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Criminalidade na América Latina


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Dois de cada cinco latino-americanos dizem que eles ou alguém da sua família foi vítima de um delito no último ano (LatinBarometro). Há 40 homicídios para cada cem mil habitantes por ano, 400% mais do que nos países desenvolvidos. O gasto em segurança pública e privada é altíssimo. Em 2001, o Brasil gastou US$ 46 bilhões, 10,3% de seu produto nacional bruto. Um gasto equivalente ao PNB do Chile. O México gastou 12,3% e a Colômbia 24,7%.

O que fazer? A solução mais difundida é a da “mão dura”, de reforçar a ação repressiva, que tem expressões freqüentes na região. Por exemplo, teve grande presença nas recentes eleições argentinas. Essa via defende o aumento do número de policiais e dar-lhes maior sensatez, reduzir as garantias que “impedem” a ação da força pública e reduzir a idade penal. Apresenta-se como a única via possível e atrai com facilidade setores dos eleitorados, que sem maiores informações acreditam que a questão é apenas policial.

A mão dura lota as prisões e cria o que o pesquisador francês Louis Vacquant chama de um “Estado penitenciário”, mas não ataca as raízes do problema do aumento da criminalidade. Os riscos deste enfoque podem ser pesados. Na América Latina pode criar um ambiente de opinião que comece a “criminalizar a pobreza”, a discriminar e tornar suspeita a população pobre apenas por ser pobre. Outro fator é a desarticulação de inúmeras famílias sob o impacto da pobreza. A família é a grande instituição preventiva do crime. Entrega aos jovens nas primeiras etapas da vida os valores éticos e os exemplos morais. Se enfraquece, deixa de cumprir essa função. Estudos da Cepal no Uruguai, e outros semelhantes feitos nos Estados Unidos, indicam que dois terços dos delinqüentes jovens vêm de famílias desarticuladas.

A delinqüência também está ligada aos baixos níveis de educação e às altas taxas de evasão escolar. Análise do BID na América Central, onde aumentaram os grupos criminosos juvenis, mostram as seguintes características de seus integrantes: deixaram a escola, não têm espaços para recreação e esporte, são vítimas de violência doméstica, estão fora do mercado formal de trabalho.

A solução está em investir muito mais na geração de empregos e oportunidades de cultura, esporte e recreação para os jovens, no fortalecimento da família e aumento da escolaridade. O enfoque preventivo orientou algumas das experiências internacionais de maior êxito para reduzir a criminalidade em algumas cidades - como Boston e São Francisco, nos Estados Unidos - e em países como Finlândia, que tem o menor número de presos da Europa e, ao mesmo tempo a menor quantidade de policiais.

A América Latina está em uma encruzilhada nesta questão. Avançará pela via da mão dura que parece conduzir, por fim, à criminalização da pobreza, ou procurará criar oportunidades para o imenso contingente de jovens excluídos e promover por todos os meios a integração social?. É urgentemente necessário melhorar o muito pobre debate atual, cheio de slogans e promessas demagógicas, e dar à opinião pública pesquisas, dados e elementos sérios sobre as causas profundas do problema. O que está em jogo é muito importante, é a qualidade ética de nossas sociedades. (O autor, Bernardo Kliksberg, dirige a Iniciativa Interamericana de Capital Social, Ética e Desenvolvimento do BID)

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