Saúde

Erro de laboratório: falsos resultados são atribuídos à sensibilidade dos 'kits'

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

A discussão sobre a necessidade ou não de se repetir um exame de laboratório para confirmar resultados é antiga. Até que ponto deve-se confiar neles? Questionados sobre isso, médicos confirmam que os falsos-positivos e falsos-negativos podem realmente ocorrer. Segundo eles, isso depende do objetivo de cada teste e da sensibilidade do material utilizado para o exame.

Uma pedagoga de 38 anos, que pede para não ser identificada, conta que ficou apavorada quando recebeu uma carta do banco de sangue pedindo que ela comparecesse ao hemonúcleo porque seu sangue não seria aceito para doação. Ela afirma que recebeu a carta no dia 23 de dezembro, antevéspera de Natal. Os dias que se seguiram foram um verdadeiro martírio.

“Nestas horas, a gente não pensa em hepatite, chagas ou qualquer outra doença. A primeira coisa que vem na cabeça é: tenho aids. Se eu nunca tomei sangue na vida, se fiz todos os exames quando engravidei e estava tudo bem, quem poderia ter passado aquilo para mim? Meu marido. Ele diz que eu parecia querer fuzilá-lo com os olhos naqueles dias. Não tive Natal naquele ano”, lembra.

Tão logo acabou o feriado, lá estava ela para saber o que estava acontecendo. No banco de sangue, foi informada de que seus exames apresentavam anticorpos para o vírus da hepatite C e que, por isso, ela não poderia ser doadora de sangue, nem de órgãos.

“Fiquei preocupada. Tenho uma filha só e o sangue dela não é compatível com o do pai, só com o meu. Se algum dia ela precisar de um rim, um fígado ou mesmo de sangue, eu não poderia ser a doadora dela. O pai é incompatível, os avós poderiam não ser aceitos como doadores pela idade avançada, ela não tem irmãos e a compatibilidade entre terceiros é muito mais difícil”, comenta.

A pedagoga procurou logo seu médico particular, repetiu os exames e obteve a garantia do médico de que não tinha hepatite C, mas as dúvidas continuam. Hoje ela pensa em fazer um terceiro exame para se assegurar.

A história da manicure Wanda de Oliveira Santos Lima, 36 anos, é praticamente a mesma. Como a pedagoga, a primeira palavra que veio à cabeça dela foi aids, o que gerou um clima extremamente desagradável entre ela e o marido. “A sorte é que ele confiou em mim, porque ele poderia ter suspeitado do meu comportamento, ter me largado, com inúmeras outras conseqüências”, ressalta.

“Além disso, sou manicure e pensei logo no preconceito que enfrentaria se minhas clientes descobrissem que eu tinha uma doença transmissível pelo sangue”, acrescenta.

A manicure procurou o posto de saúde e iniciou um acompanhamento médico específico, enquanto o marido e a filha foram vacinados contra hepatite. “Só que eu engravidei cerca de um ano depois. Procurei o posto de saúde para o pré-natal e contei logo para o médico que eu havia recebido um exame positivo para hepatite C. Ele pediu novos exames e descobrimos que eu não tinha a doença”, observa.

As duas afirmam que preferem acreditar em seus segundos exames, mas admitem que ainda têm dúvidas sobre a doença, não sabem exatamente o que aconteceu, nem por que houve o engano. No fundo, a hepatite C parece atuar como um fantasma na vida destas pacientes.

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