A violência contra a mulher está ligada ao poder, privilégios e controle masculino. Atinge as mulheres independente de idade, raça, etnia e religião, nacionalidade, opção sexual ou condição social. Historicamente, a violência doméstica e sexual somam-se a outras formas de violação dos direitos das mulheres: da diferença de remuneração à injusta distribuição de renda; do tratamento desumano que recebem nos serviços de saúde e policial ao assédio sexual. Essas discriminações e sua invisibilidade agravam os efeitos da violência física, sexual e psicológica contra as mulheres. Ações e lutas constantes são responsáveis pelas conquistas políticas e serviços públicos de atendimento às mulheres em situações de violência. Com a criação das delegacias para as mulheres, violência passa a ter visibilidade. Aparecem as denúncias de violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes. Embora ainda subnotificada e sem registro em muitas áreas, a violência contra a mulher já não pode deixar de ser reconhecida.
Evidenciaram-se as relações desiguais entre homens e mulheres. Introduziu-se o conceito de gênero, que mostra que não são naturais, nem fundadas nas diferenças biológicas, as discriminações e a prática da violência. São os papéis sociais impostos a homens e mulheres que determinam relações agressivas e hierárquicas. Os agressores visam dominar as mulheres, mantê-las sob o seu controle. As vítimas sofrem, “cronificadas†- tanto física como psicológica. Nas últimas décadas, as mulheres saíram em massa para o trabalho fora de casa e a maioria passou a controlar sua fertilidade, ampliando em muito a possibilidade de determinar a própria vida, escolhendo rumos que se foram distanciando cada vez mais da mulher submissa, restrita aos papéis de mãe e esposa, ou ao de objeto sexual.
Ferido com a possibilidade de perder o domínio, certas vezes o sexo masculino violenta e mata, porque nas relações entre homem e mulher eles querem o controle, o desejo de ter, de não perder, de que as mulheres nada queiram a não ser eles próprios. No mundo pré-histórico havia trabalhos de homens e trabalhos de mulheres que variavam de tribo para tribo. Eram trabalhos complementares: o princípio feminino e o princípio masculino governavam o mundo juntos. Com o advento do mundo agrário, começa também o “domínio do mais forteâ€. Na pré-história eram a solidariedade, a parceria e a propriedade comum do grupo inteiro que regiam todas as relações humanas. No período histórico este equilíbrio se rompe: a mulher passa a ser propriedade do marido e só volta ao mundo político com o avanço da tecnologia.
Durante os últimos 8 mil anos foi o homem que se tornou competitivo e violento, enquanto a mulher continuava no recesso da casa e a ser altruísta e solidária por uma única razão: se o bebê não tiver alguém absolutamente altruísta cuidando dele, não resiste um único dia!!! Deste modo, quando a presença feminina volta ao mundo público, ela o faz com os mesmos valores arcaicos: a solidariedade e o altruísmo. Inicialmente, tenta imitar o homem e ser competitiva, mas não consegue... Ela é sempre como um macho castrado, uma mulher de bigodes. Nos anos 80, faz uma revolução e traz para o mundo público os seus verdadeiros valores, que em toda a história eram somente dos homens, e é aí que a verdadeira revolução se dá. Hoje, nós, mulheres, estamos implodindo todos os sistemas simbólicos masculinos: a família, o sistema produtivo, o Estado. E se não trouxermos para eles os valores da solidariedade e do cuidado, nossa espécie acabará. Mas não basta ser mulher, apenas. É preciso que tenhamos uma militância e uma atitude política libertadora e não opressora como os homens. Os postos de comando que as mulheres devem conquistar têm que ser transformados, de corruptos em transparentes, da busca do interesse próprio à luta pelo bem comum, em políticas elaboradas de baixo para cima, por consenso político.
Uma mulher que compactua com corruptos, com a violência física e psicológica estará sempre comprometida com o que há de pior na sociedade. É preferível homens que tenham uma política consistente de gênero e libertação do oprimido e que a implementem, do que uma mulher que sirva ao poder estabelecido. Um outro mundo é possível, no qual para nós, não basta ser apenas mulher!!! (A autora, Luzia Conceição Quinezi, é professora, diretora e conselheira estadual da Apeoesp - Comissão Nacional contra a Discriminação Racial - CUT - CNCDR. Coordenação do Coletivo Estadual Milton Santos - Apeoesp)