Política

Prefeitura atrasa revisão nos coletivos

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

A reestruturação do deficitário sistema de transporte coletivo de Bauru está com seu calendário novamente atrasado. Depois de ter pago R$ 180 mil para contratar o estudo (modelagem) no ano 2000 e de ter revisado apenas parte das linhas dos finais de semana na cidade, a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) muda a rota e passa a adotar a base das mudanças a partir de levantamento que agora está sendo pago pelas concessionárias do setor.

Três anos depois, os usuários do transporte coletivo serão novamente chamados a discutir uma solução para o que todos os envolvidos já sabiam: o gerenciamento das linhas e pontos de ônibus mantêm um sistema irracional e de custo elevado para o usuário, o Poder Público e as próprias concessionárias.

Apesar de ser a gerenciadora do sistema, com irrestrita liberdade para modificar o que não estava dando certo, a administração municipal justificou, ao longo desse tempo, que a saída para os prejuízos no setor não podia ser alcançada antes de se colocar um fim à crise envolvendo a ex-permissionária Empresa Circular Cidade de Bauru (ECCB).

Contudo, obtido este resultado, o gestor do sistema atrasa o cronograma já atualizado. No final do ano passado, a direção da Emdurb prometeu, em audiência pública, iniciar o processo de modelagem em janeiro deste ano. Para o presidente do Conselho de Usuários do Transporte Coletivo, Rubens Roberto de Souza, a empresa municipal contemporiza sobre seus próprios erros.

Rubens também afirma que, depois de ter investido dinheiro público na área e não ter conseguido colocar o estudo em prática, a Emdurb agora passa a adotar como base para a rediscussão da modelagem um diagnóstico oferecido pelo setor privado. “Consumiram R$ 180 mil para realizar a modelagem há três anos e agora aguardamos uma nova revisão a partir de contratação feita pela concessionárias com a mesma consultoria”, alfineta.

O diretor de transportes da Emdurb, Valdomiro Fantini, argumenta que o novo estudo, graciosamente oferecido pelos patrões do sistema, será submetido à análise pública. “Até o fim da próxima semana vamos receber o restante dos dados das empresas. Estamos passando os dados por um filtro nosso e já pedimos para a Câmara realizar audiência pública para discutir o tema com a sociedade”, diz.

Os mapas atualizados e a recente pesquisa feita com cerca de 18 mil usuários vai, certamente, apontar o que está nas ruas há muito tempo: o gestor mantém linhas sobrepostas e competição irracional e autofágica para a sobrevivência do próprio sistema. Os intervalos de ônibus e a distribuição das linhas e pontos de passageiros continuam irregulares.

O presidente do Conselho de Usuários receia que o atualizado diagnóstico sobre antigas falhas possa ser contaminado. “O sistema é deficitário e formado por itinerários e linhas que competem entre si em diferentes pontos. Isso todos sabem. O que não se sabe agora é se a lógica das mudanças vai ser de acordo com o interesse do usuário ou do novo financiador do estudo, as empresas de ônibus”, critica.

O presidente da Emdurb, Edmilson Queiroz Dias, informa que o atraso na implantação da modelagem (prometida para janeiro último) agora se deu pela impossibilidade de realização de convocação de audiência pública pela Câmara, que está investigando uma crise administrativa interna e acabou de voltar do período de recesso.

Não obstante a renovação dos argumentos para uma medida em discussão há mais de três anos, a empresa municipal garante que a reestrutruração vai chegar às ruas a partir do final deste mês.

Mais caro do que os R$ 180 mil gastos pelos cofres públicos em 2000 para a primeira modelagem, a não realização da revisão sangrou muito mais os cofres municipais por meio de sua própria inércia irracional. A Câmara de Compensação Tarifária (CCT), que contabiliza as operações com o transporte de passageiros nos coletivos, atingiu déficit superior a R$ 6 milhões em janeiro deste ano.

Somente no mês de dezembro passado, o sistema aumentou sua insolvência financeira em mais R$ 600 mil. Para o representante dos usuários, pior que os números e a demora poderá ser o resultado da aplicação da já onerosa modelagem. “A dívida aumentou, a reestruturação não saiu do papel e o usuário ainda corre o risco de pagar a conta com mais sacrifícios se não ficar alerta e chamar a responsabilidade para quem deixou de agir”, finaliza.

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