A constatação de que a dívida do município de Bauru cresceu R$ 20 milhões três anos após firmado o contrato de federalização com o governo assusta os vereadores e alguns já sugerem revisão no acordo.
Os números foram apresentados em audiência pública realizada anteontem, na Câmara Municipal, pelo secretário de Finanças, Raul Gomes Duarte Neto. Hoje, a prefeitura tem uma dívida de R$ 63 milhões.
Para o vereador Faria Neto (PDT), é inacreditável que a administração pague sua dívida em dia - cerca de R$ 500 mil por mês - e o montante principal só aumente.
“Tudo bem. É Tabela Price. Não sou economista para avaliar, mas acho que essa dívida, esse contrato, precisa ser reavaliado. O prefeito Nilson Costa não pode empurrar a dívida com a barriga. É preciso saber se Bauru levou vantagem com a federalizaçãoâ€, analisa.
Na opinião do pedetista, é difícil entender que a dívida até a sua metade - no 15.º ano - vai aumentar e somente após cumprido esse período o valor principal começará a cair.
“Daqui a 15 anos, com certeza vamos estar devendo um orçamento municipal. Será que não teria sido melhor pagar de maneira apertada e escapar dos juros?â€, questiona.
Para alguns parlamentares, a situação deve ser discutida no âmbito judicial. É o que pensa o vereador Milton Dota Jr. (PTB). “O vereador José Clemente Rezende já propôs uma ação popular mostrando que a federalização foi uma mentira. Ela foi uma injeção de morfina num paciente canceroso. Só prorrogou e levou à frente o pobre do coitado, no caso o município de Bauruâ€, ilustra.
Ele avalia que a audiência pública de anteontem só mostra o “estouro†que vem pela frente. “A dívida é impagável. O que fizeram foi uma irresponsabilidade. Deveriam ter procurado a Justiça para discutir os valores ao invés de atolar o município em dívida.â€
O petebista acha que um município que tem mais de 50% de seu orçamento comprometido, precisa se preocupar. “Entendo que deveríamos fazer uma verificação desses valores. Durante um período de 24 meses, já pagamos R$ 15 milhões. E a dívida ainda cresceuâ€, posiciona-se.
Comemorada na época com fogos e discursos inflamados, a federalização da dívida começa a ser vista hoje como um “bicho-papão†que poderá comprometer as finanças da prefeitura num futuro muito próximo.
“Comemoraram como se tivessem colocado o ovo de Colombo em pé. Desde daquela época eu dizia que a federalização da dívida foi boa, mas para os bancos Chase Manhattan e os demais que tinham dívidas com o municípioâ€, opina o vereador João Parreira (PSDB).
Ele também é da opinião de que a administração deveria ter discutido um acordo com as instituições financeiras para rever os valores. “Ao contrário: pegaram a dívida acumulada com juros, taxas e federalizaram. Pagou-se os bancos integralmente. A federalização foi um grande negócios, mas para os bancosâ€, reforça.
O tucano não concorda com o discurso de Nilson Costa e do secretário das Finanças que culpam o ex-prefeito Tidei de Lima (PMDB) pela situação de endividamento da cidade. “Outros fizeram bobagens no passado, mas as bobagens continuam sendo feitas na seqüência. E de bobagem em bobagem, a dívida vai crescendo.â€
____________________
‘Proporção preocupante’
O secretário municipal de Negócios Jurídicos, Luiz Pegoraro, também está atento à “proporção preocupante†do crescimento da dívida do município. Ele acredita que as centenas de prefeituras esparramadas pelo País que assinaram a federalização com o governo federal deverão iniciar uma pressão para que o acordo seja revisto.
“Eu tenho a impressão de que esses municípios vão se unir para pressionar o governo a rever as bases em que a federalização foi firmada. Embora o Banco do Brasil seja estatal, o lucro é exorbitante e exige sacrifícios por parte dos municípiosâ€, opina.
Pegoraro não defende o calote da dívida, mas o pagamento “justo e correto†para evitar o sufoco financeiro das prefeituras. “Eu não acho que os municípios vão ficar calados diante dessa situação. É preciso rever esse percentual dos juros que estão sendo cobradosâ€, diz.
Na opinião do vereador Edmundo Albuquerque (PPS), o quadro de crescimento da dívida já era previsto na época em que as contas do município foram federalizadas. “Não havia outra alternativa. Eram dívidas vencidas. O que precisa se saber é qual era o juro dessa dívida. Se não fizessem a federalização, qual seria o juro cobrado?â€, questiona.
Embora não tenha um cálculo definido, ele afirma que a prefeitura estaria pagando um juro muito mais alto em relação aos valores daqueles que são cobrados hoje. “A discussão tem que ser encaminhada para esse aspecto.â€
Na avaliação do parlamentar do PPS, é preciso que o município crie alternativas para fazer crescer a sua arrecadação. “Temos que ver o orçamento de Bauru como um todo. A situação do município é péssima. Quando o prefeito fala que equilibrou as finanças, na verdade equilibrou receita e despesa. Fica difícil desse jeito resolver os problemas estruturais porque não há recursos para investimentosâ€, explica.