu canto, fazendo uma sinfonia com natureza, cortas minha casca e meus galhos indefesos e muitas vezes eu choro em silêncio, sem o direito de reclamar do ronco do motor que alucinado vem ao encontro do meu tronco também indefeso, lanças restos de alimentos aos meus pés, não sendo aplicado e misturado corretamente ao solo que me apóia me levarão à morte.

Muitas vezes você não me protege, principalmente quando ainda sou pequena, frágil para vencer os ataques da natureza e do homem tratados de seres humanos.

Cortas-me simplesmente pelo prazer porque estou sobre os fios da rede elétrica, porque fui plantada no lugar errado, cortas-me simplesmente porque deixo cair minhas folhas no teu quintal ou à frente da tua casa, ou ainda porque faço mais sombra do que quanto desejas, com tuas limitações às vezes ilógicas e comodistas, cravas em mim sem piedade pregos e outros metais, além de fazeres comigo outros ardis, que impedem meu desenvolvimento normal quanto ao tempo e espaço que às vezes me é negado.

O homem ingrato e insensato, reflete estas verdades e não mais sejas ingrato, reconhece quanto faço por ti, nunca me cortes ou me arranques sem que providencie outra companheira para substituir-me.

Tu precisas mais de mim do que eu de ti, já refletiste nisto alguma vez? Se ainda não, agora é a hora oportuna, pense nisso e deixa eu colorir com o verde das minhas folhas a sua paisagem descolorida e cinzenta. Pense nisso. (Jaime Prado - RG: 9.656.152)

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