Esportes

Tecnologia: Cartão eletrônico é novidade no futebol

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 6 min

Uma novidade tecnológica, criada em Bauru, promete revolucionar o futebol no Brasil e no mundo. Trata-se do primeiro cartão eletrônico para árbitros, que foi desenvolvido pelo técnico em informática Carlos Décio Braga, um mineiro de Juiz de Fora radicado na cidade desde 1996.

Excetuando-se o formato retangular, a versão eletrônica em nada lembra os cartões convencionais. Com ele, os jogadores serão advertidos através de duas luzes de xenon, uma amarela e outra vermelha, existentes em sua parte superior e acionadas por um mecanismo instalado no próprio equipamento, que também é capaz de armazenar previamente os números e nomes dos jogadores que disputarão os jogos.

Além disso, a “engenhoca” disponibilizará ao árbitro um maior conjunto de informações e recursos antes, durante e após as partidas. Entre eles, Braga cita a possibilidade de impressão da súmula. “O cartão executa essa operação, cabendo ao juiz apenas assinar. Não é prático?”, questiona o técnico.

Outra novidade do cartão eletrônico é que ele também aposenta objetos imprescindíveis ao árbitro na condução dos jogos, como as canetas, os cronômetros e até mesmo a moeda para o tradicional “cara ou coroa”, que dá o direito às equipes de escolher, antes do início das partidas, entre o lado do campo ou a posse de bola.

Isso torna-se possível porque o cartão eletrônico “embute” todos esses artefatos. “Com maior facilidade de manuseio, o árbitro ficará mais concentrado e diminuirá seu indíce de erros”, considera Braga. E para cumprir essa missão, o invento utilizará tecnologia de ponta, entre elas tela de cristal líquido (touch screen) e transmissão de dados “blue-tooth”(sem cabos). â€œÉ o que há de mais moderno hoje”, frisa ele.

Segundo o técnico, o objetivo de sua invenção não é o de alterar a rotina de trabalho dos juízes, mas inová-la com o uso de uma ferramenta mais moderna e eficaz. “Ele vem ao encontro das necessidades do árbitro moderno, pois a forma de construção adotada proporciona uma utilização mais rápida, fácil e com diagnóstico preciso em relação aos cartões atuais”, ressalta ele.

Ao enaltecer as vantagens do aparelho, Braga sustenta que estudos realizados detectaram inúmeras falhas na relação árbitro/cartões. “Todo o aparato de acessórios que este utiliza contribui ou gera, com certa freqüência, falhas técnicas decorrentes de precipitação, desperdício de tempo e perda de concentração, fatores imprescindíveis para que o profissional possa expressar toda sua competência.”

Segundo Braga, com o cartão eletrônico casos históricos como o da final do Campeonato Paulista de 1973 entre Santos e Portuguesa, em que o então árbitro Armando Marques errou na contagem de pênaltis decisiva e o título forçosamente acabou sendo dividido entre as equipes, nunca mais ocorrerão.

“Nos últimos 32 anos muita coisa mudou no futebol, mas os cartões não acompanharam esta evolução e se tornaram obsoletos. Com a versão eletrônica, nunca mais um mesmo jogador vai receber dois amarelos, pois o cartão monitora as rotinas e avisa o árbitro. Além disso, em uma disputa de penalidades, o cartão abre uma tela e contabiliza erros e acertos até o encerramento das cobranças”, explica Braga.

O técnico detalha que o cartão eletrônico também irá facilitar o trabalho dos profissionais da imprensa durante os jogos. “Integra o sistema um monitor de mesa, que armazenará toda informação digitada pelo árbitro e a disponibilizará, de forma transparente e com credibilidade, aos meios de comunicação”, diz ele.

Otimismo não falta a Braga ao falar dos planos traçados para o cartão eletrônico. Segundo o técnico, a receptividade à sua invenção tem sido excelente.

Um dos que se entusiasmaram com o projeto, conforme Braga, foi o presidente da Federação Paulista de Futebol, Eduardo José Farah. “Ele o aprovou de forma incontestável e chegou até a perguntar quando eu já poderia entregar 40 deles à entidade”, revela ele.

Só que os objetivos de Braga são mais ambiciosos. Ele espera, em um futuro próximo, fechar contrato com os maiores campeonatos de futebol do mundo, especialmente os europeus, onde ele considera ser o grande mercado para seu invento. “Acredito haver mercado para os dois modelos de cartões, mas creio que os atuais tornar-se-ão peças de museus em um curto espaço de tempo”, prevê.

E para tentar vencer esse desafio, deverá apresentar o cartão eletrônico brevemente à International Board, órgão vinculado à Federação Internacional de Futebol (Fifa), para sua apreciação. Além disso, em novembro, Braga viajará até a Holanda para participar de uma feira internacional de inovações tecnológicas que premia as melhores invenções.

Apoio em Bauru foi limitado

Durante os três anos de pesquisas necessárias para a sistematização do cartão eletrônico, Braga contou com a ajuda de vários profissionais. Entretanto, apesar de residir há quase sete anos na “Cidade Sem Limites”, foi apenas no ABC paulista que Braga encontrou o respaldo merecido à sua idéia.

Em Bauru, Braga obteve apenas a colaboração, na fase de relatório técnico descritivo, de professores de engenharia. Depois, usufruiu das informações técnicas do também bauruense Márcio Luiz Augusto, do quadro de árbitros da Federação Paulista de Futebol (FPF) e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), além do suporte de Gustavo Caetano Rogério, ex-diretor da escola de árbitros da FPF e instrutor da Escola Nacional de Arbitragem.

Com isso, e graças ao esforço de Braga, o cartão eletrônico está próximo de se transformar em realidade. Além de já ter dado entrada nos documentos de patente nacional e internacional, o técnico firmou convênio com uma instituição de ensino de Santo André para desenvolvimento de um protótipo da invenção, que seguirá um cronograma de seis a sete meses.

No município do ABC, o técnico administra uma empresa que obteve aprovação do seu plano de negócio, através de edital público, no processo de seleção para ingressar na Incubadora de Empresas Tecnológicas da cidade.

Braga enfatiza, ainda, que está recebendo todo o apoio necessário da prefeitura de Santo André. “Ele vai desde a assessoria no plano de negócios e passa pela patente, espaço físico na incubadora, convênio para construção do protótipo, suporte e capacitação tecnológico, além do auxílio de marketing e formação permanente do incubado em relação a cursos e palestras direcionados”, destaca ele.

O técnico mineiro/bauruense elogia também o profissionalismo da prefeitura do ABC. “Apresentamos um grande projeto e hoje tenho certeza que outra cidade jamais teria nos acolhido desta forma, oferecendo tamanho suporte e confiança”, afirma. Braga ressalta que, tão logo o protótipo eletrônico esteja concluído, Santo André será o palco de uma partida inaugural do cartão que já está sendo planejada.

Braga só lamenta o fato de, apesar das tentativas, seu projeto não ter tido apoio em Bauru. “Cheguei a levar ao conhecimento da Prefeitura a idéia do cartão eletrônico, mas não obtive retorno. É uma pena, pois todo esse agito que se vislumbra em torno da invenção poderia projetar o nome da cidade não só no Brasil, mas também no mundo”, conclui ele.

Procurada pela reportagem do JC para falar sobre o assunto, a assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal informou que, dentro de 20 dias, o Executivo firmará um convênio para a criação de uma incubadora na cidade, onde, segundo o assessor, o técnico Carlos Décio Braga poderia inscrever seu projeto.

Comentários

Comentários