Bairros

Carências vão além do 'arroz-feijão'

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 5 min

O Programa Fome Zero parece ser bem-vindo entre a população pobre de Bauru. As carências são tantas que toda forma de assistência é considerada válida. Além de alimentos, a população pede remédios, casa e emprego.

O idoso João Félix da Silva, que mora em um barraco no Parque Jaraguá, está desempregado e diz que não consegue trabalho porque sofre de problemas respiratórios.

Ele vende doces nas ruas e com o pouco que ganha sustenta a esposa e uma filha. “Tem dia que eu vendo R$ 3,00, R$ 4,00, R$ 5,00. Mas tem dia que eu não vendo nada. Quase não dá para comprar nada. A gente tenta se segurar do jeito que pode”, conta.

Segundo João, se não fosse a cesta básica que eventualmente recebe da igreja do bairro, ele e a família passariam fome. “Se fosse só do doce eu já teria morrido de fome”, diz.

José está fazendo um curso de artesanato no Núcleo de Apoio à Família (NAF) do Parque Jaraguá, mas ainda não vende os objetos que aprendeu a fazer porque não tem dinheiro para comprar materiais.

O morador do Jaraguá diz que gostaria de ter uma casa para morar e assim sair da favela. “A gente precisa ter uma vida melhor do que a que a gente tem. Nós não temos vida boa. Eu queria que o presidente da República fizesse alguma coisa para nos beneficiar. Eu votei nele”, enfatiza.

Cristiano Costa Tojal, outro morador do Jaraguá, está desempregado e precisa sustentar uma família com cinco integrantes. Ele veio de Alagoas, onde trabalhava como balconista de farmácia, e há quase um ano está em Bauru.

Cristiano está fazendo curso de preparação para o mercado de trabalho no NAF e espera que assim possa conseguir um emprego com mais facilidade.

“Primeiro passo do governo é dar prioridade às pessoas que não tenham condições. Alimentação, saúde e educação são fundamentais”, avalia.

Cícero José da Silva, outro desempregado do Parque Jaraguá, está com contas a pagar atrasadas e afirma que está bastante difícil conseguir dinheiro para comprar comida. “Comida não é caro. Caro é o dinheiro que a gente não arruma. A gente trabalha muito e ganha pouco. Fica difícil”, reclama.

Nessas condições, toda a ajuda é vista com bons olhos. “Quem puder ajudar com dinheiro, que ajude com dinheiro. Quem puder dar comida, que dê comida”, sugere.

Dependência

A moradora do Jardim Ivone Márcia Leite dos Santos acabou de sair da penitenciária e está desempregada. Ela depende do auxílio da mãe para sustentar a filha e o neto. Há pouco tempo, conseguiu um bico em outra cidade, mas desistiu porque não tinha nem o dinheiro para a condução.

“Para ser sincera, eu não entendo esse tal de Fome Zero. Eu acho que para acabar com a fome é preciso muita coisa. Não é só por aí. Eu acho que se cada um ajudasse um pouco, daria para amenizar a situação”, expõe.

Ela enfatiza que as dificuldades são diversas. Reclama das tarifas de água e luz, que considera caras, e do passe de ônibus, que não consegue pagar para ir à procura de emprego.

“Não é só a fome. São muitas necessidades. É remédio, calçado, roupa. Eu acho que o Fome Zero vai ajudar, mas não vai acabar com todos os problemas”, afirma Márcia.

“Não falta comida pela minha mãe. Se fosse pelas minhas condições, eu estaria passando fome”, acrescenta.

A mãe de Márcia, Maria Quitéria Leite dos Santos, sobrevive do lixo que recolhe nas ruas. Ela diz que alimentação e saúde são os principais problemas e também salienta que está difícil comprar comida. “A gente tem obrigação de pagar contas e fica difícil”, justifica.

A pensionista Laura de Moraes Nogueira, do Jardim Ivone, aprova o Fome Zero. “Precisa de tudo, mas o principal é a comida. Eu vejo tanta gente passando fome. O feijão está a preço de ouro no mercado. Daqui a alguns dias, pobre não poderá mais comer feijão. Não tem condições”, destaca.

Na favela Maria Célia, os problemas são semelhantes. Rosimeire de Andrade cata papel na rua, mas diz que sobrevive com a pensão dos filhos porque o dinheiro que recebe às vezes não compra nem uma cesta básica. “O pior é que o principal problema é a fome mesmo”, afirma.

Os moradores da favela dizem que as doações não chegam até eles e que falta comida em seus barracos. “Pra gente que mora aqui e que não paga água, nem luz nem aluguel, o principal mesmo é a comida”, revela Rosimeire.

Rosângela Cristina de Andrade, vizinha de Rosimeire, pede doações de alimentos. “A gente vê falar na televisão que estão fazendo campanha e vão doar para os pobres. Mas para cá a gente não vê nada disso”, reclama.

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Jovens aprovam programa

Adolescentes assistidos pelo Consórcio Intermunicipal da Promoção Social (Cips) e provenientes de famílias pobres de Bauru avaliam positivamente o Programa Fome Zero.

É o caso de Fernando Santana Gomes, 16 anos, que mora no Jardim Flórida. “O Fome Zero é para não deixar o povo passando por dificuldades e fome. Em qualquer lugar do País tem pessoas passando fome e aqui em Bauru também”, afirma.

“O Programa é uma boa idéia porque vai melhorar a situação aqui do Brasil. Vai abrir mais portas para emprego e as pessoas terão vida melhor”, acrescenta Fernando.

Gabriel Francisco Moreira, 14 anos, mora no Jardim Cruzeiro do Sul e também acha que em Bauru há muitas pessoas carentes. “Tem várias pessoas de vários bairros que estão passando por necessidade”, salienta.

Luciano Henrique, 15 anos e filho de faxineira, diz que a pobreza faz parte do cenário de seu cotidiano. “Eu vejo pela rua muita gente pedindo. Eu acho que aqui (em Bauru) tem bastante gente precisando”, observa.

Já Cláudio César Dias, 15 anos, convive com as necessidades em sua própria casa, no Pousada da Esperança. Apenas a tia trabalha para sustentar a família de oito pessoas. Ele diz que doações de alimentos seriam muito úteis em sua residência.

“É melhor ajudar as pessoas que estão precisando para que elas não roubem e não passem fome. Por isso que eu quero arrumar um serviço digno. Para ajudar com as coisas que estamos precisando dentro de casa”, explica.

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