Uma das coisas que mais me fascina no jornalismo é poder estampar numa mesma edição o sagrado e o profano, a tragédia e a alegria, o cotidiano coletivo e as descobertas únicas, que fazem a realidade do mundo. Mas nunca imaginei que retratar a realidade pudesse me levar a um mergulho na ficção.
Como Alice, que despencou no País das Maravilhas, numa tarde de segunda-feira entrei no universo de Mauro Rasi. As tias Marisa, Jussemy e Daisy, recém-chegadas do Rio de Janeiro, me aguardam na recepção com a foto do sobrinho no prato, tirada no Pão-de-Açúcar.
Num bate-papo de comadres, me mostraram que o diretor, com quem havia conversado por telefone para tirar uma mensagem para a edição especial do JC no Centenário de Bauru, era alguém especial, iluminado e com muito mais histórias que as contadas no teatro.
As matérias e o telefone nos aproximaram e percebi que, ao contrário do que diziam, Rasi era apaixonado por Bauru e foi na sua volta à cidade, depois de longos anos, que minha viagem começou. Testemunhei o reencontro de Mauro com o pai, seu Vado, com a sua casa e o seu quarto dos tempos de menino. Uma casa dos anos 50 em pleno centro da cidade na virada de século, com uma piscina que virou palco de um espetáculo que comoveu o País. Era estranho estar com um elenco de ficção, no cenário real, interagindo com as pessoas que inspiraram seus papéis.
Ao mesmo tempo, me tornava espectadora e personagem de uma nova história. Tive o privilégio de conversar com três Vados ao mesmo tempo, o Rasi, o Mamberti e Autran... Por incrível que pareça tinham os mesmos trejeitos.
Conheci um Mauro que poucos tiveram o prazer de conviver, dividi a alegria de prêmios e lhe dei colo quando o pai morreu. O menino que fez fortuna com a homenagem póstuma à mãe ficava órfão também do pai com quem aprendeu a arte de escrever, disputando a mesma folha de papel na velha máquina.
Mauro era um moleque irriquieto, que andava de um lado para outro, tinha mania de dieta e perguntava a cada segundo se estava bonito. Pedia palpite na camisa tirada de uma coleção de estampas e cores iguais. Vivia num apartamento enorme, com cinco gatos persas, cercado de gente inteligente e talentosa como ele, pessoas que viajaram o mundo, que leram muito, mas quando se sentia só não tinha vergonha de pedir colo, um cafuné e ainda perguntar se era amado.
Uma afirmativa bastava para a melancolia passar e Mauro voltar a ser o crítico feroz, um sarrista nato, perfeccionista, metódico, que fazia questão de acompanhar cada apresentação de seus espetáculos, com medo de que desvirtuassem sua obra. Certa vez, me ligou às quatro da manhã, desesperado, porque uma atriz tinha trocado um nome no texto e isso poderia comprometê-lo.
Ele era cosmopolita, gostava de luxo, mas numa tarde de férias, descalço e de bermuda xadrez na varanda de sua cobertura de frente para o mar, disparou com o sotaque mais caipira do mundo: “Queria tanto comer cural!!!”
A notícia de sua morte me fez relembrar muitas cenas dirigidas pelo amigo Mauro nos últimos anos. Mas ao contrário de Alice, o meu sonho foi real. (A autora, Luly Zonta, é jornalista do Jornal da Cidade)