Geral

Bioterrorismo: varíola é maior ameaça

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

A guerra contra o Iraque tem gerado em todo o mundo o medo de que governantes radicais façam uso de armas biológicas para derrotar o inimigo. Na opinião do infectologista Domingos Alves Meira, professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista de Botucatu (FMB/Unesp), a disseminação da varíola é a ameaça mais atemorizante para a humanidade.

“Em 1981, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou erradicada a varíola e mandou que fossem destruídas todas as cepas (origem) e amostras de vírus da doença, inclusive as vacinas, e assim foi feito no mundo inteiro. Apenas dois laboratórios no mundo foram autorizados a guardar exemplares do germe: o Centro de Controle de Doenças de Atlanta (CDC) e um laboratório de Moscou”, conta.

Ele comenta, porém, que pode ter havido um escape dessas cepas, principalmente porque a ordem de destruição foi dada na época da guerra fria e a política da antiga União Soviética era totalmente fechada ao Ocidente.

“O problema é que as pessoas que nasceram depois de 1980, quando a vacinação foi suspensa, não foram imunizadas contra a varíola. Se uma amostra do vírus voltar a circular, teremos uma massa absurda de pessoas suscetíveis à doença no mundo inteiro”, alerta.

Meira salienta que uma epidemia de varíola seria extremamente desastrosa para o mundo. “Para você ter uma idéia, essa pneumonia asiática mata 4% das pessoas infectadas. O índice de mortalidade da varíola é de 30%. E eu não vejo condições de se produzir a vacina em ritmo suficiente para proteger rapidamente os bilhões de habitantes do mundo”, comenta.

Meira afirma que leciona para alunos de medicina há 35 anos e que faz questão de ensinar varíola para todos os seus alunos, mesmo depois da doença ter sido considerada extinta pela OMS.

“Porque as novas gerações de médicos têm que estar preparadas para reconhecer o mais rapidamente possível uma doença que pode ressurgir. Não desejamos que aconteça, mas se acontecer, alguém tem que estar preparado para identificar, denunciar e tomar as devidas providências”, defende.

Antraz

Veiculado num pó branco e distribuído em cartas para várias personalidades depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos, o antraz é outro germe que poderia ser usado como arma biológica, segundo Meira.

“Imagine uma grande quantidade de antraz numa ogiva de foguete caindo num centro de grande concentração demográfica, esparramando o bacilo. Isso sim causaria pânico. E isso poderia ser usado como uma arma complementar a uma ação de destruição em massa. Primeiro eles usam as bombas e depois lançam o bacilo para garantir a destruição. Isso desarticularia qualquer Nação, por mais forte que seja”, antecipa o especialista.

Ele afirma que não acredita que as autoridades anglo-americanas usem tais dispositivos nesta batalha contra o Iraque. Mas diz temer que as armas biológicas sejam usadas em ações de retaliação posteriores a este combate.

“A devastação que a coalizão está fazendo no Iraque é mais do que suficiente. Mas eu vejo que os americanos não vão dormir mais a partir desta guerra, porque eles estão lutando contra uma das religiões mais difundidas do mundo e os atos terroristas podem ser incentivados por isso. O risco não é agora, mas sim depois, no ‘day after’”, opina.

Indagado sobre o risco de que esse tipo de arma possa dizimar ou mesmo extinguir a raça humana, Meira se mostra mais otimista. Ele argumenta que o ser humano tem um instinto de sobrevivência muito mais forte do que se imagina. Citando a teoria da evolução de Darwin, ele garante que todos os seres vivos, do menor vírus aos elefantes e baleias, têm uma preocupação inconsciente com a perpetuação da espécie.

“E isso envolve uma série de leis da natureza, que são muito fortes. Basta lembrar das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Morreram todos? Não. Morreram muitos, mas muitos sobreviveram. Porque, quando nascemos, temos um código genético, como um disco rígido, com toda a memória das defesas que vamos ter ao longo da vida”, ressalta.

Meira diz acreditar muito na ficção do filme “Planeta dos Macacos”, em que uma nave cai num planeta supostamente desconhecido e, depois de várias batalhas com os macacos que habitam o local, o personagem principal (Charlton Heston) encontra restos da Estátua da Liberdade e descobre que o planeta desconhecido era a Terra e que os macacos eram os sobreviventes do caos.

“Isso é uma esperança que temos - que o homem, mesmo com sua ação predadora, querendo destruir a própria humanidade, não vai conseguir. O filme é uma ficção, mas não deixa de ser uma possibilidade, uma possível conseqüência de um eventual holocausto deste tamanho. Acredito que o homem não tenha poder para destruir a humanidade inteira”, conclui.

Comentários

Comentários